10 de junho de 2026

Como mobilizar o país em torno das terras raras, por Luís Nassif

A ausência de política industrial fez industriais abandonarem o nacionalismo produtivo para abraçar a lógica neoliberal de mercado.
Reprodução

O trabalho citado por Pedro Cafardo, com base na análise de Haroldo da Silva, no Valor Econômico, revela um fenômeno complexo: a desindustrialização brasileira ocorreu paralelamente à atuação intensa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) no Congresso Nacional. Isso parece contraditório, mas se explica por uma mudança profunda no perfil e nas prioridades dos industriais brasileiros.

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A razão central do paradoxo é que os industriais brasileiros, diante da lógica de mercado e da ausência de políticas industriais consistentes, priorizaram a sobrevivência e competitividade de suas empresas, mesmo que isso significasse abandonar o nacionalismo produtivo.

Por que os industriais abraçaram o neoliberalismo?

  • Sobrevivência empresarial: Desde os anos 1990, com a abertura comercial promovida por Fernando Collor, os empresários passaram a competir com produtos estrangeiros mais baratos e tecnologicamente avançados. A lógica do mercado os empurrou para importar insumos e máquinas, muitas vezes abandonando o desenvolvimento local.
  • Ausência de política industrial ativa: O Estado brasileiro, por décadas, deixou de induzir setores estratégicos. Sem incentivos, os industriais buscaram soluções imediatas no mercado global, tornando-se dependentes de cadeias produtivas externas.
  • Mudança no perfil do empresariado: Os industriais do passado, como os que participaram do Plano de Metas de JK, tinham forte vínculo com o desenvolvimento nacional. Hoje, muitos empresários operam com lógica financeira globalizada, menos comprometida com o projeto nacional.

O caso da Abimaq e a “maquiagem” industrial

A reação da Abimaq à desvalorização do dólar mostra como parte da indústria brasileira se transformou em maquiadora: empresas que apenas montam produtos com componentes importados, sem agregar valor tecnológico nacional.

Em vez de aproveitar o câmbio favorável para exportar, essas empresas sofreram com o aumento do custo das importações, evidenciando a fragilidade da base produtiva nacional.

Caminhos para uma nova política industrial

  • Identificação de oportunidades reais de negócio: Políticas industriais devem partir da lógica empresarial, mapeando setores com potencial competitivo e empresas dispostas a investir.
  • Formação de grupos de trabalho com o setor produtivo: Como no Plano de Metas de JK, é essencial envolver empresários desde o início, criando incentivos claros e metas compartilhadas.
  • Exemplo promissor: Plano Nacional de Terras Raras (PNTR): Se bem desenhado, pode mobilizar desde grandes grupos até microempresas, articulando capital nacional e estrangeiro em torno de um projeto estratégico.

No Plano de Metas, o grupo de trabalho da indústria automobilística definiu as seguintes regras de entrada para as montadoras estrangeiras:

  1. Deveriam ter capital nacional na montadora. Com isso, JK conseguiu a adesão dos grandes grupos financeiros nacionais, como Monteiro Aranha.
  2. Autopeças nacional. Com isso atraiu capitais de vários setores. Abraham Kasinsky, imigrante judeu da Lituânia, montou a maior fabricante de amortecedores da América Latina. José Mindlin, empresário judeu-brasileiro, montou a Metal Leve, empresa de alta engenharia, pioneira em fundição de precisão. Werner Kämpf – Varga S.A. (Freios Varga) tornou-se o maior fabricante brasileiro de sistemas de freio.

🔮 Conclusão

A desindustrialização não decorre de falta de ação da indústria, mas da ausência de um projeto nacional articulado. Os industriais não são menos nacionalistas por princípio, mas foram levados a agir conforme as regras do jogo vigente. Cabe ao Estado redesenhar esse jogo, oferecendo caminhos viáveis para o desenvolvimento produtivo. O PNTR pode ser um marco nesse sentido, se bem conduzido.

O setor permite uma mobilização muito maior do que a do Plano de Metas, tal a quantidade de setores envolvidos e de empresas de diversos tamanhos. Há espaço para os grandes grupos nacionais, para o universo das PMEs, para o capital estrangeiro e para o mercado financeiro.

Basta planejar e executar.

Entre os grandes grupos industriais

Eixo de DesenvolvimentoProduto Principal (Exemplo de Aplicação)Terras Raras CríticasEmpresa-Âncora (Referência Estratégica)
1. Eletromobilidade e Transição EnergéticaÍmãs de alto desempenho (Motores/Geradores Eólicos)Nd, Pr, Dy, TbWEG (Motores e Geradores) / BYD (Mobilidade)
2. Eletroeletrônicos e Equipamentos de PrecisãoSensores Ópticos e Eletrônicos de Alta Precisão (Aviónica)Nd, Pr, Sm, Eu, YEmbraer (Aviónica) / Positivo (Eletrônicos)
3. Indústria Química, Ambiental e de ProcessosCatalisadores de refino e Polidores ÓpticosCe, La, YPetrobras (Refino) / Braskem (Química)
4. Saúde e BiotecnologiaAgentes de Contraste e RadiofármacosGd, Y, Sm, LuFiocruz / CNEN (Tecnologia Nuclear e Saúde)
5. Defesa e AeroespacialSensores e Ímãs para Radares e Sistemas de GuiagemSm, Nd, Dy, Y, GdEmbraer Defesa / Avibras (Sistemas de Defesa)
6. Reciclagem e Economia CircularÍmãs e Óxidos de Terras Raras RecuperadosNd, Pr, Dy, TbGerdau (Metálicos/Reciclagem) / WEG (Reuso de Componentes)
7. Indústria Cultural e de LuxoPigmentos, Fósforos LED e Vidros Especiais (Design High-Tech)Eu, Tb, Y, Ce, LaStartups Tecnológicas de Design (Inovação e Valor Agregado)

Para PMEs

Eixo de DesenvolvimentoOportunidade Principal para PMEs (Onde Entram)Instrumento Chave de FomentoCluster Sugerido
⚙️ 1. Eletromobilidade & Energia EólicaFabricação de Componentes (carcaças, eixos, rolamentos) e Serviços (retrofit, manutenção especializada de motores).BNDES MPME Verde (Crédito simplificado com carência) e Vouchers Embrapii (Protótipos).“Vale do Magneto” (MG-SP-SC)
🔬 2. Eletrônicos, Sensorias e ÓpticosProdução de Sensores Miniaturizados, Atuadores e Montagem de Módulos de eletrônica fina e óptica.Lei da Informática 2.0 (Abatimento Fiscal por insumo nacional) e Editais Finep Startups.“Polo Sensorial Brasil” (São Carlos / Campinas / Recife)
🧪 3. Química e CatalisadoresFormulação de Catalisadores Sob Medida (pastas, suspensões) e Serviços de Regeneração química.Finep InovaNano (Financiamento 50/50) e Crédito Presumido de ICMS (Uso de TR nacional).“Polo Catalítico Nordeste” (BA–PE–CE)
🧫 4. Saúde e BiotecnologiaStartups de Radiofármacos e Contrastes (Gd) e Equipamentos de Imagem com componentes magnéticos.Edital MCTI-Saúde 4.0 (Subvenção Econômica) e Fast-track ANVISA para startups.**“Biomagnet


Para o capital externo e para o mercado financeiro (como investidor)

InstrumentoFunçãoÓrgão Gestor
Golden Share PúblicaVeto estratégico em decisões de controle, exportação e transferência de tecnologia.BNDESPar / União
Fundo de Terras Raras do Brasil (FTR-BR)Investidor-âncora em JVs, mantendo 25–40% de equity nacional.BNDES + fundos de pensão
Cláusula de “compra local mínima”Exige que 60–70% dos insumos e subcomponentes venham do país.MDIC
Requisitos de Conteúdo Tecnológico Local (CTL)Percentual mínimo de engenharia e P&D feito no Brasil (ex. 30% do CAPEX em P&D local).MCTI
Banco de Patentes Compartilhadas (IP Commons BRICS)Centraliza e protege propriedade intelectual desenvolvida em parcerias.INPI + MCTI
Autoridade Nacional de Terras Raras (ANTR)Supervisiona contratos, licenças e exportações estratégicas.CNPE + Casa Civil
Zonas de Processamento Industrial Verde (ZPIV)Espaços onde capital estrangeiro entra com isenção fiscal, mas sob regras de reinvestimento e conteúdo local.MDIC + Estados

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    16 de outubro de 2025 9:09 am

    Estados Unidos estão ajudando a Argentina, concorrente dos EUA na venda de soja para a China. A China deveria comprar apenas a soja brasileira e deixar os dois governos se arrebentarem.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    16 de outubro de 2025 9:28 am

    A questão das terras raras, assim como várias outras que dizem respeito aos assuntos internos e internacionais do Brasil deveriam ser pensados a partir de um único conceito: “Brasil, ilha de prosperidade e paz num mundo instável”. Quando um conceito é utilizado para centralizar políticas públicas isso facilita a formulação de estratégias e de discursos, Nassif. Talvez esse seja o grande problema do governo Lula… ele gira em torno do lutismo e não de um conceito claro formulado para o país se estruturar no presente com base em suas necessidades futuras. Prosperidade e paz são duas coisas importantes, nenhum segmento social pode recusar isso. E quem recusar esse conceito se coloca totalmente fora de qualquer possibilidade de diálogo podendo ser escanteado.

  3. Sergio Magalhaes

    17 de outubro de 2025 9:08 am

    Qualquer iniciativa para fabricação de imãs de alto campo magnético (aplicações em veículos elétricos, turbinas eólicas, etc…) sem incluir a China é totalmente inútil. Qualquer um que frequenta conferências internacionais de magnetismo (como a International Conference on Magnetism em Bolonha, 2024) percebe imediatamente que os chineses estão, pelo menos, 10 anos na frente dos americanos e europeus em capacidade de produzir esses imãs especiais. Poderia se generalizar, se associar com empresas americanas ou européias (excluindo a China) para Terras Raras, mesmo com promessa de internalização de tecnologias (que sabe não vai acontecer) é sair definitivamente atrás 10 anos do “estado da arte” nessa área. Bom, como se sabe “subdesenvolvimento” é o projeto definitivo do Brasil.

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