21 de maio de 2026

É a política, estúpido!, por Luís Nassif

Por aqui, transformou-se o mercado de crédito, de direito social para a mais deslavada especulação e corrupção.
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Análise de Lúcia Guimarães destaca a crise política nos EUA e a armadilha do campo progressista diante do mercado.
Comparativo revela juros abusivos no crédito brasileiro, superiores a França e Itália, impactando famílias e economia.
Países civilizados regulam teto de juros; Brasil carece de políticas para conter financeirização e proteger direitos sociais.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Baseio-me no título “É a democracia, estúpido!”  e o conteúdo da brilhante análise de Lúcia Guimarães, na Folha, sobre o momento político atual – a partir dos Estados Unidos.

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Há uma realidade nova, não percebida pelo campo progressista. Este está preso em uma armadilha e um paradoxo. Em baixa com a opinião pública, e sem discurso, esmera-se em atender às exigências do mercado (no sentido amplo), para não provocar turbulências na economia, que possam erodir mais ainda a sua base.

Amarram-se a esses compromissos, permitem a financeirização de toda atividade econômica, impede-se o gastos público, especialmente o gasto social, demoniza-se toda medida voltada ao bem estar da população. A renda vai ficando cada vez mais concentrada, o mal-estar alastra-se e a direita se vale para apontar os bodes expiatórios: imigrantes, gays, mulheres, artistas.

No seu diuscurso histórico, em Davos, o 1o Ministro do Candá, Mark Carney, foi certeiro:

“Essa lógica foi descrita com precisão por Václav Havel em O Poder dos Sem Poder. Havel mostrou como sistemas opressivos se sustentam menos pela força e mais pela participação cotidiana de pessoas que fingem acreditar em algo que sabem ser falso. Enquanto todos mantêm o cartaz na vitrine, a mentira se preserva. Quando alguém o retira, a estrutura começa a ruir”.

Depois, quando perde as eleições vem com essa bobagem de atribuir ao aumento do preço da comida ou quetais. JK saiu com o maior índice de popularidade da época, enfrentando uma inflação altíssima.

Diz ela:

“Dói notar como ainda predomina, no exercício do jornalismo “mainstream”, a pressuposição de normalidade. Não era preciso esperar a ascensão meteórica de Zohran Mamdani à Prefeitura de Nova York para cobrir o quanto o tema da acessibilidade –hoje repetido em todo o espectro político– é indissociável do exercício do poder político”.

Mamdami assumiu prometendo ônibus gratuitos, congelamento dos aluguéis e mercados públicos com preços controlados.

Lucia menciona o próprio Donald Trump. Na semana passada publicou um decreto proibindo firmas de Wall Setreet de comprarem casa e apartamento, “um investimento predatório que coloca famílias de classe média em concorrência com fundos bilionários”.

Por aqui, transformou-se o mercado de crédito, de direito social para a mais deslavada especulação e corrupção. Chegou-se ao cúmulo de permitir o uso do BPC (Benefício de Prestação Continuada) e do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) como colateral para crédito, com as mais altas taxas de juros do planeta.

Tratei desse tema no artigo “Quando o crédito deixa de servir ao país e passa a servir ao mercado”.

Tome-se o crédito imobiliário, um dos mais controlados.

No Brasil, a taxa média é de 10% a 12% ao ano. Um financiamento de R$ 800 mil por 120 meses de prazo, sairia por R$ 10.900 ao mês. Na França, o mesmo valor sairia por R$ 7.500 e na Itália por R$ 7.800. Sem levar em conta o poder aquisitivo em cada país.

O financiamento de um automóvel de R$ 100 mil, por 36 meses:

No Brasil, a prestação sairia por R$ 3.900 contra R$2.910 na França e R$ 3.060 na Itália.

No período, o brasileiro pagou R$ 40.400 de juros contra R$ 4.760 do francês e R$ 9.940 do italiano.

Comparativo direto

PaísParcela mensalTotal pagoJuros
🇧🇷 BrasilR$ 3.900R$ 140.400R$ 40.400
🇫🇷 FrançaR$ 2.910R$ 104.760R$ 4.760
🇮🇹 ItáliaR$ 3.040R$ 109.440R$ 9.440

O crédito direto ao consumidor, de um bem de R$ 5.000 em 24 meses

Comparativo direto

PaísParcela mensalTotal pagoJuros
🇧🇷 BrasilR$ 363R$ 8.700R$ 3.700
🇫🇷 FrançaR$ 222R$ 5.330R$ 330
🇮🇹 ItáliaR$ 235R$ 5.640R$ 640

O que faria um Donald Trump diante desses abusos? Tabelaria os juros. Por aqui, é visto como heresia. E nos países civilizados?

  • França — limite legal para determinadas modalidades de crédito ao consumidor (ex.: taxas máximas de APR para cartão de crédito ou empréstimos pessoais).
  • Itália — regras de teto para juros do crédito ao consumidor, com limites percentuais estabelecidos por lei/regulação.
  • Portugal — taxa máxima para crédito ao consumo.
  • Polônia — possui teto de juros para crédito ao consumidor.
  • Finlândia, Suécia, Holanda — limites em diferentes produtos de crédito.
  • Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Filipinas, Tailândia — em vários países asiáticos há regulamentação de tetos máximos de juros em crédito ao consumidor.

Um país que privilegiasse a política – ou a democracia, aquela que diz que todo poder emana do povo – criaria estoques reguladores, tabelaria o mercado financeiro (mais fácil de tabelar), criaria formas de tabelar monopólios e oligopólios, trabalharia o passe livre, imporia taxas de importação para commodities agrícolas, para impedir repasse de preços para o mercado interno, conteria a financeirização alucinada, que ataca até benefícios sociais.

Está bem, sonhar não custa nada. É evidente que não há condições políticas, no momento, para políticas dessa ordem. Mas, como bem alerta a brava Lúcia Guimarães, a realidade está mudando. Um dia qualquer, no futuro, aparecerá um Sir Galahad com o Santo Graal, que desvenderá o segredo da Esfinge econômica.

Dada a falta de coluna cervical nas instituições públicas, há o risco concreto de, em um ponto qualquer da história próxima, sir Galahad aparecer na forma de um déspota.  A única esperança, se Deus for, de fato!, brasileiro, é que seja um déspota esclarecido – artigo mais raro no país do que partidos políticos modernos ou opinião pública esclarecida.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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3 Comentários
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  1. emerson57

    23 de janeiro de 2026 8:19 am

    É evidente que não há condições políticas, no momento.
    Nunca haverá.
    O único jeito é o governo preparar um pacotaço, conquistando a adesão do seu partido e ir atrás do apoio popular.
    Vai se instalar um tiroteiro direto?
    Vai.
    Mas se isso não for feito o atual governo perde as eleições.
    O próximo governo fará o pacote com sinal trocado, tirando a última gota de sangue do povo pobre.
    E continuaremos governados pelo PIG, globo à frente.
    LULA Já tem 80. Se ele não fizer agora levará quantos anos para ser forjado outro?
    Até lá não restará nenhum BRASIL.

  2. Aaron Schwartz

    23 de janeiro de 2026 9:05 am

    Artigo muito PRECISO,aumentou a minha consciência e me fez evoluir,ai q está venho alertando sobre FINANCEIRIZACAO especulativa há anos,mas Haddad COMPENTETISSIMO em tudo q faz jura q não,q estão incentivando a economia produtiva,se dobram ao mercado e aos ladrões congressistas bolsonaristas reinantes pela governabilidade a troco de alguns benefícios sociais ao povo Nassif não é possível fazer mudanças estruturais no País sem ENFRENTAMENTO real,o sistema é bruto,FHC,Temer e Bolso tocaram o terror no Brasil beneficiando só os GRANDÕES segura a onda Nassifão Lula não tem condições de fazer muita coisa ainda mais q ele faz o jogo da desmobilização do povo em favor dos seus amigos políticos de várias vertentes ,se não houver problemas e miséria aqui pq políticos?É assim q pensam ai fica mais fácil administrar recursos públicos,aqui é a barbárie desde a época da escravidão dos negros !!!

  3. +almeida

    23 de janeiro de 2026 9:56 am

    Boa Nassif! Porém, fique atento e reforça seu escudo protetor, porque prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém. Não falo de temor, mas de estratégia antecipada para possível defesa contra os abutres gananciosos e sem pudor da especulação e da escandalosa e permissiva subtração das finanças públicas e privadas, que nadam a braços largos nos mares da ganância explícita, sob olhares impotentes e indiferentes do poder público.

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