22 de maio de 2026

A má vontade sobre o documentário “Apocalipse nos Trópicos”, por Luís Nassif

Não era intenção do documentário discutir todas as nuances dos evangélicos, e os ângulos da religião não ligados ao jogo político.
Divulgação

Quando li, na Folha, o artigo “´Apocalipse nos Trópicos´ ignora catolicismo e reforça estereótipos”, de Tabata Tesser, Mestre em ciência da religião (PUC-SP), julguei que era uma crítica correta sobre o filme. Isso, antes de assistir o documentário.

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O que dizia o artigo:

Ponto 1 – o documentário não menciona o declínio da religião católica, como um dos motivos para a ascensão da religião evangélica.

Ponto 2 – reforça um dualismo simplista, que os católicos são bons, porque defendem os pobres, e os evangélicos são maus.

Ponto 3 –  Ao eleger Malafaia como figura central, quase como o “sindicalista” dos evangélicos, o documentário exagera sua influência, ignora o jogo partidário e a complexidade das bases evangélicas: suas múltiplas vertentes, redes de solidariedade, disputas locais em Conselhos Tutelares e espaços participativos — e os múltiplos sentidos da fé em contextos populares.

Ponto 4 – Por fim, ao adotar uma estética e narrativa apocalíptica, o documentário sugere que vivemos uma distopia religiosa que foi “pausada” com a vitória de Lula em 2022.

Depois de assistir o documentário, a impressão é de uma crítica de má vontade.

Ponto 1 – no documentário mostra-se, claramente, a ruptura na Igreja católica com o fim da teologia da libertação. Primeiro, mostra Dom Pedro Casaldáliga. Depois, menciona Henry Kissinger convencendo o Departamento de Estado de que o movimento era contra os Estados Unidos, e recomendando o estímulo aos neopentecostais. As cenas com Dom Pedro Casaldáliga simbolizam a Igreja antes do fim da Teologia da Libertação. A sequência é clara para mostrar a ruptura da Igreja com a Teologia da Libertação como passo inicial de seu afastamento dos pobres.

Ponto 2 – com exceção de Casaldáliga não há uma menção sequer à Igreja Católica.o contraponto à visão catastrofista de Malafaia, e o discurso de que Jesus é amor, são feitos por outros pastor evangélico, não por um padre católico.

Ponto 3 – o destaque a Malafaia é jornalisticamente correto. Ele foi o elo central do apoio dos evangélicos a Bolsonaro. E o documentário é sobre a ascensão de um candidato que usa a religião como bandeira, não uma proposta de discutir todas as nuances do neopentecostalismo.

Ponto 4 – o documentário foi sutil, ao colocar, primeiro, Lula criticando o uso político das igrejas. Depois, ironizando o discurso dos sindicalistas e da Igreja católica, em comparação com o dos pastores evangélicos. Depois, Lula indo a um templo e desdizendo seu discurso inicial e endossando a bobagem sobre banheiros unissex, criticando o aborto. Tudo isso para a conclusão final: o retrocesso civilizatório, com o domínio da religião sobre o estado laico.

Ou seja, tudo o que a crítica diz que o documentário não tem, o documentário tem. A diretora optou por montar um roteiro – com um texto muito bem elaborado – abordando o uso da religião por um pastor megalomaníaco, Silas Malafaia, visando eleger um presidente joguete, Jair Bolsonaro.

Não era intenção do documentário, nem caberia em 90 minutos, discutir todas as nuances dos evangélicos, e os ângulos da religião não ligados diretamente ao jogo político.

Mas, aí, a professora recorre a um truque habitual da crítica ligeira: em vez de criticar o que o documentário diz, prefere se concentrar no que ele não se propôs a dizer. Com esse critério, nenhuma obra literária ou cinematográfica escaparia ilesa. O papel do crítico precisa ser entender a proposta do autor e discutir o conteúdo dentro do que foi proposto.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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10 Comentários
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  1. GIL CARLOS TEIXEIRA

    21 de julho de 2025 9:03 am

    Li certa vez: “Critico é aquela galinha que cacareja enquanto as outras botam ovos.”

    1. Alexis

      21 de julho de 2025 9:54 pm

      Ótimas considerações do Nassif.

  2. Rui Ribeiro

    21 de julho de 2025 9:37 am

    Condolências para os Entes Queridos da Preta Gil.

    Então vale a pena
    (Gilberto Gil)

    Se a morte faz parte da vida
    E se vale a pena viver
    Então morrer vale a pena
    Se a gente teve o tempo para crescer
    Crescer para viver de fato
    O ato de amar e sofrer
    Se a gente teve esse tempo
    Então vale a pena morrer

    Quem acordou no dia
    Adormeceu na noite
    Sorriu cada alegria sua
    Quem andou pela rua
    Atravessou a ponte
    Pediu bênção à dindinha lua
    Não teme a sua sorte
    Abraça a sua morte
    Como a uma linda ninfa nua

  3. evandro

    21 de julho de 2025 12:39 pm

    Caro Nassif. Não sei se teria tempo ou disposição, mas uma ida ao Facebook ou Instagran te deixará abismado com o que há e ocorre tanto entre evangélicos quanto católicos (se quiser incluir, há os espíritas e os místicos de toda natureza, entre outros). E pode ler também os comentários das publicações. A quantidade é assustadora e, pra mim o pior, não há arguemntos a serem apresentados que se consiga uma conversa decente.

  4. Marcílio Godoi

    21 de julho de 2025 12:47 pm

    Concordo, mas não compreendo por que o principal nome do neopentescostalismo, Edir Macedo, e seus helicópteros repletos de dinheiro sem pagar impostos, que tem um livro best seller “Nada a perder” em 3 volumes, biografia sobre seu projeto de poder político, foi sumariamente ignorado.

  5. jsfilho

    21 de julho de 2025 2:45 pm

    Algumas das criticas que vêm de acadêmicos tem esse problema: exigem da obra de arte o rigor da banca de uma tese de doutorado. Ora, é só a expressão artística (não científica) da subjetividade do autor. O filme da Petra é bom. Não dá conta de tudo que cerca o fenômeno evangélico. Mas é uma ótima contribuição para uma reflexão crítica.

  6. Luiz Fernando Juncal Gomes

    21 de julho de 2025 2:54 pm

    O documentário está corretíssimo.
    As críticas negativas que li são um recibo de completo desconhecimento do que se passa no Brasil Profundo, que começa a 30 Km da Faria Lima.
    Por coincidência, ontem compartilhei uma lembrança do Facebook, uma capa da revista Carta Capital, edição de 22.07.2012, há exatos 13 anos.
    https://www.facebook.com/photo?fbid=152919871499066&set=a.152906924833694
    A chamada de capa:
    “O Brasil Evangélico – Os fiéis chegaram a um quinto da população, podem somar um terço em 10 anos”.
    Não só chegaram como ultrapassaram a meta.
    A eleição municipal do ano passado mostrou claramente a invasão evangélica na política, conquistando cidades pequenas que, ingenuamente, apresentaram 3 ou mais candidatos, um deles evangélico.
    Ora, quem tem 1/3 (ou mais) dos votos, basta um leve empurrãozinho e a eleição está consumada. Foram inúmeras cidades onde o prefeito evangélico foi eleito com 33/34% dos votos.
    Esses prefeitos terão influência decisiva em 2026.
    E os evangélicos já são muito mais de 1/3 da população.

  7. Alexis

    21 de julho de 2025 9:53 pm

    Ótimas considerações do Nassif.

  8. Padawan

    22 de julho de 2025 11:09 pm

    Nassif, você está parcialmente correto. Mas será que você não é suspeito? A diretora foi na veia em minha opinião e realmente ela priorizou e assumiu conscientemente um alto risco. O rock nd roll foi o Elvis? Cadê os Beatles e os Stones? O Sr. Malafaia, estrelou o doc pois como o herói hegeliano está na hora certa, no lugar certo dos acontecimentos. Outro doc clássico Arquitetura da Destruição sobre o nazismo, um tema bem mais complexo, fez um recorte estético sobre o tema, que Walter Benjamin de forma peculiar também ousou fazer.
    Cinema documentário é uma arte não é ciência.
    Religião é um objeto que não existe. Esse é o problema central da ciência da religião e da História das religiões no plural.
    Se algum cineasta pretende por exemplo fazer um panorama do espíritas ou católicos bolsonaristas ok também. Mas duvido que seja na veia como o Apocalipse nos trópicos.
    Para encerrar vale lembrar que o livro do Apocalipse de João contém uma benção exclusiva para quem o lê e guarda suas palavras. Se o que vivemos hoje em dia não for o Apocalipse, então não sei o que é Apocalipse. Essa palavra grega significa REVELAÇÃO. Amém

  9. Padawan

    23 de julho de 2025 12:07 am

    https://x.com/PastorMalafaia/status/1947729898660831329

    No link acima o vídeo mais recente do Sr. Malafaia que comenta sobre a “jornalista que me seguiu dois anos”, no doc Apocalipse nos trópicos. Na veia…

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