8 de julho de 2026

As ameaças norte-americanas ao Brasil, por Luís Nassif

O quadro que emergiu neste ano conecta várias peças de uma mesma estratégia mais ampla dos EUA para a região.
Imagem gerada por ChatGPT

Chanceler Mauro Vieira alerta para risco de intervenção militar dos EUA na América do Sul, enquanto EUA minimizam a ameaça.
EUA bombardearam Venezuela em 2026, capturaram Maduro e firmaram acordo militar com Paraguai para presença na tríplice fronteira.
Designação do PCC e Comando Vermelho como terroristas pelos EUA abre ações financeiras, penais, migratórias e militares contra as facções.

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De um lado, o chanceler Mauro Vieira acenando com o risco de uma intervenção norte-americana no país. De outro, a chancelaria norte-americana minimizando essa possibilidade.

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Usou de um artifício retórico. Jamais haveria uma invasão do país, por sua dimensão continental, por sua tradição. Mas nada impede incursões que atropelem todas as negociações diplomáticas.

Na verdade, o quadro que emergiu neste ano conecta várias peças de uma mesma estratégia mais ampla dos EUA para a região, e o alerta do Itamaraty é o ponto que amarra tudo isso publicamente.

O precedente Venezuela. Em 3 de janeiro de 2026, forças dos EUA bombardearam instalações militares venezuelanas e capturaram Nicolás Maduro, levando-o para Nova York — ação justificada oficialmente como combate ao narcotráfico, mas que analistas ligam também a interesses no petróleo venezuelano e à reativação da Doutrina Monroe na política externa de Trump. O Secretário Geral da ONU António Guterres chamou isso de “precedente perigoso”, e juristas internacionais classificaram a operação como ilegal. É esse precedente que dá peso concreto ao temor do Itamaraty: mostra que a Casa Branca está disposta a usar força militar direta na região sob a bandeira antidrogas/antiterror.

O acordo Paraguai-EUA. Em março de 2026, o Congresso paraguaio ratificou um SOFA (Status of Forces Agreement) assinado entre Santiago Peña e Donald Trump. Ele não cria bases permanentes nem cede território, mas autoriza a presença temporária de militares americanos para treinamento e cooperação contra crime organizado, com livre circulação de tropas, aeronaves e veículos do Departamento de Defesa, além de imunidade diplomática para o pessoal americano — dispensado, inclusive, da submissão às leis paraguaias. Na prática, isso dá aos EUA um ponto de apoio operacional na tríplice fronteira, colada ao Brasil.

Peter Thiel no Cone Sul. Thiel mudou-se para a Argentina em abril de 2026, comprou imóveis em Buenos Aires e no Uruguai (Punta del Este) e tem negociado diretamente com Milei e com o governo paraguaio. O interesse declarado é energia/IA: o Paraguai tem um dos maiores excedentes de energia limpa não explorados do mundo e passou a oferecer tarifas elétricas preferenciais de até 15 anos para operações de IA e nuvem. Isso soma uma camada econômico-ideológica (capital de Vale do Silício alinhado a Milei) à camada de segurança do SOFA — ambas convergindo na mesma sub-região.

A classificação de PCC e Comando Vermelho como terroristas. Em maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro pediu pessoalmente a Trump, no Salão Oval, que classificasse as duas facções como organizações terroristas. Os EUA atenderam: desde 5 de junho de 2026, PCC e Comando Vermelho são designados como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT) e Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). Especialistas em segurança pública argumentam que essas facções deveriam ser tratadas como organizações criminosas do tipo máfia, não como grupos terroristas — a diferença jurídica é o que abre a porta para instrumentos de guerra ao invés de instrumentos de persecução penal.

A designação abre quatro trilhas de ação distintas, que os EUA já usam de forma escalonada em outros países. Vale separar porque cada uma tem um gatilho jurídico próprio.

Financeira (regime SDGT). Como Terroristas Globais Especialmente Designados, qualquer ativo de PCC/CV sob jurisdição americana é congelado, e pessoas físicas ou jurídicas — inclusive não americanas — que prestem apoio material a eles ficam sujeitas a sanções. A responsabilidade aqui é objetiva: não precisa provar intenção de financiar terrorismo, basta a transação ter ocorrido. Isso já vem gerando alertas de compliance para empresas brasileiras, porque basta uma transação em dólar liquidada por banco correspondente americano para atrair a jurisdição dos EUA — mesmo que a empresa nunca tenha operado nos Estados Unidos.

Penal extraterritorial (regime FTO). A designação como Organização Terrorista Estrangeira aciona o crime federal de “material support” — fornecer conscientemente recursos, serviços ou bens à organização. A pena vai até 20 anos, ou prisão perpétua se resultar morte. Esse tipo penal tem alcance extraterritorial: advogados de defesa, jornalistas que negociam com membros das facções, empresas de logística usadas por elas, bancos, e até políticos ou autoridades que dialoguem com essas organizações (como costuma ocorrer em negociações de reintegração ou controle de presídios no Brasil) podem, em tese, ser enquadrados pela lei americana. 

Migratória. Membros ou representantes não cidadãos americanos das organizações designadas ficam automaticamente barrados de entrar nos EUA, e isso pode se estender, na prática, a pessoas com vínculos comerciais ou familiares identificados com as facções — vistos podem ser negados ou revogados com base em associação alegada.

Militar — a trilha mais grave. Aqui está o precedente direto que dá densidade ao alerta do Itamaraty: depois de designar cartéis mexicanos e o Tren de Aragua venezuelano como terroristas em fevereiro de 2025, os EUA lançaram a “Operation Southern Spear” no Caribe (porta-aviões USS Gerald Ford, drones MQ-9, mais de 10 mil militares) e passaram a destruir embarcações supostamente ligadas a essas organizações em águas internacionais — a primeira ação em setembro de 2025. Em janeiro de 2026 isso escalou para o ataque à Venezuela e a captura de Maduro. Em março de 2026, o Equador bombardeou um acampamento de dissidência das FARC na fronteira com a Colômbia com apoio americano direto — o primeiro caso de operação militar conjunta desse tipo na região.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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