24 de junho de 2026

Bilhete Único sob disputa: a captura do sistema por um grupo empresarial

Denúncia descreve um suposto processo de captura do sistema por um grupo empresarial com vínculos políticos com o Partido Progressistas
Reprodução

Denúncia à CGM-SP aponta suposta captura do Bilhete Único por grupo ligado ao PP, envolvendo ABASP e AUTOPASS.
PP assumiu SMT e SPTrans em 2025, com cargos estratégicos ocupados por ex-EMTU e CPTM, favorecendo interesses privados.
Seis de 11 projetos de modernização do Bilhete Único foram suspensos, mantendo sistema atual e riscos financeiros e de dados.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Uma denúncia enviada à Controladoria-Geral do Município de São Paulo (CGM – Controladoria-Geral do Município de São Paulo), em 17 de abril de 2026, acende um alerta sobre o futuro do Bilhete Único (BU – sistema de bilhetagem eletrônica do transporte público municipal).

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O documento, dirigido ao controlador-geral Daniel Falcão, descreve um suposto processo de captura do sistema por um grupo empresarial com vínculos políticos com o Progressistas (PP – Partido Progressistas).

A denúncia sustenta que o movimento não ocorreu de forma abrupta — mas em três camadas, combinando engenharia institucional, ocupação de cargos-chave e decisões técnicas com forte impacto operacional.

A origem: uma associação privada no coração do sistema público

O ponto de partida remonta a 2019, no âmbito da Secretaria de Transportes Metropolitanos de São Paulo (STM – Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo), então comandada por Alexandre Baldy.

Naquele ano, foi criada a ABASP (Associação Brasileira das Empresas de Bilhetagem e Serviços Públicos), uma entidade privada que reúne empresas públicas — como o Metrô de São Paulo (Companhia do Metropolitano de São Paulo) e a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) — além de operadores de ônibus da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo).

Pouco depois, a associação contratou a AUTOPASS (empresa privada de bilhetagem eletrônica) por 20 anos, sem licitação, sob a justificativa de inexigibilidade.

O ponto mais sensível: segundo a denúncia, 14 dos 24 associados fundadores da ABASP são sócios indiretos da própria AUTOPASS. Em termos práticos, os operadores teriam criado a entidade, ocupado suas instâncias decisórias e contratado a empresa da qual são beneficiários — um arranjo que levanta suspeitas de autocontratação.

O caso está sob análise do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP – Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) desde 2022.

A migração: o avanço para dentro da prefeitura

A segunda etapa, segundo o documento, começa em janeiro de 2025, quando o PP assume o controle da Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito de São Paulo (SMT – Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito) e da SPTrans (São Paulo Transporte S.A.).

A denúncia aponta que cargos estratégicos passaram a ser ocupados por ex-integrantes da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo) e da CPTM — órgãos diretamente ligados ao ambiente onde o modelo ABASP/AUTOPASS foi estruturado.

Entre os nomes citados, está o secretário Celso Caldeira, que teria sido conselheiro da ABASP quando da aprovação da contratação hoje questionada.

Já o presidente da SPTrans, Victor Hugo Borges, é descrito como próximo de Zeca Romano, ligado à família Setti Braga, principal acionista da AUTOPASS.

Para os autores da denúncia, trata-se de um padrão clássico de “porta giratória”: quando agentes que atuam na formulação de políticas passam a ocupar posições decisórias diretamente relacionadas a interesses privados já estabelecidos.

O elo político-empresarial

No centro da articulação aparece o advogado Ivan Lima, representante de empresários de ônibus da RMSP e dirigente do PP.

Segundo a denúncia, ele atua como ponte entre o partido, os operadores e a AUTOPASS.

A peça também menciona a empresa DOGMA (terceirização de serviços), pertencente a familiares de Lima, que já presta serviços à AUTOPASS e estaria sendo gradualmente inserida em contratos da SPTrans.

A hipótese é que essa inserção funcione como porta de entrada operacional para uma futura migração do BU — uma estratégia de ocupação indireta e progressiva.

O ponto crítico: decisões técnicas que travam o sistema

É na camada técnica que a denúncia ganha maior peso.

Dos 11 projetos de modernização do BU, seis foram suspensos pela atual gestão da SPTrans.

O principal deles, o “Projeto Fraude Zero”, utiliza o padrão SL3 (Security Level 3 – nível avançado de criptografia) e estaria pronto para implementação.

A justificativa para a suspensão foi a incompatibilidade com os validadores da AUTOPASS.

Na prática, dizem os denunciantes, a adoção do novo sistema exigiria a substituição da infraestrutura atual — tornando inviável a continuidade do modelo vigente.

A leitura sugerida é direta: decisões técnicas estariam sendo usadas para manter o sistema preso a uma arquitetura específica, impedindo avanços que poderiam reduzir dependências.

Riscos: dados, dinheiro e controle

A denúncia aponta três riscos centrais:

  • Financeiro: a ABASP apresenta déficit de R$ 106 milhões e patrimônio líquido negativo
  • Contratual: possibilidade de transferência de receita pública sem licitação
  • Dados pessoais: risco de violação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados – Lei nº 13.709/2018), envolvendo cerca de 30 milhões de cadastros

O que está em jogo

Ao final, os autores pedem a suspensão imediata de qualquer movimento de transferência do sistema, a apresentação dos fundamentos técnicos das decisões recentes, investigação por conflito de interesses e envio do caso ao Ministério Público (MP – Ministério Público).

Mais do que uma disputa administrativa, o caso levanta uma questão estrutural: quem controla a infraestrutura invisível que move a mobilidade urbana — e, com ela, um fluxo bilionário de dados e receitas.

Se confirmadas, as suspeitas apontam para um modelo que não se impõe por decreto, mas por engrenagem: começa na arquitetura institucional, avança pelas nomeações e se consolida nas decisões técnicas.

No fim, o usuário só percebe quando o cartão continua funcionando — mas o controle já mudou de mãos.

E aí, como costuma acontecer nesses casos, o sistema não quebra. Ele apenas muda de dono sem avisar.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. carlos.freitas

    6 de maio de 2026 11:50 am

    Muito bom o texto , é importante, essa discussão , merece ser retomada e ampliada. A Gratuidade do transporte (obrigatório) pra maioria não é um assunto qualquer; MAS, ficou evidente a participação de uma IA na elaboração do texto, todas as características de texto feito por ou com a ajuda de IA estão presentes, e isso seria importante de ser claramente declarado, num futuro deve ser abolido (a declaração ) , mas aí coitados dos nossos jornalistas preferidos…

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