Palavras não ditas, por Gianluca Florenzano

O gesto dos Panteras Negras feito por Tommie Smith e John Carlos no pódio nas Olimpíadas do México de 1968 inspira gerações até hoje

Foto Columbia

Palavras não ditas

por Gianluca Florenzano

Sem dizer uma palavra se quiser. Apenas com um simples gesto. Simples, porém simbólico. Foi desta maneira que os atletas Tommie Smith e John Carlos fizeram os Estados Unidos encararem seu racismo sistêmico perante o mundo nas Olimpíadas do México de 1968.

Tudo começou um ano antes, em 1967, em uma das primeiras reuniões formada pela organização National Black Power Conference (Conferência Nacional do Poder Negro) que procurava estruturar os próximos passos na luta contra a injustiça racial nos Estados Unidos. Entretanto, o que tornou essa reunião notícia nacional foi quando aproximadamente 200 pessoas do movimento Olympic Project for Human Rights (Projeto Olímpico para os Direitos Humano), formado por ativistas e atletas, manifestaram-se unanimemente para boicotar os Jogos Olímpicos do México.

No depoimento mais marcante do encontro, o jogador de basquete Ferdinand Lewis “Lew”Alcindor Jr., que mais tarde adotaria o nome árabe de Kareem Abdul-Jabbar e se tornaria um dos melhores atletas de todos os tempos, proferiu o seguinte discurso:

“Eu sou uma grande estrela do basquete, o herói do final de semana, todos somos americanos, bem, no verão passado, eu fui quase morto por um policial racista que estava atirando em um gato preto no [bairro nova-iorquino do] Harlem. Ele estava atirando na rua – onde várias pessoas negras estavam por perto ou apenas conversando na calçada. Mas ele nem ligou. Afinal de contas nós éramos apenas negros. Eu descobri no verão passado que nós não vivemos no inferno porque não somos estrelas do basquete ou porque não temos dinheiro. Nós vivemos no inferno porque somos todos negros.

Em algum momento, alguns de nós precisam tomar uma posição contra esse tipo de coisa. É assim que eu irei tomar a minha posição – usando o que tenho. E eu tomo a minha posição aqui.”

Os atletas afro-estadunidenses perceberam que não importava o quanto se destacavam dentro do esporte, eles ainda assim iriam sofrer os males do preconceito racial. Entretanto, por outro lado, os atletas e os ativistas passaram a compreender que o esporte poderia ser utilizado como uma poderosa ferramenta de combate ao racismo. Graças aos holofotes que os jogadores conquistavam com suas performances dentro das arenas esportivas, eles transmitiam de forma clara e precisa a mensagem da causa negra para todo o país.

Com o ativismo negro ganhando cada vez mais adeptos no universo esportivo, aos poucos, a ideia de abandonar os Jogos Olímpicos de 1968 ganhava cada vez mais força. Com efeito, não demorou muito para que a National Black Power Conference lançasse uma resolução para os desportistas afro-estadunidenses pedindo que eles se recusassem a participar da Olimpíada que estava por vir. Em uma declaração feita à época, Tommie Smith (que já se destacava como um grande velocista) explicou o quão importante era abandonar os Jogos Olímpicos de 1968:

“Eu não acho que esse boicote das Olimpíadas parará o problema, mas penso que as pessoas verão que nós não vamos ficar parados e aguentar esse tipo de coisa. Nosso objetivo não será apenas melhorar as condições para nós mesmos e nossos colegas, mas sim melhorar as coisas para toda comunidade negra… Talvez a discriminação não irá acabar nos próximos 10 anos, mas isso representará um outro desenvolvimento importante [nesta direção]”.

De fato, o racismo nos Estados Unidos não acabaria de um dia para o outro. Mas, aqueles que desejavam aderir ao boicote tinham em mente que esta era uma das principais formas de avançar na luta por igualdade e justiça social no país. Em termos mais claros, a recusa em participar da Olimpíada tratava-se de utilizar estrategicamente o evento internacional no qual os Estados Unidos realizavam a sua “propaganda esportiva e política”, para expor ao mundo a falsa imagem de que era uma nação que assegurava oportunidades iguais para brancos e negros.

Por mais que o movimento defendesse uma causa nobre, no entanto, para proceder ele esbarrava em uma enorme barreira. Para que o boicote fosse realmente concretizado, era preciso que os atletas negros fizessem o maior sacrifício de suas vidas: renunciar ao sonho de participar dos Jogos Olímpicos. Um dos fundadores e principais lideranças do Olympic Projects for Human Rights, o ex-velocista e medalhista olímpico Lee Edwards Evans, por exemplo, deu a seguinte declaração:

“[…] as Olimpíadas é algo que eu sonho em participar desde que eu aprendi a correr pela primeira vez. Mas se a porta para a liberdade do povo negro… pode ser aberta pela minha não participação, então eu não irei participar”.

Smith também seguia na mesma linha de pensamento:

“Eu daria meu braço direito para participar [dos Jogos Olímpicos] e conquistar uma medalha de ouro, mas… eu estou disposto a não apenas desistir dos jogos, como da minha vida também, se isso for necessário para abrir a porta da qual a opressão e a injustiça sofrida pela população negra nos Estados Unidos fosse aliviada”.

O problema, contudo, era que nem todos os atletas se mostravam dispostos a abandonar o sonho de suas vidas. Assim, após várias reuniões organizadas pelos desportistas afro-estadunidenses junto a ativistas da causa negra, além de uma enorme pressão – para não dizer perseguição – do governo dos Estados Unidos na época, o boicote aos Jogos Olímpicos de 1968 não foi colocado em prática e os atletas, incluindo Smith, viajaram ao México para disputar a competição.

Entretanto, isso não era um sinal de que o movimento havia fracassado. Pelo contrário, mais do que lutar contra o preconceito racial dentro do país, “A Revolta do Atleta Negro” (como mais tarde o movimento do boicote ficou conhecido) serviu para alavancar o orgulho negro dentro da comunidade afro-estadunidense, como fica ilustrado nas seguintes palavras de Evans:

“Bastante militância estava surgindo nas comunidades negras. Nós paramos de nos referir como de cor ou negro. Nós somos pretos ou não somos pretos. Um corte de cabelo afro era uma demonstração de nacionalismo preto. 1967 foi o primeiro ano em que senti orgulho de a minha cor de pele ser preta”.

“A Revolta do Atleta Negro”, porém, ainda tinha uma carta na manga para ser jogada na Olimpíada do México. Ao disputar a prova dos 200 metros rasos, Smith não apenas foi o vencedor da corrida como também foi o primeiro homem a derrubar a marca dos 20 segundos, chegando no tempo de 19s83. O recorde, todavia, ficaria em segundo plano na história.

Na época, após a corrida, os competidores se dirigiam aos vestiários para esperar que a cerimônia da entrega das medalhas estivesse pronta. Nos vestiários, a portas fechadas, ele junto ao seu compatriota John Wesley Carlos, conhecido apenas como John Carlos, que ficou em terceiro lugar, discutiam a ação que impactaria o mundo e se tornaria um dos principais símbolos da causa negra.

Smith pegou um par de luvas pretas e deu a da mão esquerda para Carlos, ficando com a da direita. Em seguida, explicou ao seu compatriota o que pretendia fazer e disse as seguintes palavras: “O hino nacional [estadunidense] é uma música sagrada para mim. Isso não pode ser desleixado. Tem que ser limpo e abrupto”. O recordista olímpico também entregou um broche escrito “Olympic Project for Human Rights” para o australiano Peter George Norman, segundo colocado na prova, que usou para mostrar solidariedade à causa.

Estava na hora. Os três subiram no pódio. O hino nacional começou a tocar e a bandeira dos EUA subia pelo mastro. Enquanto isso, Smith erguia o seu punho direito vestindo a luva preta e Carlos erguia o seu punho esquerdo vestindo o outro par da luva. Era o gesto tradicional dos Panteras Negras, ou, de maneira mais ampla, do movimento Black Power, cuja expressão no campo esportivo era justamente o “Olympic Project for Human Rights”. Suas cabeças e seus olhares estavam para baixo. Os atletas, sem dizer nenhuma palavra, davam a mensagem. Ela era clara e ensurdecedora. E, diante dessa cena, o planeta ficava de boca aberta e pasmo. Após a cerimônia da entrega de medalhas, o recordista olímpico deu uma breve, mas impactante, explicação do gesto realizado por ele e Carlos no pódio:

“Meu braço direito erguido representou o poder da América negra. O braço esquerdo erguido de Carlos representou a união da América negra. Juntos eles formaram um arco de união e poder. O cachecol preto no meu pescoço representou o orgulho negro. As meias pretas sem os tênis representaram a pobreza negra na América racista. A totalidade do nosso esforço foi a recuperação da dignidade negra”.

O gesto dos Panteras Negras feito por Smith e Carlos no pódio inspira gerações até hoje. Atletas das mais diversas modalidades e nacionalidades, especialmente após a onda de manifestações antirracistas que tomou conta do esporte após a morte de George Floyd em 2020, continuam a erguer os seus punhos fechados para o alto. Não à toa, “A Revolta do Atleta Negro” é considerada um marco não apenas no esporte como também na luta por igualdade racial.

Gianluca Florenzano – escritor, mestre em ciências sociais, jornalista e pesquisador. Autor do livro: “O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo”

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