A PsyOp militar que a crítica brasileira não entendeu no filme “Nova Ordem”, por Wilson Ferreira

O problema para a crítica é que Michel Franco descreve de forma seca e brutal não um golpe militar latino-americano clássico, mas uma PsyOp militar operada como guerra híbrida que explora o demasiado humano

A PsyOp militar que a crítica brasileira não entendeu no filme “Nova Ordem”

por Wilson Ferreira

A crítica especializada brasileira simplesmente não entendeu o filme mexicano “Nova Ordem” (Nuevo Orden, 2020, disponível na Amazon Prime Video) de Michel Franco. Será que o filme descreve uma revolução? Um golpe militar? Algum fenômeno distópico como em “Uma Noite de Crime”? “Um filme que não decide qual discurso seguir”, sentencia a crítica. Ambientado em um futuro próximo, no México, vemos uma sociedade com divisões profundas entre classes sociais que, em questão de minutos, vai da ordem ao caos: a Cidade do México é sacudida por saques, violência e mortes onde massas de miseráveis invadem os bairros de elite para matar e roubar. O problema para a crítica é que Michel Franco descreve de forma seca e brutal não um golpe militar latino-americano clássico (quarteladas clichês no cinema, com generais ao estilo sargento Garcia, de “Zorro”), mas uma PsyOp militar operada como guerra híbrida que explora o demasiado humano: ódio, ressentimento e revolta. Qualquer semelhança com o Brasil NÃO é mera coincidência. 

Como sempre, a crítica especializada brasileira não entendeu nada. O filme Nova Ordem (Nuevo Orden, 2020), do diretor mexicano Michel Franco, ganhou o Leão de Prata no Festival de Veneza de 2020. E, não por acaso, abriu a Mostra de Cinema de São Paulo 2020 em sessão com ingressos esgotados.

Porém, enquanto a crítica internacional viu em Nova Ordem a confirmação de uma tendência recente da temática da luta de classes cada vez mais ocupar as telas (O Expresso do Amanhã, Parasita, Bacurau, Os Miseráveis, Coringa etc.), no Brasil a crítica ficou no ar: “um filme que não decide por qual discurso seguir”, “exibicionismo”, “carnificina desenfreada”, “incoerente para ser avaliado pelo seu propósito inicial” (?), “tudo é desenvolvido de forma artificial”, e por aí vai.

Ambientado em um futuro próximo no México (um país atualmente arrasado pela violência do narcotráfico ocupando os espaços de um Estado ausente e desastre econômico após anos de políticas econômicas neoliberais), uma sociedade com divisões profundas e obscenas de classes sociais que, em questão de minutos, vai da ordem ao caos: a Cidade do México é sacudida por saques, violência e mortes onde massas de miseráveis invadem os bairros de elite para matar e roubar.

Os militares aparecem em cena aparentemente para tentar reestabelecer a ordem. Mas tudo indica que eles querem mesmo impor uma “nova ordem”: são corruptos e oportunistas, mais interessados em prender membros sequestráveis de famílias ricas para chantagear e exigir altas somas de resgate. E, claro, impor impiedosos toques de recolher para uma população que, prisioneira nas suas próprias casas, percebem aos poucos que a “nova ordem” não foi um bom negócio para ela.

O filme começa na bolha aparentemente segura de uma festa de casamento com toda pompa e riqueza, cujos presentes em dinheiro são guardados no cofre do closet da anfitriã. Todos estão alegres e indiferentes, enquanto no entorno daquele bairro de elite fortemente, guardado por seguranças privados, começam os primeiros sinais do caos e anarquia.

Será que estamos diante de um golpe militar latino-americano clássico, como tantos outros que foram mostrados pelo cinema? – Bananas (1971), The Battle of Chile (1975), Missing (1982), O Beijo da Mulher Aranha(1985), Luar Sobre Parador (1988), A Casa dos Espíritos (1993), O Dia que Durou 21 Anos (2013) entre outros. Filmes que descrevem o golpe militar old fashion: generais que lembram o sargento Garcia, de Zorro, como vilões que colocam milicos, tanques de guerra e artilharia pesada nas ruas para reprimir enquanto torturam e matam opositores políticos.

O que talvez deixou a crítica brasileira no ar com o filme Nova Ordem é que Michel Franco é duro, seco, implacável, no qual todos os sinais parecem estar trocados – não estão definidas as fronteiras entre “mocinhos” e “vilões”, “milicos” e “civis”: uma trama tensa e intensa que mostra uma revolução se transformando em inesperadas viradas. O que começa como uma revolução aparentemente popular vai ganhando ares de alguma outra coisa: uma estranha arquitetura dentro do caos, um terrorismo planejado e calculado por mentes militares. Por generais que não mais seguem o estereótipo de um sargento Garcia ou do general representado por Richard Dreyfuss em Luar Sobre Parador.

Na verdade Michel Franco mostra um golpe militar do século XXI. Aquele que não é televisionado porque é híbrido: as câmeras mostram apenas aquilo que é mais espetacular: uma “revolução popular” implacável, com alusões a Parasita de Bong Joon-ho e a franquia Um Noite de Crime (Purge).

Porém, articulada por uma estratégia militar híbrida: a engenharia do caos como PsyOp.

O Filme

O filme abre com imagens fragmentadas de um hospital com feridos, pessoas mortas amontoadas e em plano detalhe uma estranha água esverdeada que desce por escadas. São imagens que preparam o espectador para o que está por vir.

Depois somos levados para uma luxuosa festa de casamento de Marianne (Naian Gonzalez Norvind) e Alan (Dario Yazbek Bernal) numa grande casa de uma rica família mexicana. Logo percebemos o contraste entre essa elite branca com sobrenomes de origem europeia e empregados, seguranças e garçons com traços étnicos dos povos originários do país.

E, também, percebemos que eles serão os últimos a notar algo disruptivo que está para acontecer – representado pela água verde que de repente escorre da torneira de uma das suítes da mansão.

No meio do casamento, Rolando (Eligio Melendez), ex-empregado que trabalhou naquela mansão por anos, vem pedir dinheiro para uma cirurgia emergencial para sua esposa. Mesmo que a quantia seja pequena para aqueles milionários, todos estão mais preocupados apenas com a festança. Esquecem de Rolando. 

Menos Marianne, que decide abandonar a festa para segui-lo para lhe dar o dinheiro que precisa. Mas encontra o pior: se vê nas ruas no meio de um violento levante popular, enquanto a festa que deixou é invadida, muitos são baleados e mortos de forma impiedosa no meio do saque de bens valiosos e comida. 

 Cada vez mais Nova Ordem mergulha no caos e no horror num ritmo frenético sem o roteiro nos deixar a par do que realmente está acontecendo: é uma revolução? Um golpe militar? Algum fenômeno distópico como em Uma Noite de Crime? Ou uma anomia pura e simples?

Continue lendo no Cinegnose.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome