
Peça 1 – A Doutrina de Segurança e a Milicialização do Estado
O processo de milicialização dos Estados Unidos, intensificado a partir do governo Donald Trump, apresenta características bastante nítidas. Um marco importante foi o anúncio da nova doutrina de segurança nacional, intitulada “Protegendo o Povo Americano Contra Invasões”, publicada em 20 de janeiro de 2025 no portal oficial da Casa Branca.
Essa doutrina promoveu uma guinada na política de segurança fronteiriça, com forte ênfase na aplicação rigorosa das leis de imigração, na militarização das fronteiras e em operações agressivas de deportação de imigrantes ilegais. O Departamento de Segurança Interna (DHS) passou a receber recursos ampliados e apoio direto das Forças Armadas, que foram mobilizadas para reforçar a vigilância nas fronteiras e estabelecer zonas de defesa nacional com controle militarizado de imigrantes.
Bases militares foram convertidas em centros de detenção, e soldados passaram a atuar dentro das instalações da Polícia de Imigração e Alfândega em mais de 20 estados. Unidades da Guarda Nacional e dos Fuzileiros Navais também foram deslocadas para patrulhar bairros de imigrantes em cidades como Los Angeles.
Paralelamente, houve uma drástica redução na atuação tradicional do FBI, especialmente nas investigações de crimes financeiros, corrupção e delitos de colarinho branco. Um terço do tempo dos agentes passou a ser dedicado ao apoio de operações de imigração e deportação. A nomeação da procuradora-geral Pamela Bondi marcou uma mudança de orientação no Departamento de Justiça, com a dissolução de unidades corporativas e a priorização absoluta do combate aos cartéis de drogas e à imigração ilegal.
Peça 2 – As Milícias de Trump
A militarização da segurança pública doméstica nos Estados Unidos está gerando efeitos comparáveis aos das forças paramilitares criadas por Benito Mussolini após a Primeira Guerra Mundial. Os camisas negras, oficialmente chamados de Milizia Volontaria per la Sicurezza Nazionale (MVSN), eram compostos por ex-combatentes, nacionalistas radicais e desempregados, e logo se tornaram um braço armado do Partido Nacional Fascista.
Nos EUA, além das forças regulares, observa-se o crescimento de grupos armados ideologicamente alinhados à pauta da direita radical, com estrutura paramilitar, hierarquia interna e divisão funcional entre planejamento estratégico, logística e operações táticas. Os grupos mais notórios incluem os Three Percenters, Oath Keepers, Proud Boys e Boogaloo Bois.
Essas milícias operam com base em redes digitais de comunicação e apresentam características marcantes que remetem aos Squadristi de Mussolini:
- Uso sistemático da violência e da intimidação;
- Culto ao líder e lealdade pessoal;
- Organização paramilitar e uniformização;
- Nacionalismo exacerbado e discurso de “restauração”;
- Desprezo pelas instituições democráticas.
Apesar do antagonismo declarado às instituições, essas milícias estão fortemente infiltradas em polícias locais, departamentos de xerifes e até em unidades da Guarda Nacional. Donald Trump atua como catalisador político desse movimento, legitimando as milícias por meio de discursos inflamados, nomeações estratégicas e a construção de uma narrativa de ameaça constante à soberania nacional.
Peça 3 – O Enfraquecimento Institucional
O avanço da nova doutrina de segurança e a ascensão das milícias têm provocado um enfraquecimento significativo das instituições tradicionais de segurança e justiça nos Estados Unidos. O FBI, por exemplo, foi deslocado para operações de controle da imigração, em detrimento de suas funções originais de defesa da segurança nacional. Até mesmo as equipes especializadas em contraterrorismo foram redirecionadas para tarefas secundárias, como a classificação de cartéis de drogas como organizações terroristas.
Outro setor gravemente afetado foi o de combate aos crimes cibernéticos e os serviços de inteligência. A redução de recursos e a mudança de foco estratégico comprometeram a capacidade do país de responder a ameaças reais, como ataques digitais, espionagem internacional e terrorismo doméstico.
Esse enfraquecimento institucional, somado à legitimação de forças paramilitares e à militarização da segurança pública, configura um cenário preocupante de erosão democrática e centralização autoritária, com impactos profundos na estrutura do Estado e na vida civil.
Leia também:
Paulo Dantax
28 de agosto de 2025 7:24 amhttps://www.theguardian.com/us-news/video/2025/aug/25/trump-department-of-war-defense
Trump fica entre 7 de 10 das chamadas do sites de notícia americanos.
Fábio de Oliveira Ribeiro
28 de agosto de 2025 8:11 amDonald Trump encena um golpe de estado à moda de Napoleão III, mas ao contrário do autocrata francês do século XIX o presidente dos EUA não é sobrinho de Napoleão e sim neto de um cafetão. Napoleão III tinha muitos defeitos, sem dúvida, mas ele se cercou de ministros e conselheiros estremamente competentes. Trump gosta de aplausos e afasta de si qualquer um que possa ser visto no Salão Oval como um cara mais esperto que ele. O imperador francês reformou totalmente Paris porque temia uma rebelião violenta, facilidata pelas ruas medievais estreitas que dificultavam o deslocamento de tropas na capital da França. Trump convocou a guarda nacional para policiar Washington e a utiliza para limpar o lixo social da capital norte-americana. Ele também teme algum tipo de rebelião e somente isso explica a mais nova exigência dele (pena de morte em Washington). Napoleão III caiu porque perdeu a guerra franco-germânica que imaginou poder vencer. A maior pressão política interna e externa sobre Trump não é para começar uma grande guerra simétrica (contra Rússia, China ou ambas), mas para não encerrar uma lucrativa guerra assimétrica por procuração na Europa. Ele faz acenos de paz, faz ameaças, volta a fazer acenos de paz e volta ameaçar… Mas a verdade é que a guerra já foi decidida no campo de batalha e quem comanda esse show é Vladimir Putin. Napoleão III era cauteloso e se fazia de amigo até os dois principais inimigos continentais (Império Alemão e Império Austríaco). Trump desceu o porrete tarifário em todo mundo, transformando aliados em inimigos e inimigos em platéia sorridente. Napoleão III cometeu apenas um grande erro, começar uma guerra que não podia perder. Trump comete uma sucessão de pequenos erros que estão se tornando cada vez mais insuportáveis e intoleráveis dentro e fora dos EUA. Não faltava ao francês perspectiva histórica. O norte-americano parece viver mergulhado no mito do próprio sucesso e a queda dele será muito dolorosa. Mais dolorosa ainda será a permanência de Trump no poder, porque isso somente poderá ocorrer mediante violência extrema.
fabricio coyote
28 de agosto de 2025 1:08 pma Constituição dos eeuu permite milícia, só para constar. da segunda emenda
https://constitution.congress.gov/constitution/amendment-2/
Paulo Dantas
28 de agosto de 2025 10:19 pmAqui, pelo menos no Rio, o termo se perdeu para as quadrilhas que fazem extorção.
A milícia no termo original não é lá grandes coisas.
Nos EUA se fala em “bem regulada”.
fabrício coyote
29 de agosto de 2025 12:21 pmas nuances de criação do estado dos eeuu e do brasil são muito díspares. então a semàntica de milícia aqui é proibida em qualquer acepção, vide o art. 5º, XVII (daí o número 17 do boçal na eleição em 2018?) e do art. 17 (daí o número 17 dos boçais em 2018?), §4º da Carta Política.
Anônimo
28 de agosto de 2025 4:54 pmO trump esta igual ao CEO genérico do livro do Nassif, vai quebrar o pais no futuro para ter algum sucesso hoje
Rui Ribeiro
29 de agosto de 2025 7:07 amMas isso só prejudica os próprios EUA. A violência intestino vai se intensificar, dificultando a acumulação de capital