Filme ‘No’ e derrota da esquerda no plebiscito chileno: será que o gato subiu no telhado?
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
A direita ganhou no plebiscito que recusou a nova constituição para o Chile. Quer entender o porquê? Então assista ou reveja o filme “No” (2012) – indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Um filme sobre outro plebiscito chileno, trinta e quatro anos atrás, no qual o país decidiria se o General Augusto Pinochet permaneceria mais nove anos no poder, estendendo a ditadura militar. Um filme sobre a campanha de propaganda do “Não” que enfrentou vitoriosamente a campanha de desinformação do “Sim”, mostrando que o “hype” das fake news não é nenhuma novidade. Porém, o que torna as estratégias nas redes digitais mais letais do que a propaganda política do passado é sua contaminação semiótica de natureza metonímica, exponencial, em tempo real – muito além da velocidade processual da Justiça e das legislações. Às vésperas das eleições brasileiras, a esquerda deve se precaver: será que o gato está subindo no telhado?
“Chile: pois é, não deu. Deu não…”. “Surpresa acachapante”… “Derrota acachapante”. Essas foram algumas reações entre surpresa e resignação diante do placar de 62 a 38 para recusar a nova Constituição chilena: uma vitória para a direita que já tem maioria na Câmara e empata no Senado. Reações tanto da grande mídia e, supreendentemente, também da chamada mídia progressista.
Para esse humilde blogueiro, o gato acabou de subir no telhado. Principalmente pela reação da mídia alternativa: quase nenhuma repercussão (a não ser algumas escassas linhas, sempre en passant) à máquina de desinformação da direita colocada em ação desde 2020, quando os chilenos votaram esmagadoramente a favor da elaboração de uma nova Constituição. Desde esse primeiro plebiscito, antes mesmo de nada ainda ter sido escrito, começaram campanhas de desinformação televisionadas e nas redes sociais.
Aqui no Brasil, a esquerda ficou em silêncio. Talvez temerosa de ser confundida com a direita se começar a criticar um processo eleitoral de outro país às vésperas das eleições gerais brasileiras.
Por isso é oportuno rever o filme No (2012), sobre as estratégias de propaganda e comunicação utilizadas no referendo de 1988 no Chile, o momento que o país decidiu se o General Augusto Pinochet deveria ou não permanecer na presidência – no poder desde 1973 quando o golpe de Estado liderado pelas Forças Armadas depôs e assassinou o presidente socialista Salvador Allende.
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O filme acompanha o publicitário René Saavedra (Gael Garcia Bernal) que lidera a equipe que faz a campanha pelo “Não”, usando as estratégias de marketing da chamada “guerra das colas” nos EUA – a batalha publicitária entre as duas mais icônicas bebidas gaseificadas: Coca-Cola e Pepsi. Para complicar as coisas, o seu chefe, Lucho Gúzman (Alfredo Castro) lidera a equipe do “Sim”.
As regras da campanha no referendo foram criadas propositalmente para beneficiar Pinochet: toda noite (num horário proibitivo para a maioria dos trabalhadores que precisavam dormir cedo), cada lado recebe 15 minutos de transmissão na televisão nacional para apresentar seu caso. A gangue do “Sim” retrata a liderança de Pinochet como um sucesso econômico, modernizando o país, introduzindo fornos de micro-ondas nas casas – todos agora sob risco de os comunistas confiscarem se a campanha do “Não” for bem-sucedida. Esse é o ponto de partida da estratégia de desinformação militar.

Do outro lado, o movimento do “Não” assume que o referendo foi fixado dentro de regras que beneficiam o ditador Pinochet. Muitos dos próprios ativistas da campanha sofreram sob o regime militar. Presumindo que vão perder, eles se concentram em aumentar a conscientização sobre as atrocidades do governo, sobrecarregando seu público com imagens de tanques, bombardeios e prisioneiros políticos reprimidos e torturados pelos militares.
Para o publicitário René, o problema é que essa abordagem negativa gera medo, o que contribui para uma sensação de impotência, o que levaria à abstenção dos eleitores. O que ajudaria ainda mais Pinochet.
Todo o início do filme está nesse conflito entre a visão pragmática publicitária de René (fazer uma campanha pelo “No” numa linguagem análoga a dos comerciais da Coca-Cola) e o derrotismo combinado com ressentimento e vingança dos militantes – como vender uma imagem de uma campanha baseada em alegria, saúde e otimismo para uma esquerda revoltada contra a violenta ditadura de Pinochet?
Para a estranheza dos líderes da esquerda, René insiste numa operação semiótica centrada na felicidade. Toma emprestado imagens da cultura pop americana (até a figura do mímico, clichê que proliferava nos filmes publicitários da época), além de falar da luz do sol e esperança. Sintetizado na figura do arco íris em torno do “No” para representar a diversidade política contra a ditadura. Imagine a dificuldade de René convencer militantes endurecidos a adotar imagens publicitárias de americanos felizes em piqueniques e andando a cavalo…
O grupo do “Si” e os militares atacam com mais força, de várias maneiras: assediando os membros da equipe “No”, roubando suas fitas de vídeo, tentando censurar seus anúncios e finalmente tirando do arsenal de truques promocionais da equipe “No” e usando-os como seus. O esquadrão do ditador decide incorporar o mesmo humor e felicidade em seus próprios comerciais.
Mas há também um drama familiar envolvendo a má-consciência do próprio protagonista René: há indícios que Pinochet exilou o seu pai. Mas agora, como publicitário, mora com seu filho em uma confortável residência ao estilo american way of life, com um carro esportivo, um micro-ondas em destaque e brinquedos elétricos importados. Ao aceitar assumir a coordenação da equipe do “No” para tentar livrar o país da ditadura, parece buscar a validação da sua ex-esposa, Veronica Carvajal, uma militante de esquerda.

Há uma sensação em René de que sua vida é vazia e sem substância, assim como os filmes publicitários que cria. Enquanto a vida de Veronica é o contrário: cheia de paixão e substância. Será que René tenta reconquistar um amor perdido? Reunir de novo sua família? Ou simplesmente a admira e a inveja? De qualquer forma, René chegou a um ponto na sua vida em que precisa fazer uma escolha.
Um filme atual
Ao dramatizar um referendo feito há trinta e quatro anos no Chile, o filme No mantém a atualidade no momento do desfecho de mais um referendo em que o país tentou se livrar de outra herança da ditadura militar – no passado foi do próprio Pinochet. Hoje, o legado da Constituição.
A atualidade está exatamente nas estratégias de desinformação descritas pelo filme, mostrando de que o hype atual das fake news é tão artificial quanto as próprias desinformações. A única diferença é que lá no passado o ecossistema midiático era a das mídias de massas, enquanto na atualidade são as redes sociais.
No mostra a massiva disseminação militar de que, sem Pinochet, os comunistas retornariam, confiscariam propriedades e os bens dos chilenos (principalmente o objeto fetiche do micro-ondas), além de perseguir cristãos. No material publicitário, vemos um vídeo de um rolo compressor esmagando bens de consumo em uma estrada, até ameaçadoramente se aproximar de uma criança que está com um brinquedo.
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José de Almeida Bispo
8 de setembro de 2022 9:21 amA minha mãe, católica fervorosa, 85 anos, está se balançando para ir votar, coisa que não faz desde que a Lei permitiu-lhe o voto facultativo. Motivo: nos grupos católicos de que participal é uma mensagem atrás da outra de que Lula é pelo aborto. A fé dela é mais forte no seu grupo de ensandecidos pela suposta fé do que nas minhas observações, no histórico de Lula e na própria corrente católica, abafada pela turma do Opus Dei. Nunca duvide da estupidez: ela sempre triunfa.