O Brasil chega aos noventa minutos empatado.
Não perdeu a partida. Mas tampouco conseguiu transformar seu imenso potencial em vitória.
Ao longo do jogo, cada período deixou jogadores em campo. Alguns foram expulsos, outros vendidos às pressas, vários ficaram esquecidos no banco. Mas ainda existe uma espinha dorsal capaz de disputar a prorrogação.
A ditadura militar, apesar de seu legado autoritário, deixou instituições que sobreviveram ao regime e se tornaram patrimônio do desenvolvimento nacional. A Embrapa revolucionou a agricultura tropical; a Eletrobras estruturou a expansão do sistema elétrico; a Sudam buscou integrar a Amazônia; a Finep tornou-se peça central do financiamento à inovação; a ENAP profissionalizou parte do Estado.
Com a Constituição de 1988, o Brasil voltou a acreditar que poderia jogar coletivamente.
Ela reorganizou o meio-campo social do país. A Seguridade Social deixou de ser apenas previdência para formar um sistema integrado de Previdência, Saúde e Assistência Social, financiado por múltiplas fontes. O SUS substituiu um modelo restrito aos contribuintes por um sistema universal. O Benefício de Prestação Continuada garantiu renda mínima a idosos e pessoas com deficiência em situação de pobreza, independentemente de contribuição. A Previdência Rural reconheceu milhões de trabalhadores antes invisíveis.
No ataque social vieram também os novos direitos trabalhistas: jornada de 44 horas, FGTS universalizado, licença-maternidade ampliada, licença-paternidade, férias com adicional constitucional, fortalecimento do décimo terceiro salário.
Ao mesmo tempo, a Constituição colocou a sociedade dentro do estádio. Conselhos de participação passaram a integrar a gestão das políticas públicas. Os povos indígenas tiveram reconhecidos seus direitos originários às terras tradicionais; as comunidades quilombolas conquistaram reconhecimento constitucional; a educação tornou-se direito público subjetivo, protegida por vinculação mínima de recursos.
Era um time promissor.
Então veio o governo Fernando Collor.
Muitos jogadores foram dispensados antes mesmo de estrearem. A abertura econômica ocorreu sem uma estratégia industrial capaz de preparar a equipe para o campeonato internacional. Ainda assim, alguns atletas permaneceram úteis, como o Sebrae, as Câmaras Setoriais e os programas nacionais de qualidade.
Fernando Henrique Cardoso estabilizou a economia, mas alterou profundamente o esquema tático. A financeirização passou a comandar o jogo. Privatizações relevantes foram conduzidas sem uma estratégia integrada de desenvolvimento industrial. O país desmontou o sistema Telebrás, privatizou a Companhia Vale do Rio Doce e perdeu a oportunidade de organizar cadeias produtivas robustas nos setores petroquímico e siderúrgico. Em compensação, deixou um jogador de primeira linha: os Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia.
Pouco a pouco, o Brasil foi perdendo peças importantes do seu elenco industrial. A integração construída durante décadas foi substituída por um balcão permanente de compra e venda de ativos. Ganhou eficiência em alguns segmentos, mas perdeu escala, coordenação e capacidade de planejamento.
Os governos Lula amenizaram parte dos efeitos sociais desse modelo. Aproveitaram os espaços que restavam para reduzir a fome, ampliar o mercado interno e democratizar o acesso ao ensino superior. O maior legado talvez tenha sido a extraordinária expansão das universidades federais e dos institutos federais, formando uma geração de pesquisadores, engenheiros, médicos e técnicos espalhados por todo o território nacional.
Depois veio o grande desmonte.
A equipe técnica passou às mãos de dirigentes incapazes de compreender o próprio jogo. O impeachment abriu uma sequência de governos que desmontaram políticas públicas, enfraqueceram instituições, reduziram investimentos e desorganizaram completamente a seleção brasileira do desenvolvimento.
Quando Lula voltou ao comando, encontrou um elenco desentrosado. Sua prioridade foi reconstruir a defesa e reparar os estragos mais imediatos. Mas o esquema continuou excessivamente cauteloso. O meio-campo permaneceu amarrado por uma política monetária e cambial que limitou a capacidade ofensiva da economia.
Agora, se tudo correr bem, com Lula 4 o Brasil entrará na prorrogação.
Na defesa estarão o sistema nacional de ciência e tecnologia, as universidades federais e estaduais, os institutos federais, a Finep, a Fiocruz, o Butantan, articulados por instituições como o CGEE e o Ipea.
No ataque, permanecem jogadores decisivos: Petrobras, BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Dependendo da estratégia, poderão atuar ao lado de empresários nacionais e multinacionais interessados em reconstruir cadeias produtivas sofisticadas.
Existem, porém, dois obstáculos.
O primeiro é a excessiva cautela do técnico Lula-Ancelotti, que ainda parece hesitar em montar um esquema capaz de mobilizar plenamente o talento brasileiro.
O segundo está fora das quatro linhas.
Assim como a CBF frequentemente impede que o melhor futebol brasileiro apareça, parte da elite política e econômica continua funcionando como um colégio de cartolas, bloqueando qualquer tentativa de reorganizar o projeto nacional de desenvolvimento.
Se o técnico decidir confiar definitivamente na criatividade brasileira e escalar o melhor time possível, talvez a torcida volte a acreditar.
E, quando uma torcida volta a acreditar, até os cartolas descobrirão que não são donos do estádio.
Talvez então o Brasil consiga enfim soltar o grito que ficou preso na garganta desde que o medo da inflação transformou a estabilização econômica em um modelo permanente de contenção do desenvolvimento, entregando o comando do jogo à lógica da financeirização.
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