21 de maio de 2026

O “CEO Genérico”, Trump e a Alavancagem na Política, por Luís Nassif

Ciclo emocional e financeiro gera uma bolha especulativa seguida por uma corrida por liquidez — o chamado “loop de feedback positivo”.
Reprodução via El Nuevo País

Já escrevi algumas vezes sobre o padrão do “CEO genérico” na política. Nos negócios, esse perfil surgiu como uma emulação de Jack Welch, o lendário gestor que acabou contribuindo para a derrocada da icônica General Electric.

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As principais características do “CEO genérico” incluem:

  • Desconhecimento dos fundamentos do próprio negócio;
  • Descompromisso com o futuro da companhia;
  • Foco exclusivo no curto prazo e em medidas que aumentam a rentabilidade imediata.

Ontem, no Valor Econômico, o editor de Internacional Humberto Saccomandi explicou de forma didática um dos instrumentos favoritos desses gestores: a alavancagem.

A lógica da alavancagem

Inserido na lógica da financeirização que domina a economia ocidental, o “CEO genérico” atua com foco quase exclusivo nas expectativas. Um ativo não se valoriza apenas pelos resultados que entrega, mas pela expectativa dos resultados que pode vir a entregar. É o caso das criptomoedas: seu valor explode porque os investidores acreditam que outros também acreditarão, gerando uma demanda artificial que impulsiona os preços — até que a bolha estoure e reste o prejuízo para os últimos a sair.

Nesse cenário de volatilidade irracional, a alavancagem se torna um dos principais instrumentos especulativos. Trata-se de tomar empréstimos para investir, acelerando a espiral especulativa com recursos de terceiros. Cria-se uma demanda artificial, realiza-se o lucro, paga-se o empréstimo e fica-se com a diferença. Como explica Saccomandi: “Nos negócios, alavancagem significa usar os recursos de terceiros (dívida, por exemplo) para aumentar o retorno do capital próprio” — ou seja, obter um efeito maior com um esforço menor.

O estilo Trump: política como alavancagem

Esse modelo explica o estilo de Donald Trump, que cria fatos políticos sem considerar suas consequências. Seu objetivo não é ir até o fim, mas gerar resultados imediatos por meio da criação de expectativas.

A alavancagem política explora vícios de mercado como:

  • Excesso de confiança: o investidor acredita que “entende o mercado” e aumenta a alavancagem após alguns acertos.
  • Viés de confirmação: busca apenas informações que reforcem sua posição.
  • Ilusão de controle: acredita que conseguirá sair antes do colapso.
  • Aversão à perda: dobra a aposta para “recuperar o prejuízo”, agravando o risco.

Esse ciclo emocional e financeiro gera uma bolha especulativa seguida por uma corrida por liquidez — o chamado “loop de feedback positivo”.

Foi o que ocorreu com os movimentos de Trump em relação a Lula e ao Brasil. Inicialmente, ele “alavancou” o poder político dos EUA, mas esbarrou na resposta firme de Lula e do STF. O resultado foi o oposto do esperado: Lula saiu fortalecido no Brasil e ganhou projeção internacional como contraponto democrático ao autocratismo de Trump.

Percebendo o erro, Trump recuou. Primeiro, tentou criar um clima na ONU. Depois, promoveu uma conversa entre Marco Rubio e o chanceler Mauro Vieira. Agora, o Brasil enfrenta o desafio de oferecer uma saída honrosa para Trump.

Argentina e Venezuela: alavancagem diplomática

O caso argentino é outro exemplo. Os EUA anunciaram uma ajuda de US$ 20 bilhões ao governo de Javier Milei, em meio à crise cambial. O anúncio gerou otimismo inicial, mas sem detalhes ou recursos concretos, o entusiasmo se dissipou. O Tesouro americano começou a atuar no mercado, comprando pesos e fornecendo dólares via swaps cambiais, mas em escala muito inferior à prometida — menos de US$ 400 milhões, segundo a mídia argentina. Agora, Trump está com a batata quente na mão.

Na Venezuela, Trump enviou uma frota militar com milhares de soldados. A intenção não era invadir — o Iraque exigiu 150 mil soldados — mas sim criar um clima que induzisse os militares venezuelanos a dar um golpe, sem comprometer recursos americanos. Provavelmente não irá pegar.

O mesmo estilo se repetiu na guerra da Ucrânia e, mais recentemente, na proposta de tarifa de 100% sobre produtos chineses. A medida foi tão desconectada da realidade que, já no segundo dia, os mercados se recuperaram.

Nunca se deve perder de vista que os movimentos especulativos que antecedem e sucedem as ações de Trump são excelentes fontes de lucro para quem tem acesso antecipado às informações.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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1 Comentário
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  1. Victor Lima

    20 de outubro de 2025 9:05 pm

    O “X” da questão, que passa despercebido pela maioria é o que está posto no final do artigo: Movimentos especulativos – Informações privilegiadas – Fontes de lucro. Trump está gerando grandes lucros para seus laranjas e para seus grupos de apoio. Pode estar se capitalizando para um projeto maior e mais perigoso ou simplesmente enchendo os bolsos, quem saberá?

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