Covid-19 – No ritmo atual, o país irá contabilizar 21,9 milhões de casos e 613 mil mortes até 31/10, por Felipe A. P. L. Costa

Levando em conta as estatísticas obtidas no fim da noite de ontem (26/9), eis um balanço da situação mundial.

Covid-19 – No ritmo atual, o país irá contabilizar 21,9 milhões de casos e 613 mil mortes até 31/10

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas mundiais a respeito da pandemia da Covid-19 divulgadas em artigo anterior (aqui). No caso específico do Brasil, o artigo também atualiza os valores das taxas de crescimento (casos e mortes). Entre 20 e 26/9, essas taxas ficaram em 0,0753% (casos) e 0,0890% (mortes). Neste ritmo, o país irá contabilizar 21.921.869 casos e 613.247 mortes até o último domingo de outubro (31/10). Os números serão menores se as taxas tornarem a adotar uma trajetória declinante – o rumo mais provável, a julgar pela continuidade da vacinação e das medidas preventivas. Com taxas médias de 0,05%, por exemplo, o país teria menos 192.948 casos e menos 8.310 mortes até o último domingo de outubro.

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1. UM BALANÇO DA SITUAÇÃO MUNDIAL.

Levando em conta as estatísticas obtidas no fim da noite de ontem (26/9) [1], eis um balanço da situação mundial.

(A) Em números absolutos, os 20 países [2] mais afetados estão a concentrar agora 77% dos casos (de um total de 231.779.483) e 76% das mortes (de um total de 4.747.101) [3].

(B) Entre esses 20 países, a taxa de letalidade caiu de 2,1% para 2%. A taxa brasileira segue em 2,8%. (Outros dois países da América do Sul que seguem no topo da lista têm as seguintes taxas: Argentina, 2,2%; e Colômbia, 2,5%.)

(C) Nesses 20 países, receberam alta 159 milhões de indivíduos, o que corresponde a 90% dos casos. Em escala global, 209 milhões de indivíduos já receberam alta [4].

2. O RITMO ATUAL DA PANDEMIA NO PAÍS.

Ontem (26/9), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados em todo o país mais 8.668 casos e 243 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 21.351.972 casos e 594.443 mortes [5].

Nas duas últimas semanas, porém, barbeiragens e desarranjos metodológicos tornaram a dificultar as análises. O que, em última análise, atrapalha o monitoramento da pandemia.

Para fins de registro, portanto, caberia dizer apenas o seguinte.

Na semana encerrada ontem (20-26/9), foram registrados 112.189 novos casos – contra 240.004 (13-19/9) e 109.000 (6-12/9) nas duas semanas anteriores.

E foram registradas 3.691 mortes – contra 3.901 (13-19/9) e 3.223 (6-12/9) nas duas semanas anteriores.

3. TAXAS DE CRESCIMENTO.

Os percentuais e os números absolutos referidos acima ajudam a descrever a situação. Mas eles pouco ou nada informam sobre o ritmo e o rumo da pandemia [6]. Para tanto, sigo a usar as taxas de crescimento no número de casos e de mortes.

Vejamos o que pode ser dito sobre os resultados mais recentes.

Após uma semana de turbulências nas estatísticas (13-19/9), as médias da semana passada (20-26/9) voltaram ao patamar da semana 6-12/9 (ver a figura que acompanha este artigo).

A taxa de crescimento no número de casos está agora em 0,0753% (20-26/9) – um acréscimo de 0,001% (um milésimo de 1%) em relação ao valor de 6-12/9 [7].

A taxa de crescimento no número de mortes, por sua vez, está em 0,0890% (20-26/9) – 0,01% (um centésimo de 1%) acima do que estava em 6-12/9 [7, 8].

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6/2020 e 26/9/2021. (Valores acima de 2% não são mostrados.) Uma primeira sucessão prolongada de médias baixas nas duas séries (casos e mortes) foi observada entre 11/10 e 8/11, razão pela qual o período é referido aqui como o melhor mês. Logo em seguida, porém, note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e mudaram de rumo. E note como o apagão que houve na divulgação das estatísticas, na segunda quinzena de dezembro, rebaixou artificialmente as duas trajetórias. A campanha de vacinação teve início em 17/1. Os percentuais em azul escuro (1%, 10% etc.) ao longo do eixo horizontal indicam a parcela da população brasileira vacinada com ao menos uma dose [9]. Teríamos atingindo ontem (26/9) os 70%. A chamada CPI da Covid foi oficialmente instalada em 27/4.

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4. O DESCARREGO DE SETEMBRO.

As taxas de crescimento estavam em queda desde meados de junho (ver aqui), quando o país chegou a 20% da população vacinada com ao menos uma dose. Veio o ‘descarrego de setembro’ (ver a figura que acompanha este artigo) e turvou as estatísticas. As análises ficaram prejudicadas.

Mas não custa repetir o que foi dito em artigos anteriores: A tendência declinante não é definitiva nem irreversível. Entre as medidas que podem reverter tal tendência, eu citaria três: (i) suspender ou afrouxar (ainda mais) as barreiras sanitárias impostas em aeroportos; (ii) suspender ou afrouxar (ainda mais) as medidas sanitárias internas (e.g., permitir grandes aglomerações e tornar facultativo o uso de máscara); e (iii) atrasar (ainda mais) a campanha de vacinação [11].

Preocupa constatar que a campanha de vacinação tornou a arrefecer ao longo de setembro. Para ir de 50% a 60% da população vacinada com ao menos uma dose, por exemplo, levamos 21 dias (3-24/8). Mas precisamos de 33 dias (24/8-26/9) para ir de 60% a 70%.

Não custa repetir: Quanto mais gente a circular ou quanto mais lenta for a vacinação, maior será o número de mortes. E mais: maiores serão as chances de que surjam variantes ainda mais infecciosas ou letais.

5. CODA.

No ritmo atual, o país irá contabilizar 21.921.869 casos e 613.247 mortes até 31/10.

Os números serão menores se as taxas tornarem a adotar uma trajetória declinante – o rumo mais provável, a julgar pela continuidade da vacinação e das medidas preventivas. Em artigo anterior (ver aqui), previ que as taxas de crescimento deveriam chegar ao final de setembro em um patamar em torno de 0,05%. Neste ritmo, em vez dos números citados acima, o país iria contabilizar 21.728.920 casos e 604.937 mortes – i.e., menos 192.948 casos e menos 8.310 mortes até o último domingo de outubro.

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NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização em curso envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Vale notar que certos países atualizam suas estatísticas uma única vez ao longo do dia; outros atualizam duas vezes ou mais; e há uns poucos que estão a fazê-lo de modo mais ou menos errático. Acompanho as estatísticas mundiais em dois painéis, Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA) e Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em seis grupos: (a) Entre 42 e 44 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 32 e 34 milhões – Índia; (c) Entre 20 e 22 milhões – Brasil; (d) Entre 6 e 8 milhões – Reino Unido, Rússia, França e Turquia; (e) Entre 4 e 6 milhões – Irã, Argentina, Colômbia, Espanha, Itália, Indonésia e Alemanha; e (f) Entre 2 e 4 milhões – México, Polônia, África do Sul, Ucrânia, Filipinas e Malásia.

Um balanço mais recente. Olhando apenas para as estatísticas (casos e mortes) das últimas quatro semanas, eis como está  a situação mundial: (i) em números absolutos, os EUA seguem sendo o país com o maior número de novos casos (4,05 milhões nas últimas quatro semanas); (ii) a lista dos cinco primeiros tem ainda os seguintes países: Índia (958 mil casos), Reino Unido (937 mil), Turquia (684 mil) e Irã (624 mil). O Brasil é o sexto, agora com 615 mil; (iii) a lista dos países com mais mortes segue sendo encabeçada pelos EUA (50 mil); em seguida aparecem Rússia (21,8 mil), México (16,8 mil), Brasil (15,2 mil) e Irã (13,2 mil); (iv) apesar do ingresso da Malásia no grupo dos 20 países mais afetados, as escaladas nas estatísticas em países do sudeste asiático arrefeceram; e (v) um novo surto de barbeiragens metodológicas inflou as estatísticas brasileiras  (sobretudo o número de casos novos) relativas às duas últimas semanas (para detalhes, ver texto principal).

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver qualquer um dos três primeiros volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

[4] Como comentei em ocasiões anteriores, fui levado a promover a seguinte mudança metodológica: as estatísticas de casos e mortes continuam a seguir o painel Mapping 2019-nCov, enquanto as de altas estão agora a seguir o painel Worldometer: Coronavirus.

[5] Compare estes números com os dois cenários apresentados no artigo ‘No ritmo atual, Brasil terá 21,4 milhões de casos e 599 mil mortes até 26/9’, publicado neste GGN, em 31/8.

[6] Ouso dizer que a pandemia chegará ao fim sem que uma boa parte da imprensa brasileira se dê conta de que está a monitorar a pandemia de um jeito, digamos, desfocado – além de burocrático e bastante superficial. Para capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa de crescimento – seja do número de casos, seja do número de mortes. Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, em escala mundial e nacional, ver a referência citada na nota 3.

[7] Entre 19/10/2020 e 26/9/2021, as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos: 0,43% (19-25/10), 0,40% (26/10-1/11), 0,30% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,50% (16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12), 0,68% (14-20/12), 0,48% (21-27/12), 0,47% (28/12-3/1), 0,67% (4-10/1), 0,66% (11-17/1), 0,59% (18-24/1), 0,57% (25-31/1), 0,49%(1-7/2), 0,46% (8-14/2), 0,48% (15-21/2), 0,53% (22-28/2), 0,62% (1-7/3), 0,59% (8-14/3), 0,63% (15-21/3), 0,63% (22-28/3), 0,50% (29/3-4/4), 0,54% (5-11/4), 0,48% (12-18/4), 0,4026% (19-25/4), 0,4075% (26/4-2/5), 0,4111% (3-9/5), 0,4114% (10-16/5), 0,4115% (17-23/5), 0,38% (24-30/5), 0,37% (31/5-6/6), 0,39% (7-13/6), 0,4174% (14-20/6), 0,39% (21-27/6), 0,27% (28/6-4/7), 0,2419% (5-11/7), 0,21% (12-18/7), 0,23% (19-25/7), 0,1802% (26/7-1/8), 0,1621% (2-8/8), 0,14% (9-15/8), 0,1444% (16-22/8), 0,1183% (23-29/8), 0,1023% (30/8-5/9), 0,0744% (6-12/9), 0,1625% (13-19/9) e 0,0753% (20-26/9); e (2) mortes: 0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29% (16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12), 0,42% (14-20/12), 0,33% (21-27/12), 0,36% (28/12-3/1), 0,51% (4-10/1), 0,47% (11-17/1), 0,48% (18-24/1), 0,48% (25-31/1), 0,44%(1-7/2), 0,47% (8-14/2), 0,43% (15-21/2), 0,48% (22-28/2), 0,58% (1-7/3), 0,68% (8-14/3), 0,79% (15-21/3), 0,86% (22-28/3), 0,86% (29/3-4/4), 0,91% (5-11/4), 0,80% (12-18/4), 0,66% (19-25/4), 0,60% (26/4-2/5), 0,51% (3-9/5), 0,45% (10-16/5), 0,43% (17-23/5), 0,40% (24-30/5), 0,35% (31/5-6/6), 0,4171% (7-13/6), 0,4175% (14-20/6), 0,33% (21-27/6), 0,30% (28/6-4/7), 0,23% (5-11/7), 0,23% (12-18/7), 0,20% (19-25/7), 0,1785% (26/7-1/8), 0,1613% (2-8/8), 0,1492% (9-15/8), 0,1367% (16-22/8), 0,1185% (23-29/8), 0,1062% (30/8-5/9), 0,07870% (6-12/9), 0,0947% (13-19/9) e 0,0890% (20-26/9).

Não custa lembrar: Os valores acima são as médias semanais de uma taxa que, por razões metodológicas, está a oscilar ao longo da semana. Para fins de monitoramento, é importante ficar de olho nas taxas de crescimento (casos e mortes), não em valores absolutos. Considere uma taxa de crescimento de 0,5%. Se o total de casos no dia 1 está em 100.000, no dia 2 estará em 100.500 (= 100.000 x 1,005) e no dia 8 (sete dias depois), em 103.553 (= 100.000 x 1,0057; um acréscimo de 3.553 casos em relação ao dia 1); se o total no dia 1 está em 4.000.000, no dia 2 estará em 4.020.000 e no dia 8, em 4.142.118 (acréscimo de 142.118); se o no dia 1 o total está em 10.000.000, no dia 2 estará em 10.050.000 e no dia 8, em 10.355.294 (acréscimo de 355.294). Como se vê, embora os valores absolutos dos acréscimos referidos acima sejam muito desiguais (3.553, 142.118 e 355.294), todos equivalem ao mesmo percentual de aumento (~3,55%) em relação aos respectivos valores iniciais.

[8] Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver referência citada na nota 3.

[9] Fonte: ‘Coronavirus (COVID-19) Vaccinations’ (Our World in Data, Oxford, Inglaterra).

[10] Como escrevi em ocasiões anteriores, uma saída rápida para a crise (minimizando o número de novos casos e, sobretudo, o de mortes) dependeria de dois fatores: (i) a adoção de medidas efetivas de proteção e confinamento; e (ii) uma massiva e acelerada campanha de vacinação.

Como também escrevi anteriormente, os efeitos da vacinação só seriam percebidos – na melhor das hipóteses – quando mais da metade dos brasileiros tivesse sido vacinada. (O que só será possível agora no segundo semestre.) De resto, devemos continuar tomando cuidado com as armadilhas mentais que cercam a campanha de vacinação. Três das quais seriam as seguintes: (1) a imunização individual não é instantânea nem nos livra de continuar adotando as medidas de proteção social (e.g., distanciamento espacial e uso de máscara); (2) a imunização coletiva só será alcançada depois que a maioria (> 75%) da população tiver sido vacinada; e (3) a população brasileira é grande, de sorte que a campanha irá demorar vários meses (mais de um ano, talvez).

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