20 de maio de 2026

Quando o crédito deixa de servir ao país e passa a servir ao mercado, por Luís Nassif

A política monetária brasileira transformou o crédito de motor de desenvolvimento em ferramenta de proteção ao mercado financeiro.
Salvador Dali - Exposição - Reprodução

1. Crédito no Brasil: Transformação em negócio financeiro, desviando recursos da economia real para setores não prioritários, beneficiando o mercado financeiro em detrimento dos mais pobres.

2. FGTS e Selic: Utilização do FGTS como produto financeiro, liberando recursos para aumentar o lucro bancário, em detrimento dos trabalhadores e do desenvolvimento econômico.

3. Política monetária: Priorização dos interesses do mercado financeiro em detrimento do desenvolvimento econômico, resultando em altos juros, crédito caro e baixo investimento, perpetuando o atraso econômico do país.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Por muito tempo, a política econômica brasileira conviveu com uma inversão silenciosa, mas decisiva: o crédito — que deveria ser meio para financiar investimentos e ampliar o bem-estar — foi transformado em fim em si mesmo. Ou melhor: em um setor de negócios para o mercado financeiro. A economia real virou figurante.

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A fala recente do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, expôs essa distorção com a sutileza de um choque elétrico. Ele classificou a caderneta de poupança como um “Robin Hood às avessas”: os mais pobres, desinformados e sem alternativas deixam seu dinheiro rendendo quase nada, enquanto o crédito barato que a poupança deveria irrigar acaba abastecendo setores que não são prioritários — e, frequentemente, não devolvem o benefício a quem bancou a conta.

É um mecanismo de transferência de renda às avessas: segundo ele o pobre financia o crédito do rico.

O fenômeno não começou agora. Pérsio Arida, quando presidiu o BNDES, deu forma conceitual ao que o mercado sempre quis ouvir: tratou a diferença entre os juros do banco de fomento e a Selic como um subsídio, uma anomalia a ser corrigida. A meta não era aumentar investimento, produtividade ou indústria — era evitar que o crédito público “desorganizasse o mercado”. Para isso, criou até uma moeda contábil que neutralizasse a diferença. Foi a vitória da lógica financeira sobre a lógica do desenvolvimento.

A mesma natureza ideológica reaparece no interinato de Michel Temer e no período Paulo Guedes, quando o FGTS — originalmente uma poupança trabalhista, criada para dar segurança ao trabalhador — virou produto de prateleira do mercado financeiro.

  • Temer liberou mais de R$ 40 bilhões em 2017, sob o pretexto de estimular a economia.
  • Guedes institucionalizou os saques anuais e permitiu empréstimos com garantia do FGTS, transformando o fundo em lastro para aumentar o volume de crédito e o lucro bancário.

Em todos esses episódios, o padrão é o mesmo: o interesse do mercado se sobrepõe ao interesse do tomador de crédito.

O mutuário do antigo BNH, o comprador de eletrodomésticos, o pequeno empresário que precisa do Finame, a família que depende do crédito consignado — todos eles se tornam apenas insumos para o funcionamento da engrenagem financeira. A ponta final, o usuário do crédito, nunca é tratada como objetivo.

Em qualquer país que tenha projeto, o crédito é meio. Aqui, o crédito virou moeda de troca, lastro, mecanismo de arbitragem, instrumento de política fiscal disfarçada e, sobretudo, fonte de renda para o sistema financeiro.

Essa construção ideológica, inaugurada na era Fernando Henrique e mantida sem retoques até hoje — inclusive por governos que se dizem “desenvolvimentistas” — transformou a política monetária num regime de proteção ao mercado. O Banco Central passou a enxergar o crédito não como motor da economia, mas como campo de negócios. A avaliação da política monetária se faz em função das expectativas do mercado, não do efeito sobre o investimento, o emprego ou o consumo.

O resultado desse arranjo é palpável: juros altos persistentes, crédito caro, baixo investimento e crescimento medíocre. O país financia, involuntariamente, o próprio atraso.

No fim das contas, a pergunta é simples: o crédito existe para desenvolver o país ou para remunerar o mercado?

Hoje, a resposta, infelizmente, não deixa margem para dúvida.

Os álibis técnicos

As justificativas para a manutenção de Selic elevada atropelam todos os fundamentos da lógica.

Diz-se, por exemplo, que se a inflação está acima do teto da meta, há a necessidade de aumentar a Selic para reduzir o nível de atividade econômica, desaquecendo a economia.

Vamos a uma análise simples desse efeito Selic, comparando o final de 2024 (quando houve enorme desvalorização do real) e agora.

 Momento 1 — dólar alto

  • US$ = R$ 6,18
  • Produto = R$ 1.000
  • CDC = 7,91% a.m.
  • Prestação (12x) = R$ 132,08

Momento 2 — Selic sobe real aprecia

  • US$ = R$ 5,30 (queda de 14%)
  • Produto cai para R$ 857,61
  • CDC sobe suavemente para 8,06% a.m. os 2 pontos a mais na Selic mentalizados..
  • Prestação cai para R$ 114,14

A prestação cai 13,8%. O consumidor ganha poder de compra.

Isso implica:

A Selic mais alta não contraiu a demanda via crédito.
A Selic mais alta aumentou o poder de compra, graças ao câmbio.

E a maior influência na inflação – o câmbio – fica nas mãos do mercado, com o BC correndo atrás e se valendo apenas da Selic.

Uma aberração para quem acredita no manualzinho, mas a perfeita descrição do Brasil.

É por isso que:

  • a poupança vira um “Robin Hood às avessas”,
  • a diferença entre juros do BNDES e Selic é tratada como “subsídio” ao invés de política industrial,
  • o FGTS é usado para rodar o motor do mercado financeiro,
  • e os programas de crédito pensados para desenvolvimento são transformados em produtos para bancos e fundos.

Conclusão

O raciocínio prova:

  1. A Selic alta encareceu muito pouco o crédito, porque o spread absorve tudo.
  2. A Selic alta valorizou muito o câmbio — efeito bruto e imediato.
  3. A valorização do câmbio reduziu preços de bens comercializáveis, derrubando o IPCA.
  4. A queda da inflação nada tem a ver com “desaquecer a economia” via juros.
  5. A Selic alta, paradoxalmente, aumentou o poder aquisitivo, o que é o oposto do que o Banco Central diz.

O que puxou a inflação para baixo foi:  o câmbio valorizado não o aperto monetário no crédito.

E o que é déficit público tem a ver com isso? Quem quiser eu conte outra,

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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7 Comentários
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  1. fabricio coyote

    17 de novembro de 2025 7:33 am

    tudo isso avalizado pelo pt a partir de 2003, com a revogação do art. 192 da Carta Política mais a lei de consignado. conseguiram aumentar a discrepância social. vê se que são paulo trm inúmeras favelas de tapume e madeirite e palafitas. é o terror. como é titulo do disco do Facção Central: direto do campo de extermínio, onde o estado patrocina chacinas em troca de abonos salariais aos policiais que também são filhos da marginalização. agora é esperarmos a frota 666 de trump

  2. Marcelo Da Silva Lima

    17 de novembro de 2025 9:09 am

    O dinheiro flui com em um rio e o entulho se acumula nas chuvas.
    Tem que acabar com a multa rescisória do FGTS e os depósitos se atrelado a selic sem impostos no saque daí o trabalhador não fica amarrado e nem a empresa e o dinheiro flui.
    Para investidores e banqueiros o que importa é o custo de capital no tempo e a segurança, ninguém está preocupado com o desenvolvimento.

  3. José Machado

    17 de novembro de 2025 9:27 am

    Vocês são muito pueris com o mercado financeiro.
    O mercado financeiro é um alcatéia de lobos, que se comem até uns contra os outros.
    Imagine a sociedade.
    No jargão das bolsas, seriam os tubarões. Os pequenos; sardinhas.
    Eles já partiram para o crime há muito tempo.
    Hoje eles operam basicamente o estelionato e o crime puro. Usam demais a imprensa
    para enganar.
    Perigosamente estão indo para o crime organizado; de tão bandidos que se transformaram.
    A economia atual pode viver sem mercado financeiro; podemos viver sem esses bancos,
    sem bolsa de valores, sem multa e juros. Aí seria só prosperidade para a nação.
    Eles são apenas 1% e nós somos 99%.

  4. Pedro Eneas

    17 de novembro de 2025 9:40 am

    Decide, entre outras questões, a política monetária/creditícia = Conselho Monetário Nacional = presidente do BC + ministro da fazenda + ministra do planejamento = indicações do atual presidente da República. Tudo mais é retórica vazia…

  5. JEFFERSON PEREIRA DA SILVA CASTRO

    17 de novembro de 2025 9:46 am

    A Selic alta não influenciou na apreciação do câmbio?

  6. Eduardo Costa

    17 de novembro de 2025 11:50 am

    O processo foi relativamente lento mas em degraus. A definição geral é que a moeda vira mercadoria. Um bem de troca do trabalho para viabilizar a vida do trabalho industrial é carregada para os bancos, gerando créditos para quem possui a moeda. Antigamente era especulação financeira. Ou usura legalizada. A isto somada a privatização dos meios de produção gerou isso que aí está: o capitalismo bancário predatório cujo único parceiro é o estado armado até os dentes para manter a coragem a ferro e fogo.

  7. cezarperin

    17 de novembro de 2025 4:04 pm

    O crédito virou um fim em si mesmo…(abastecer o sistema financeiro). E não um meio para para alavancar o desenvolvimento.

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