Uma denúncia enviada à Controladoria-Geral do Município de São Paulo (CGM – Controladoria-Geral do Município de São Paulo), em 17 de abril de 2026, acende um alerta sobre o futuro do Bilhete Único (BU – sistema de bilhetagem eletrônica do transporte público municipal).
O documento, dirigido ao controlador-geral Daniel Falcão, descreve um suposto processo de captura do sistema por um grupo empresarial com vínculos políticos com o Progressistas (PP – Partido Progressistas).
A denúncia sustenta que o movimento não ocorreu de forma abrupta — mas em três camadas, combinando engenharia institucional, ocupação de cargos-chave e decisões técnicas com forte impacto operacional.
A origem: uma associação privada no coração do sistema público
O ponto de partida remonta a 2019, no âmbito da Secretaria de Transportes Metropolitanos de São Paulo (STM – Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo), então comandada por Alexandre Baldy.
Naquele ano, foi criada a ABASP (Associação Brasileira das Empresas de Bilhetagem e Serviços Públicos), uma entidade privada que reúne empresas públicas — como o Metrô de São Paulo (Companhia do Metropolitano de São Paulo) e a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) — além de operadores de ônibus da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo).
Pouco depois, a associação contratou a AUTOPASS (empresa privada de bilhetagem eletrônica) por 20 anos, sem licitação, sob a justificativa de inexigibilidade.
O ponto mais sensível: segundo a denúncia, 14 dos 24 associados fundadores da ABASP são sócios indiretos da própria AUTOPASS. Em termos práticos, os operadores teriam criado a entidade, ocupado suas instâncias decisórias e contratado a empresa da qual são beneficiários — um arranjo que levanta suspeitas de autocontratação.
O caso está sob análise do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP – Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) desde 2022.
A migração: o avanço para dentro da prefeitura
A segunda etapa, segundo o documento, começa em janeiro de 2025, quando o PP assume o controle da Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito de São Paulo (SMT – Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito) e da SPTrans (São Paulo Transporte S.A.).
A denúncia aponta que cargos estratégicos passaram a ser ocupados por ex-integrantes da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo) e da CPTM — órgãos diretamente ligados ao ambiente onde o modelo ABASP/AUTOPASS foi estruturado.
Entre os nomes citados, está o secretário Celso Caldeira, que teria sido conselheiro da ABASP quando da aprovação da contratação hoje questionada.
Já o presidente da SPTrans, Victor Hugo Borges, é descrito como próximo de Zeca Romano, ligado à família Setti Braga, principal acionista da AUTOPASS.
Para os autores da denúncia, trata-se de um padrão clássico de “porta giratória”: quando agentes que atuam na formulação de políticas passam a ocupar posições decisórias diretamente relacionadas a interesses privados já estabelecidos.
O elo político-empresarial
No centro da articulação aparece o advogado Ivan Lima, representante de empresários de ônibus da RMSP e dirigente do PP.
Segundo a denúncia, ele atua como ponte entre o partido, os operadores e a AUTOPASS.
A peça também menciona a empresa DOGMA (terceirização de serviços), pertencente a familiares de Lima, que já presta serviços à AUTOPASS e estaria sendo gradualmente inserida em contratos da SPTrans.
A hipótese é que essa inserção funcione como porta de entrada operacional para uma futura migração do BU — uma estratégia de ocupação indireta e progressiva.
O ponto crítico: decisões técnicas que travam o sistema
É na camada técnica que a denúncia ganha maior peso.
Dos 11 projetos de modernização do BU, seis foram suspensos pela atual gestão da SPTrans.
O principal deles, o “Projeto Fraude Zero”, utiliza o padrão SL3 (Security Level 3 – nível avançado de criptografia) e estaria pronto para implementação.
A justificativa para a suspensão foi a incompatibilidade com os validadores da AUTOPASS.
Na prática, dizem os denunciantes, a adoção do novo sistema exigiria a substituição da infraestrutura atual — tornando inviável a continuidade do modelo vigente.
A leitura sugerida é direta: decisões técnicas estariam sendo usadas para manter o sistema preso a uma arquitetura específica, impedindo avanços que poderiam reduzir dependências.
Riscos: dados, dinheiro e controle
A denúncia aponta três riscos centrais:
- Financeiro: a ABASP apresenta déficit de R$ 106 milhões e patrimônio líquido negativo
- Contratual: possibilidade de transferência de receita pública sem licitação
- Dados pessoais: risco de violação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados – Lei nº 13.709/2018), envolvendo cerca de 30 milhões de cadastros
O que está em jogo
Ao final, os autores pedem a suspensão imediata de qualquer movimento de transferência do sistema, a apresentação dos fundamentos técnicos das decisões recentes, investigação por conflito de interesses e envio do caso ao Ministério Público (MP – Ministério Público).
Mais do que uma disputa administrativa, o caso levanta uma questão estrutural: quem controla a infraestrutura invisível que move a mobilidade urbana — e, com ela, um fluxo bilionário de dados e receitas.
Se confirmadas, as suspeitas apontam para um modelo que não se impõe por decreto, mas por engrenagem: começa na arquitetura institucional, avança pelas nomeações e se consolida nas decisões técnicas.
No fim, o usuário só percebe quando o cartão continua funcionando — mas o controle já mudou de mãos.
E aí, como costuma acontecer nesses casos, o sistema não quebra. Ele apenas muda de dono sem avisar.
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carlos.freitas
6 de maio de 2026 11:50 amMuito bom o texto , é importante, essa discussão , merece ser retomada e ampliada. A Gratuidade do transporte (obrigatório) pra maioria não é um assunto qualquer; MAS, ficou evidente a participação de uma IA na elaboração do texto, todas as características de texto feito por ou com a ajuda de IA estão presentes, e isso seria importante de ser claramente declarado, num futuro deve ser abolido (a declaração ) , mas aí coitados dos nossos jornalistas preferidos…