
O trabalho citado por Pedro Cafardo, com base na análise de Haroldo da Silva, no Valor Econômico, revela um fenômeno complexo: a desindustrialização brasileira ocorreu paralelamente à atuação intensa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) no Congresso Nacional. Isso parece contraditório, mas se explica por uma mudança profunda no perfil e nas prioridades dos industriais brasileiros.
A razão central do paradoxo é que os industriais brasileiros, diante da lógica de mercado e da ausência de políticas industriais consistentes, priorizaram a sobrevivência e competitividade de suas empresas, mesmo que isso significasse abandonar o nacionalismo produtivo.
Por que os industriais abraçaram o neoliberalismo?
- Sobrevivência empresarial: Desde os anos 1990, com a abertura comercial promovida por Fernando Collor, os empresários passaram a competir com produtos estrangeiros mais baratos e tecnologicamente avançados. A lógica do mercado os empurrou para importar insumos e máquinas, muitas vezes abandonando o desenvolvimento local.
- Ausência de política industrial ativa: O Estado brasileiro, por décadas, deixou de induzir setores estratégicos. Sem incentivos, os industriais buscaram soluções imediatas no mercado global, tornando-se dependentes de cadeias produtivas externas.
- Mudança no perfil do empresariado: Os industriais do passado, como os que participaram do Plano de Metas de JK, tinham forte vínculo com o desenvolvimento nacional. Hoje, muitos empresários operam com lógica financeira globalizada, menos comprometida com o projeto nacional.
O caso da Abimaq e a “maquiagem” industrial
A reação da Abimaq à desvalorização do dólar mostra como parte da indústria brasileira se transformou em maquiadora: empresas que apenas montam produtos com componentes importados, sem agregar valor tecnológico nacional.
Em vez de aproveitar o câmbio favorável para exportar, essas empresas sofreram com o aumento do custo das importações, evidenciando a fragilidade da base produtiva nacional.
Caminhos para uma nova política industrial
- Identificação de oportunidades reais de negócio: Políticas industriais devem partir da lógica empresarial, mapeando setores com potencial competitivo e empresas dispostas a investir.
- Formação de grupos de trabalho com o setor produtivo: Como no Plano de Metas de JK, é essencial envolver empresários desde o início, criando incentivos claros e metas compartilhadas.
- Exemplo promissor: Plano Nacional de Terras Raras (PNTR): Se bem desenhado, pode mobilizar desde grandes grupos até microempresas, articulando capital nacional e estrangeiro em torno de um projeto estratégico.
No Plano de Metas, o grupo de trabalho da indústria automobilística definiu as seguintes regras de entrada para as montadoras estrangeiras:
- Deveriam ter capital nacional na montadora. Com isso, JK conseguiu a adesão dos grandes grupos financeiros nacionais, como Monteiro Aranha.
- Autopeças nacional. Com isso atraiu capitais de vários setores. Abraham Kasinsky, imigrante judeu da Lituânia, montou a maior fabricante de amortecedores da América Latina. José Mindlin, empresário judeu-brasileiro, montou a Metal Leve, empresa de alta engenharia, pioneira em fundição de precisão. Werner Kämpf – Varga S.A. (Freios Varga) tornou-se o maior fabricante brasileiro de sistemas de freio.
🔮 Conclusão
A desindustrialização não decorre de falta de ação da indústria, mas da ausência de um projeto nacional articulado. Os industriais não são menos nacionalistas por princípio, mas foram levados a agir conforme as regras do jogo vigente. Cabe ao Estado redesenhar esse jogo, oferecendo caminhos viáveis para o desenvolvimento produtivo. O PNTR pode ser um marco nesse sentido, se bem conduzido.
O setor permite uma mobilização muito maior do que a do Plano de Metas, tal a quantidade de setores envolvidos e de empresas de diversos tamanhos. Há espaço para os grandes grupos nacionais, para o universo das PMEs, para o capital estrangeiro e para o mercado financeiro.
Basta planejar e executar.
Entre os grandes grupos industriais
| Eixo de Desenvolvimento | Produto Principal (Exemplo de Aplicação) | Terras Raras Críticas | Empresa-Âncora (Referência Estratégica) |
| 1. Eletromobilidade e Transição Energética | Ímãs de alto desempenho (Motores/Geradores Eólicos) | Nd, Pr, Dy, Tb | WEG (Motores e Geradores) / BYD (Mobilidade) |
| 2. Eletroeletrônicos e Equipamentos de Precisão | Sensores Ópticos e Eletrônicos de Alta Precisão (Aviónica) | Nd, Pr, Sm, Eu, Y | Embraer (Aviónica) / Positivo (Eletrônicos) |
| 3. Indústria Química, Ambiental e de Processos | Catalisadores de refino e Polidores Ópticos | Ce, La, Y | Petrobras (Refino) / Braskem (Química) |
| 4. Saúde e Biotecnologia | Agentes de Contraste e Radiofármacos | Gd, Y, Sm, Lu | Fiocruz / CNEN (Tecnologia Nuclear e Saúde) |
| 5. Defesa e Aeroespacial | Sensores e Ímãs para Radares e Sistemas de Guiagem | Sm, Nd, Dy, Y, Gd | Embraer Defesa / Avibras (Sistemas de Defesa) |
| 6. Reciclagem e Economia Circular | Ímãs e Óxidos de Terras Raras Recuperados | Nd, Pr, Dy, Tb | Gerdau (Metálicos/Reciclagem) / WEG (Reuso de Componentes) |
| 7. Indústria Cultural e de Luxo | Pigmentos, Fósforos LED e Vidros Especiais (Design High-Tech) | Eu, Tb, Y, Ce, La | Startups Tecnológicas de Design (Inovação e Valor Agregado) |
Para PMEs
| Eixo de Desenvolvimento | Oportunidade Principal para PMEs (Onde Entram) | Instrumento Chave de Fomento | Cluster Sugerido |
| ⚙️ 1. Eletromobilidade & Energia Eólica | Fabricação de Componentes (carcaças, eixos, rolamentos) e Serviços (retrofit, manutenção especializada de motores). | BNDES MPME Verde (Crédito simplificado com carência) e Vouchers Embrapii (Protótipos). | “Vale do Magneto” (MG-SP-SC) |
| 🔬 2. Eletrônicos, Sensorias e Ópticos | Produção de Sensores Miniaturizados, Atuadores e Montagem de Módulos de eletrônica fina e óptica. | Lei da Informática 2.0 (Abatimento Fiscal por insumo nacional) e Editais Finep Startups. | “Polo Sensorial Brasil” (São Carlos / Campinas / Recife) |
| 🧪 3. Química e Catalisadores | Formulação de Catalisadores Sob Medida (pastas, suspensões) e Serviços de Regeneração química. | Finep InovaNano (Financiamento 50/50) e Crédito Presumido de ICMS (Uso de TR nacional). | “Polo Catalítico Nordeste” (BA–PE–CE) |
| 🧫 4. Saúde e Biotecnologia | Startups de Radiofármacos e Contrastes (Gd) e Equipamentos de Imagem com componentes magnéticos. | Edital MCTI-Saúde 4.0 (Subvenção Econômica) e Fast-track ANVISA para startups. | **“Biomagnet |
Para o capital externo e para o mercado financeiro (como investidor)
| Instrumento | Função | Órgão Gestor |
| Golden Share Pública | Veto estratégico em decisões de controle, exportação e transferência de tecnologia. | BNDESPar / União |
| Fundo de Terras Raras do Brasil (FTR-BR) | Investidor-âncora em JVs, mantendo 25–40% de equity nacional. | BNDES + fundos de pensão |
| Cláusula de “compra local mínima” | Exige que 60–70% dos insumos e subcomponentes venham do país. | MDIC |
| Requisitos de Conteúdo Tecnológico Local (CTL) | Percentual mínimo de engenharia e P&D feito no Brasil (ex. 30% do CAPEX em P&D local). | MCTI |
| Banco de Patentes Compartilhadas (IP Commons BRICS) | Centraliza e protege propriedade intelectual desenvolvida em parcerias. | INPI + MCTI |
| Autoridade Nacional de Terras Raras (ANTR) | Supervisiona contratos, licenças e exportações estratégicas. | CNPE + Casa Civil |
| Zonas de Processamento Industrial Verde (ZPIV) | Espaços onde capital estrangeiro entra com isenção fiscal, mas sob regras de reinvestimento e conteúdo local. | MDIC + Estados |
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Rui Ribeiro
16 de outubro de 2025 9:09 amEstados Unidos estão ajudando a Argentina, concorrente dos EUA na venda de soja para a China. A China deveria comprar apenas a soja brasileira e deixar os dois governos se arrebentarem.
Fábio de Oliveira Ribeiro
16 de outubro de 2025 9:28 amA questão das terras raras, assim como várias outras que dizem respeito aos assuntos internos e internacionais do Brasil deveriam ser pensados a partir de um único conceito: “Brasil, ilha de prosperidade e paz num mundo instável”. Quando um conceito é utilizado para centralizar políticas públicas isso facilita a formulação de estratégias e de discursos, Nassif. Talvez esse seja o grande problema do governo Lula… ele gira em torno do lutismo e não de um conceito claro formulado para o país se estruturar no presente com base em suas necessidades futuras. Prosperidade e paz são duas coisas importantes, nenhum segmento social pode recusar isso. E quem recusar esse conceito se coloca totalmente fora de qualquer possibilidade de diálogo podendo ser escanteado.
Sergio Magalhaes
17 de outubro de 2025 9:08 amQualquer iniciativa para fabricação de imãs de alto campo magnético (aplicações em veículos elétricos, turbinas eólicas, etc…) sem incluir a China é totalmente inútil. Qualquer um que frequenta conferências internacionais de magnetismo (como a International Conference on Magnetism em Bolonha, 2024) percebe imediatamente que os chineses estão, pelo menos, 10 anos na frente dos americanos e europeus em capacidade de produzir esses imãs especiais. Poderia se generalizar, se associar com empresas americanas ou européias (excluindo a China) para Terras Raras, mesmo com promessa de internalização de tecnologias (que sabe não vai acontecer) é sair definitivamente atrás 10 anos do “estado da arte” nessa área. Bom, como se sabe “subdesenvolvimento” é o projeto definitivo do Brasil.