Na CPI, vendedor confirma propina no governo Bolsonaro: “se não majorasse a vacina, não teria aquisição do Ministério”

Lobista diz que Elcio Franco abaixou a cabeça e saiu da sala ao saber que a vacina havia sido negociada em um jantar em Brasília por Roberto Dias, seu subordinado

Foto: Pedro França/Agência Senado

Por Tatiane Correia e Cintia Alves

Jornal GGN – O policial militar de Minas Gerais, Luiz Paulo Dominguetti, representante comercial da Davati Medical Supply, confirmou à CPI da Covid no Senado, na manhã desta quinta (1/7), que recebeu um pedido de pagamento de propina por parte de um membro do governo Bolsonaro. Segundo ele, a proposta partiu do ex-diretor do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, subordinado de Elcio Franco, ex-secretário-executivo da Pasta.

“O pedido dessa majoração foi exclusivamente do senhor Roberto Dias. Foi US$ 1 por dose”, disse Dominguetti à CPI da Pandemia. “A primeira proposta foi de US$ 3,50 – com a Davati ofertando ao Ministério da Saúde 400 milhões de doses [da Astrazeneca]”, disse. Com a propina, o valor da vacina sairia a US$ 4,50/dose.

Segundo o vendedor, o suborno foi cobrado durante um jantar em Brasília, em fevereiro, do qual participou, além de Dias, o tenente-coronel Marcelo Blanco, que foi quem abriu as portas do Ministério.

Dominguetti rejeitou a proposta e deixou os anfitriões “surpresos”. Na saída, “me disseram que eu pensasse direitinho, que no dia seguinte eu seria chamado no Ministério. Esperavam que eu apresentasse a nova proposta, de 4,50, mas eu apresentei a de 3,50.”

Após jantar “infrutífero”, Dominguetti conseguiu uma agenda com Elcio Franco, então secretário-executivo da Pasta e superior de Roberto Dias. “O que nos espantou é que era uma proposta de 400 milhões de doses ao Ministério da Saúde, e o Franco não tinha conhecimento da proposta. Ou seja, o Dias não tinha avançado com a apresentação. O senhor Elcio Franco me perguntou onde eu estive, com quem eu havia deixado essa proposta. Eu disse que com o senhor Roberto Dias. Houve uma troca de olhares. Ele abaixou a cabeça, simplesmente saiu. Pediu para que dois estagiários pegassem nossos nomes, que ele entraria em contato, que iria validar a proposta da Davati”, disse Dominguetti.

Segundo ele, Roberto Dias, no começo das tratativas, parecia entusiasmado com a oferta de 400 milhões de doses da vacina da Astrazeneca. Mas após a negativa em relação à propina, sequer teria levado a proposta ao seu superior, o coronel Elcio Franco. “Nunca foi buscada uma facilidade por parte do Roberto. Sempre foi colocada uma oferta justa para o Ministério. Essa facilidade não ocorreu porque ele sempre colocou entrave no sentido de que se não majorasse a vacina, não teria aquisição por parte do Ministério.”

ASTRAZENECA. Questionado sobre o baixo valor da vacina da Astrazeneca ofertado ao Brasil pela Davati (atualmente, os valores de vacinas contra Covid-19 oscilam em torno de 10 a 15 dólares/dose), Dominguetti respondeu que se deve ao “mercado externo” e explicou que a Davati possui contato com fornecedores estrangeiros que conseguem revender a vacina a “preços humanitários”. “O senhor Herman [Cardenas, presidente da companhia nos EUA] tinha acesso a locadores do mercado que eram proprietários dessa vacina. Tanto que ele, sob pena de perjúrio da proposta comercial, ofereceu ao governo brasileiro.” Ele ainda disse que a Davati teria condições, sim, de fazer a entrega. A Astrazeneca comunicou à imprensa brasileira que só vende vacinas ao governo via Fiocruz.

GANHOS. Como lobista, Dominguetti receberia da Davatti, via prolabore, entre 0,03 a 0,05 centavos de dólar por cada dose que conseguisse vender ao Ministério da Saúde. Ele disse que é militar da ativa mas entrou no ramo de “insumos” em busca de um “complemento de renda”. Apesar de ter negociado com o Ministério da Saúde em fevereiro com aval do CEO da Davati no Brasil, Cristiano Carvalho, Dominguetti só foi oficialmente incorporado como representante comercinal a partir de abril de 2021.

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