4 de junho de 2026

O assassino tranquilo, por Sylvia Moretzsohn

O Derrite (logo quem) reage indignado e promete "severa punição" a esses policiais cuja conduta não se coaduna com "anos de legado da PM".
Miguel Paiva

O assassino tranquilo

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por Sylvia Moretzsohn

O que mais choca na atitude do policial que matou o ladrão de três frascos de produtos de limpeza numa loja de conveniência em São Paulo é a tranquilidade.

As câmeras de segurança documentam tudo: o sujeito vestido com um agasalho com capuz entra na loja, circula brevemente pelas gôndolas, pega a mercadoria e sai correndo. Escorrega no papelão debaixo do tapete na porta, ainda se levanta e recolhe os produtos, mas é atingido e cai na calçada.

O policial, à paisana, está ao lado da porta e não titubeia: saca a arma, atira várias vezes no homem pelas costas, depois guarda a arma e caminha serenamente até ele, caído e provavelmente já morto.

Depois, apesar das imagens das câmeras, diz que agiu em legítima defesa.

Um advogado especialmente cínico poderá dizer que foi mesmo legítima defesa, mas da propriedade privada.

Também em São Paulo pudemos apreciar uma nova modalidade de abordagem: um policial, numa ação ainda não esclarecida, conduz calmamente um sujeito por uma ponte e de repente o atira para o rio.

O Derrite (logo quem) reage indignado e promete “severa punição” a esses policiais cuja conduta não se coaduna com “anos de legado da PM”.

O Caco Barcellos já mostrou bem que legado é esse.

E eu não sei por que ainda me impressiono com tudo isso, já que é tudo tão natural.

Talvez seja porque é insuportável.

Sylvia Moretzsohn é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1981), com mestrado em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (2000) e doutorado em Serviço Social pela UFRJ (2006). Professora aposentada do Departamento de Comunicação Social da UFF desde 2016, colaboradora com o Observatório da Imprensa, pesquisadora do ObjETHOS. No pós-doutorado, dedica-se a averiguar a dinâmica da formação de crenças e convicções nas bolhas virtuais e as dificuldades e possibilidades do jornalismo nesse contexto.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

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2 Comentários
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  1. Carlos vieira

    3 de dezembro de 2024 1:31 pm

    A hipocrisia é o diploma do Milico que governa e do Milico que nem se lembra de quantos matou.Hoje o passador de pano no parabrisa das viaturas, ao se deparar com a quantidade de nós os pagantes de seus soldos, assassinados.

  2. Clayton Wander Nascimento de Sales

    3 de dezembro de 2024 6:01 pm

    Os mandantes do governo no fundo devem estar se coçando pra dar uma medalha para cada um desses criminosos de farda.

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