21 de maio de 2026

O engano fatal das metas de inflação, por Luís Nassif

O sistema de metas é falho: a alta da Selic visa o lucro especulativo e afasta o investimento produtivo

Não há autoengano mais prejudicial ao país do que o sistema de metas inflacionárias. Sua lógica é profundamente falha:

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  1. Define-se uma meta de inflação.
  2. Se a expectativa de inflação supera essa meta, eleva-se a taxa básica de juros.
  3. A justificativa? Que o aumento dos juros desacelera a economia e, assim, reduz a inflação.

Essa narrativa é aceita por muitos, mas não resiste à análise crítica. Nenhum economista sério acredita que a taxa básica de juros controla a atividade econômica a ponto de domar a inflação futura. A verdadeira lógica por trás do sistema é cambial — e o instrumento de ajuste não é o nível de atividade, mas sim o carry trade.

Entendendo o Carry Trade

O carry trade é uma operação em que investidores tomam empréstimos em moedas com juros baixos e aplicam em ativos com juros mais altos, como o Real. O lucro depende do diferencial de juros e da expectativa de variação cambial.

Exemplo 1: Real estável ou valorizado

  • Empréstimo: US$ 10 milhões a 4,33% ao ano → dívida de US$ 10,433 milhões.
  • Conversão: US$ 10 mi × R$ 6,00 = R$ 60 mi.
  • Aplicação na Selic a 15% → R$ 69 mi após um ano.
  • Se o dólar desvaloriza 5% (R$ 6,30), o investidor converte R$ 69 mi em US$ 10,95 mi.
  • Lucro: US$ 519 mil.

Exemplo 2: Real valoriza 5% (R$ 5,70)

  • Conversão de R$ 69 mi → US$ 12,10 mi.
  • Lucro: US$ 1,67 mi.

Exemplo 3: Real desvaloriza 15% (R$ 6,90)

  • Conversão de R$ 69 mi → US$ 10 mi.
  • Prejuízo: US$ 433 mil.

Ou seja, o fator decisivo é a variação cambial. Se o real se valoriza, o especulador ganha; se desvaloriza, perde.

O Que Move o Câmbio?

A entrada ou saída de dólares. Se há expectativa de valorização do real, o fluxo de entrada aumenta, valorizando a moeda. Se há fuga de capitais, o real se desvaloriza.

E a Inflação?

A lógica do mercado é distorcida: supõe-se que, para manter a paridade de compra, o câmbio deve acompanhar a inflação interna. Se a inflação sobe, o real pode se desvalorizar, o que afeta o carry trade. Mas a inflação não sobe por causa da atividade econômica — sobe por causa da variação cambial, que depende da entrada de dólares.

Quando o real se valoriza, os preços dos produtos comercializáveis caem — tanto importados quanto exportados. Com isso, a inflação recua. E vice-versa. E ainda assim, atribui-se a inflação à “gastança”, mesmo quando o déficit primário é irrisório.

O “Apito de Cachorro”

Indicadores como inflação e déficit funcionam como “apito de cachorro”: sinais codificados que apenas os grandes players do mercado entendem. Eles entram e saem rapidamente, lucrando sobre a manada que reage depois.

Foi o que ocorreu em dezembro, quando três grandes bancos — um deles estrangeiro — provocaram uma corrida contra o real, gerando uma maxidesvalorização. As contas públicas estavam iguais, as expectativas de inflação também. O que mudou? A fuga de capitais.

A desvalorização pressionou a inflação, forçando o Banco Central a elevar a Selic novamente. Tudo isso por causa de uma única condição: o livre fluxo de capitais.

O Verdadeiro Debate

Por que manter essa liberdade irrestrita para entrada e saída de capitais? Os “idiotas da objetividade” dirão que o Brasil precisa de investimento estrangeiro. Mas qual tipo?

Apenas o capital produtivo — aquele que investe na economia real, em fábricas e setores novos — é desejável. E para esse capital, a estabilidade cambial é essencial.

Ao permitir o livre fluxo, abrimos as comportas para o capital especulativo e afastamos o investimento produtivo. Esse é o verdadeiro nó a ser desatado para destravar o crescimento: controlar o fluxo de capitais e enfrentar o tsunami especulativo que ameaça a economia.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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16 Comentários
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  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    22 de outubro de 2025 7:39 am

    As metas de inflação, é um dos mecanismo utilizados pelo mercado financeiro para controlar a margem de lucro dos rentistas. As taxas de juros determinadas pelo BC, tem muito a ver com o lucro abusivo dos especuladores e pouco a ver com o combate a inflação. Enquanto o BACEN for controlado pelo clube da usura, o Brasil vai padecer de orvedose de taxas de juros altas.

  2. JOT,aff.MARCELO

    22 de outubro de 2025 9:48 am

    A receita é aquela antiga da vovó,o setor especulativo leva metade do dinheiro do País,mesmo após cortes na saúde com isso o déficit nas contas públicas piora e a culpa é do povo,saude,educação AFF mais do mesmo e ainda se deposita alguma esperaanca2 no Congresso q só não implanta uma ditadura civil pq não há condições igual os militares tentaram fazer,AFF !!!Obs.:SABOTAGEM A LA CIRO NO PDT KKKK !!!

  3. emerson57

    22 de outubro de 2025 11:57 am

    O que dizer das espectativas causadas por taxa de juros p. da galáxia?
    Essa taxa influi em toda formação de preços da indústria e do comércio.
    E cria o ciclo Tostines, realimentando a inflação.
    Me parece óbvio.

  4. André LB

    22 de outubro de 2025 12:02 pm

    Nassif, às vezes seu bom-mocismo cansa… como se o sistema de metas fosse “falho”, a visão do mercado, “distorcida”.

    Qualquer um que tenha olhos para ver sabe que não há falha alguma. Esse sistema perfeitamente para desviar dinheiro público para poucos bolsos privados.

    1. Rui Ribeiro

      23 de outubro de 2025 7:38 am

      É uma falha proposital e benéfica aos falhantes

    2. Rui Ribeiro

      24 de outubro de 2025 1:23 pm

      A taxa de juro é elevada porque a inflação é elevada e a inflação é elevada porque a taxa de juro é alta. Círculo vicioso para os pobres mas virtuoso para os ricos.

  5. JOSE ANTONIO ARONE

    23 de outubro de 2025 7:26 am

    Tenho 67 anos, sou contador e sigo a teoria newpatrimonial de Antônio Lopes de Sá, sou fã do Nassif e concordo com a fala dos erros da política cambial, o Brasil está entregue para bandidos do mercado financeiro, isso mesmo, bandidos, pois não tem lógica econômica nem acerto nas propostas colocadas, só uma revolução armada derruba esse grupo que domina e controla o Brasil, somos refém de um bando de pilantras com discurso de bom moço, são marginais da sociedade que controlam a midia, o BC a política, as F.A. e tudo mais no pais, o Brasil hoje é um curral para atender os objetivos desse grupo, o resto é papo de bar.

  6. Rui Ribeiro

    23 de outubro de 2025 11:09 am

    A imprensa murdochiana noticia:

    “BC está muito incomodado com a taxa da inflação e expectativa de alta fora da meta, diz Galípolo
    Presidente da autarquia afirma que Selic deve ser mantida a 15% por um tempo prolongado”.

    A Nação vai explodir de tanto pagar taxas de juro escorchantes aos compradores de títulos públicos. Seria muito mais sensato baixar a taxa de juros, aliviar a dívida pública e possibilitar o investimento na produção, pois com altas taxas de juros os capitalistas investem apenas na especulação, a qual não contribui para aumentar a oferta de bens e serviços e, dessa forma, para a reduzir a inflação. Palhaçada

  7. Rui Ribeiro

    24 de outubro de 2025 8:11 am

    O que pensa a Folha de São Paulo:

    “Solução para os Correios é privatizar ou fechar
    Empréstimo de R$ 20 bilhões garantido pelo Tesouro é fachada para torrar dinheiro do contribuinte
    Um governante responsável já teria vendido ou encerrado atividades da empresa para estancar sangria que só faz alimentar a dívida pública”.

    Folha está preocupada com a dívida pública. Mas é uma preocupação seletiva, pois eles nada dizem contra a taxa de juros estratosférica que em regra reina no Brasil e que alimenta fartamente a dívida pública. Em entrevista à Rede Globo, o Eduardo Campos disse:

    “‘Houve uma reunião do Copom hoje e aumentou 0,5% os juros’. E ninguém pergunta da onde vem esse dinheiro. E 0,5% na Taxa Selic significa 14 bi”.

    A privatização, diz a Folha de São Paulo, é a solução. Que o diga Brumadinho.

    1. Gabriel Sampaio

      25 de outubro de 2025 3:27 pm

      Embora haja trechos relevantes e que merecem total destaque em alguns comentários, parece haver uma espécie de amnésia esquisita quando se ignora completamente o fato de que os gastos do governo são elevados e vítimas de uma gestão desastrosa, uma gestão pautada em falcatrua e corrupção. Vocês só olham para política monetária? autoridade monetária? E a política fiscal? O que esse desgoverno tem feito no sentido de aprimorar a eficiência, qualidade e transparência das políticas fiscais, cujos benefícios gerados ao povo são extremamente tímidos, pra não dizer inxistentes? Selic altíssima e persistente é culpa do “sistema ” sim, sistema que possui como principal protagonista um péssimo governo técnica, estratégica e moralmente.

      1. Rui Ribeiro

        26 de outubro de 2025 8:23 am

        Gestão desastrosa como assim, Cara Pálida? Teria como explicar melhor esse desastre, já que ele não é auto-evidente? É possível um governo sem gastos?? É possível uma sociedade capitalista sem corrupção e falcatruas, mesmo as que vivem de pilhar as
        riquezas dos países militarmente fracos?

        1. Anônimo

          26 de outubro de 2025 2:36 pm

          Você usa serviço público, amigo? Você vê a infraestrutura do país melhorando? Você vê países interessados em negócios consistentes, firmes e perenes com o Brasil? Voce vê segurança jurídica? Carga tributaria condizente com
          as melhorias que o governo fornece a seu povo? Chega a ser um deboche de sua parte essa solicitação de ” melhor explicação “, cara pálida. Um abraço, e reveja, pelo amor de Deus.

        2. Anônimo

          26 de outubro de 2025 2:46 pm

          Se você acha que todos os países estão no mesmo grau de falcatrua e má administração do Brasil, você não olha um dado…não interpreta um número…só pode, amigo.

          1. Rui Ribeiro

            27 de outubro de 2025 10:42 am

            Eu não acho que todos os países estejam no mesmo grau de falcatrua e má administração que o Brasil, pois cada país tem suas particularidades. Uma coisa, porém, é inegável: não existe sociedade dividida em classes onde não haja corrupção.

            Corrupção é como veneno: o grau não importa.

            Em relação à corrupção, empatamos com os EUA, apesar sermos um país pobre e espoliado, ao invés dos EUA, que são rico às custas da pilhagem das nações militarmente fracas.

            O Luís Fernando Veríssimo escreveu:

            “Empate

            Não quero desiludir ninguém, ainda mais depois do golpe que foram os 7 a 1 na Copa, mas os americanos nos ganham em matéria de corrupção. Ou pelo menos empatam.

            Notícias do superfaturamento, dos custos fictícios e outras falcatruas de empresas americanas contratadas para reconstruir o Iraque – apenas um exemplo – depois da destruição que eles mesmos provocaram, fizeram murchar minha megalomania.

            Não era só o volume de dinheiro desviado, maior do que qualquer concebível escândalo brasileiro. A Bechtel, a Halliburton, ligada ao então vice-presidente Dick Cheney, e outras empresas americanas ganharam, com exclusividade (“Nossa sujeira limpamos nós” é o lema implícito) e sem licitação, os contratos para reparar os estragos feitos, subsidiadas pelo Pentágono.

            E mesmo com os bilhões de dólares gastos e roubados depois da queda do Saddam, o Iraque continua em ruínas.

            E o pior para o nosso ego é que, com tudo isso, você não ouve os americanos dizerem que são os mais corruptos do mundo. Ainda por cima nos arrasam com sua modéstia”.

            https://www.estadao.com.br/cultura/luis-fernando-verissimo/empate/?srsltid=AfmBOoq5Jnippc30ipAJ4I7Tyadeb98Lgr5UMTcJvP_eKkSjFs1-Vb2F

      2. Milton

        30 de outubro de 2025 9:37 am

        Acorda ! Compara os governos de FHC e o de Lula e ouve outras vozes , não apenas dos globais e assemelhados. Sugiro o presente GGN.

  8. Rui Ribeiro

    28 de outubro de 2025 8:21 am

    Gabriel Sampaio e Anônimo são austericidas. Certamente ignoram o conceito de paradoxo da parcimônia.

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