21 de maio de 2026

Sem gambiarras, é hora de enfrentar a inadimplência, por Luís Nassif

O primeiro passo é definir limites para o spread bancário, valendo-se da experiência mundial em economias de mercado avançadas.
Reprodução

Economista Marco Antonio Castello Branco propõe securitização social para reduzir inadimplência das famílias brasileiras.
Proposta sugere Caixa emitir CDB-Social para quitar dívidas a juros menores, liberando R$ 580 bi para a economia.
Defende teto de juros, portabilidade automática e proibição das apostas online para conter endividamento familiar.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

No artigo “Resgate da Prosperidade”, o economista Marco Antonio Castello Branco, do Cedeplar, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) levantou, na edição de ontem, um tema central: a inadimplência das famílias brasileiras. E traz uma proposta inovadora.

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Seu diagnóstico é certeiro:

“O brasileiro médio, aquele que ganha entre três e dez salários-mínimos, sente-se como um figurante em um filme de prosperidade que ele assiste, mas não é a estrela principal. A razão é matemática e cruel: o aumento da renda foi antecipadamente confiscado pelo “triângulo das bermudas” formado por juros bancários escorchantes, o dreno das apostas online (BETs) e um sistema de crédito que viciou o consumo na antecipação do futuro”.

A lógica: A Caixa Econômica Federal emite um CDB-Social a 105% da Selic com isenção de IR, capta recursos de investidores, quita à vista as dívidas tóxicas dos inadimplentes junto a bancos privados (em ordem decrescente de juros: rotativo do cartão → cheque especial → crédito pessoal → consignado), e o devedor passa a dever à Caixa a ~15,7% ao ano. A diferença de spread — 45,2% → 15,7% — libera R$ 580 bilhões anuais para a economia real.

Pode-se discutir virtudes e fragilidades da proposta. O mais relevante é que levanta um tema que, há muito tempo, deveria merecer atenção máxima do governo.

Recentemente, o Banco Mundial soltou um estudo a respeito do super-endividamento.

Há várias maneiras de tratar o tema:

Inadimplência espontânea é a forma mais simples de alívio — o devedor simplesmente para de pagar. O custo é a exclusão do mercado de crédito formal. 

Forbearance (moratória temporária) emerge como a política com melhor custo-benefício no paper. O experimento de campo de Fiorin et al. (2023) na Índia mostra que tomadores que receberam moratória do próprio credor tornaram-se menos propensos a inadimplir e mais propensos a fazer negócios futuros com esse credor. 

Reestruturação de dívida (redução de taxa ou extensão de prazo) tem efeito duradouro sobre inadimplência quando reduz o valor presente dos pagamentos futuros — muito mais do que a simples moratória temporária. 

Perdão de dívida é onde o paper é mais pessimista. O estudo de Kanz (2016) sobre o maior programa de perdão agrícola da história indiana — equivalente a bilhões de dólares — encontrou zero efeito positivo em produtividade e investimento. Giné e Kanz (2018) mostram que o mesmo programa levou a um aumento acentuado em inadimplência subsequente sem nenhum ganho compensatório em salários ou consumo. 

Falência pessoal é apresentada como o instrumento mais eficiente nos países onde existe, pelo seu caráter baseado em regras. Nos EUA, a falência tem valor de seguro de 58% do consumo anual para o devedor marginal — essencialmente substitui a ausência de seguro-renda. 

Sem gambiarras

No fundo, programas de reestruturação de dívidas são meras gambiarras.

O caminho é óbvio e deveria ser bandeira da campanha de Lula:

1. Redução estrutural do custo do crédito

O primeiro passo é definir limites para o spread bancário, valendo-se da experiência mundial em economias de mercado avançadas.

Teto de juros por categoria de crédito, à la “usury laws” americanas ou o modelo francês de “taux d’usure”, que define trimestralmente o juro máximo por produto. No Brasil, a tentativa mais relevante foi o teto do rotativo do cartão (lei de 2024), ainda em disputa regulatória.

Portabilidade acelerada e open banking real. A Resolução CMN 5.057/2022 criou a infraestrutura, mas a portabilidade ainda enfrenta fricções operacionais que os bancos têm incentivo para manter. Forçar a portabilidade automática com prazo de 5 dias úteis — como já funciona em telecomunicações — aumentaria a competição por taxa.

Fortalecimento das cooperativas de crédito e fintechs. O Sicredi e o Sicoob já oferecem crédito a 30-40% menos do que bancos comerciais aos seus cooperados. Ampliar o acesso à cooperativas e reduzir barreiras regulatórias para fintechs de crédito (que hoje pagam o mesmo compulsório dos bancos) é uma alavanca subutilizada.

Mediação obrigatória pré-judicial para dívidas de PMEs. Países como Portugal e Espanha criaram, pós-2008, sistemas extrajudiciais de recuperação de empresas (o SIREVE português e o SAREB espanhol) que permitem renegociação rápida sem custo de falência. No Brasil, a recuperação judicial ainda é cara, lenta e acessível apenas a empresas médias e grandes.

Securitização social via banco público, que é exatamente o PNSS proposto por Castello Branco. A variante mais conservadora seria fazê-lo em menor escala, começando por regiões ou faixas de renda específicas, para testar a operação antes de uma operação nacional.

Principalmente: proibir definitivamente as bets. Além de intrinsicamente ligadas ao crime organizado, têm sido o principal motor do endividamento familiar.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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5 Comentários
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  1. Aurelio Medina Dubois

    3 de abril de 2026 10:49 am

    Luis Nassif
    Parabéns pela oportunidade e relevância do tema abordado, além da riqueza de informações sobre o assunto.

    Oitenta por cento (80%) dos brasileiros tem dívidas, principalmente com juros de agiotas “legalizados”. Este é o potencial de cidadãos que podem ser beneficiados por uma política pública estruturante e civilizatória como proposta em seu texto.

    Esta mudança política tem muito mais ganho ($$) que os R$ 25 bilhões envolvidos no recente aumento do limite de isenção do IRPF, de 2 salários mínimos (R$ 3.242) para R$ 5.000, pouco mais de 3 s.m..

    Como citado acima, a redução do spread bancário (45,2 para 15,7%), num eventual programa social a ser gerido pela CEF, tem o potencial de liberar R$ 580 BILHÕES para os cidadãos que mais precisam desta renda extra em suas vidas.

    É quase 50% a mais que os R$ 400 bilhões que Lula apregoa estar usando atualmente em todos os seus programas sociais.

    É fundamental que o governo Lula 3.0 incorpore este assunto na atual campanha eleitoral, pela importância dos benefícios à população de menor renda, podendo inclusive beneficiar muitos “pobres de direita”, segmento social tradicionalmente refratário ao seu governo.

  2. J. Alberto

    4 de abril de 2026 3:08 am

    Prezado Nassif,
    muito obrigado por compartilhar essas boas ideias. Quanto a reduzir spread e juros ao consumidor, só receio que isso não aconteça do jeito errado, como na década passada…
    Se não for pedir muito, gostaria de que abordasse as denúncias de defasagem de preço da Petrobras. Leigo que sou, verifiquei que os resultados da Petrobras estão ótimos. Logo, penso que seria importante esclarecer onde se encontra o preço de custo do combustível brasileiro em relação ao preço internacional – que você, Nassif, já explicou brilhantemente em outro artigo que não é o mesmo dos grandes contratos mundiais, que fornecem descontos generosos -, e em relação aos próprios resultados da Petrobras também.

  3. Claudiney Lopes

    4 de abril de 2026 12:56 pm

    Pois é os grandes pegam empréstimos a.juros pequenos mais emprestam bilhões de reais dão recuperação extrajudicial e judicial mesmo assim dão calote.O pequeno que tem uma dívida entre 10 e 20 mil não tem nada disso.Deixam a dívida rolar para 50 para processar

  4. jose machado

    4 de abril de 2026 3:02 pm

    Nassif, o Etanol é derivado de Petróleo?

    Isso é uma pergunta da Esfinge-de-Tebas: Decifra-me ou te devoro.

    Aqui no Brasil é sim. O Etanol é derivado de Petróleo, sim. Subiu o preço da gasolina
    sobe o preço do Etanol instantaneamente.

    É praticamente indexado ao preço da gasolina. Você sabe a razão, até agora não consegui
    compreender como é o controle do preço do Etanol nas bombas de combustíveis.

  5. Evandro Condé

    4 de abril de 2026 6:50 pm

    E eu preocupado com a recuperação judicial de Pão de Açúcar e da Raízen. Algo de errado ( ou ruim ) está acontecendo.

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