5 de junho de 2026

O jogo político e econômico das milícias, por Luís Nassif

O crime organizado obedece a duas lógicas: mercado e poder. Ocupação de territórios é disputa por mercados e não apenas o da droga
Reprodução

▸ CPI do Crime Organizado inicia investigações abrangentes, não limitadas ao tráfico. Milícias disputam territórios e expandem atividades ilícitas.

▸ Milícias no Rio ampliam atuação para venda de drogas e buscam poder político, fortalecendo-se em regiões estratégicas.

▸ Família Bolsonaro mantém laços com milícias, utilizando apoio político e recursos desses grupos para ascensão eleitoral.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Começou bem a CPI do Crime Organizado. Não se trata de restringir a investigação — ou as políticas de segurança — à luta contra o tráfico. Esta é apenas uma das modalidades de atuação do crime organizado.

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O crime organizado obedece a duas lógicas: mercado e poder. A ocupação de territórios é uma disputa por mercados e não apenas o da droga. Comercializam-se os seguintes produtos:

  • Gás
  • Gato de Internet
  • Votos

Quando a polícia ataca determinada comunidade, muito provavelmente por trás da operação está uma disputa territorial, desalojando um grupo criminoso em favor de outro. No caso, as milícias, organizações formadas por ex-policiais e com óbvias ligações com a polícia.

Nos últimos anos, além da venda de proteção, gás e gatonet, as milícias enveredaram também pela venda de drogas.

Relatórios do Ministério Público, por exemplo, revelam que essas organizações passaram a explorar a venda de drogas, atuando tanto na expulsão de traficantes tradicionais quanto na parceria com estas, formando “narcomilícias” 

As milícias também buscam consolidar seu poder, através de apoios políticos, além de expandir seu controle sobre territórios estratégicos na capital e no interior do país. Tal estratégia promove o crescimento territorial dessas organizações, com aumento de suas atividades ilícitas, incluindo o tráfico, em um cenário de enfraquecimento das facções tradicionais.

Quando combate uma facção, a Polícia Militar também se move pela lógica econômica, já que muitos PMs são parceiros de seus ex-colegas milicianos.

As milícias e a política

A família Bolsonaro se elegeu e manteve apoio político com a colaboração explícita e implícita das milícias, utilizando-se de recursos provenientes desses grupos para sua ascensão eleitoral e manutenção do poder em determinadas regiões, principalmente no Rio de Janeiro.

Como explicou o ex-deputado federal Fernando Gabeira, “família Bolsonaro se elege com a ajuda das milícias”

Para ele, o Rio é um Estado onde, de um lado, “corrupção acontece em vários níveis” e, de outro, há a incapacidade do próprio poder público em “estar presente em regiões que são dominadas e lideradas por setores que não são oficiais”, como as milícias e o tráfico.

“Isso implica numa dificuldade muito grande no curso da democracia. Durante o período eleitoral só entram naquelas regiões e só se elegem os deputados, vereadores ou senadores que tiverem contato com esses grupos e autorização deles para entrar. Estabeleceu-se no Rio o que o Raul Jungmann chamava de ‘coração das trevas’, a associação de crime e política”, comentou.

As ligações do clã Bolsonaro com as milícias da zona oeste se estreitaram em 2002, com a eleição de Flávio Bolsonaro para a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Flávio tinha apenas 22 anos, e se vendia como representante político e ideológico dos “guerreiros fardados”. O grande articulador da família, junto às milícias, era Fabrício Queiroz, tanto junto às milícias quanto aos batalhões policiais.

No seu período de deputado, Flávio aprovou 495 moções e concedeu 32 medalhas a a policiais militares, policiais civis, bombeiros, guardas municipais e membros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. 

Dentre os primeiros homenageados, estava Adriano da Nóbrega, morto anos depois pela Polícia Militar da Bahia, numa operação típica de queima de arquivos.

Não são apenas as milícias. Em São Paulo, o PCC controla um amplo território, onde cuida da segurança, impedindo o crime no varejo, que poderia atrapalhar suas atividades. Em outubro de 2024, o Tribunal Regional Eleitoral divulgou relatório de inteligência ao Ministério Público Eleitoral,  com nomes de dez vereadores e dois prefeitos eleitos neste ano também são suspeitos de manter relação com o crime organizado.

O secretário bolsonarista

Em todo esse jogo de cena, da Operação que matou 121 pessoas, nenhuma explicação foi mais patética que a de Victor Santos, Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, em entrevista à Folha.

Segundo ele, o objetivo da operação nunca foi prender os líderes do Comando Vermelho, mas busca e apreensão e de mandados de prisão para mapear e asfixiar a organização criminosa.

Disse ele: “Hoje o foco é o negócio. Se imaginar 280 mil pessoas, dividir a metade, 140 mil, pagando um plano básico de internet de R$ 100, temos R$ 14 milhões só de internet. Quanto de droga o criminoso tem de vender para faturar R$ 14 milhões? Então o foco nunca foi o criminoso. Eu quero os dados. A gente hoje tem informações de movimentações financeiras, que é o que vai dar efetividade a esse combate. Claro que numa fase ostensiva a gente tem que pensar nessa questão do confronto”.

Não explicou que tipo de dados consegue de pessoas mortas.

No governo Bolsonaro, foi Superintendente da Polícia Federal no Distrito Federal, por indicação de Flávio Bolsonaro. Substituiu Hugo de Barros Correia, que coordenava as ações da corporação no DF, responsável por um inquérito contra Jair Renan, o filho mais novo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Um dia depois de exonerado do cargo, foi nomeado Secretário de Segurança do Rio de Janeiro.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    5 de novembro de 2025 9:59 am

    Creio que a diversificação das atividades de grupos criminosos está ligada, de certa forma, à substituição do papel moeda (a cédula de dinheiro), pelo sinal eletrônico. Na década de 70 o principal astro do mundo do crime, no RJ, era Lúcio Flávio Vilar Lírio – um mero assaltante de bancos. Se estivesse vivo, hoje, e ainda se dedicasse aos assaltos a bancos, estaria passando fome. Quando foi a última vez que o prezado leitor do GGN fez um pagamento em espécie, salvo ao feirante que lhe vendeu uns tomates? E mesmo esse pequeno comerciante já dispõe de uma maquineta. Os cofres de bancos, a essa altura dos acontecimentos, já não guardam nem títulos de dívida – que são, hoje, também, meros sinais eletrônicos. E mesmo quando o crime organizado passou a usar empresas de fachada, também essas já não recebiam pagamentos em espécie. Movimentando cada vez mais vultosas quantias, a única solução foi se juntar ao sistema financeiro – nem um pouco preocupado, desde sempre, com a origem dos recursos nele depositados. Daí para assumir, de fato, comércios tais como gás, internet (ela mesma filha dessa era de virtualidade financeira), e outros, foi um passo. E a lavagem fica com quem de direito: a Faria Lima e o mercado financeiro. Nada de novo.

  2. Rui Ribeiro

    5 de novembro de 2025 10:16 am

    As elites fazem guerras ás drogas mas não fazem guerras às milícias, muito pelo contrário, parte das elites sanguessugas são a favor das milícias:

    “Quero dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um parlamentar criticar os grupos de extermínio — que enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio”. – Bostonaro Familícia

    Você tem uma explicação porque o Castro não faz uma megaoperação contra as milícias, Nassiff?

    Agora quando os territórios das milícias estão sendo tomados pelos traficantes, aí o Estado do Rio de Janeiro intervém em favor das milícias e contra o tráfico.

  3. Rui Ribeiro

    5 de novembro de 2025 10:52 am

    O $ecretário de $egurança do RJ, Victor $antos, afirmou que o foco do massacre nunca foi prender líderes, mas pegar dados para asfixiar facção.

    Mas anteriormente o mesmo $ecretário de $egurança havia dito outra coisa:

    “O Doca, nós não conseguimos pegar nesse primeiro momento porque é uma estratégia que eles fazem. Essa liderança, principalmente a liderança do Doca, o que eles fazem? Ele bota os soldados como mais uma barreira para poder FACILITAR A SUA PRISÃO, a gente tem toda essa dificuldade”.

    O Doca facilitou a própria prisão, de acordo com o Secretário de Segurança, e mesmo assim o deixaram escapar, alegando dificuldade. Ora, pegar dados para asfixiar financeiramente o Comando Vermelho não é incompatível com a prisão dos membros da Cúpula da mencionada facção.

  4. jot.AFF.marvelo

    6 de novembro de 2025 9:55 am

    Estamos numa encruzilhada, não se pode mais INCENTIVAR o mercado da miséria aonde ganha bandidos e policias,sempre nesta polarização incentivada,os.bandidos.semore saem na frente por causa da quantidade.deles,, impossível controlar, avançam nas Instituições,no Estado e etc… Daí necessário dar condições mínimas de sobrevivência as pessoas,em empregos, salários, educação, não dá mais para incentivar o mercado da miséria,chegamos ao ápice da desgraça,bancos e militares incentivando o caos para depois colher frutos com mais endividamento de nossos emoresai/empresas,mais polícias e armamentos estimulando confrontos e engraçado a culpa sempre.jogada nas costas de Dilma/Lula/PT isto a décadas e eles não reagem,sempre se defendendo, não apontam os reais motivos de todos os problemas e se apontam,logo desistem,o povo esquece ou apontam mil coisas aí é impossível o povão assimilar,os meia dúzias de bilionários mimados da tv e internet sabem convencer uma nação contra si mesmos,vimos isto com a lava-jatoc.ovid e atualmente os juros altos no Brasil q são 4 x mais q nós euaaa q cortou ainda mais os seus juros recentemente,AFF lá os empresários não deixam o setor financeiro acabar com eles, têm noção de sobrevivência não é igual os daaqui q são convencidos facilmente q Lula é o mal e vai tirar dinheiro deles (sindical trabalhista)AFF kkk,justamente o contrário,é desenvolvimento e progresso a todos mas os 1 por cento sabem entrar na mente das pessoas,o objetivo é escravidão e privilégios AFF sem mais senão escrevo um livro aqui!!!!

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