2010 é o ano da ruptura de qualquer pudor ou verniz, por João de Paiva

Quando agentes, fiscais e aplicadores da Lei se associam em ORCRIMs, a barbárie se instala

por João de Paiva

A disseminação do ódio, semente do fascismo, tem sido feita pelos chamados veículos da grande mídia comercial brasileira desde os idos de 2005, quando veio à baila a farsa do chamado “mensalão do PT”. Como já abordado por mim e por vários jornalistas, analistas e colunistas que escrevem e publicam artigos em blogs e portais progressistas, aquele episódio marcou o fim da curta e falsa ‘lua-de-mel’ entre a grande mídia, o PT, Lula e o governo liderado por este. 2010 é o ano que marca a ruptura completa de qualquer pudor ou verniz que pudesse encobrir a atuação político-partidária dos veículos da grande mídia comercial; nesse ano Judith Brito, então presidente da ANJ, confessou pùblicamente que, devido à ‘fragilidade’ da oposição política –leia-se PSDB – a imprensa assumira então o papel de oposição política ao governo petista.

As conseqüências da atuação descaradamente político-partidária da imprensa são hoje bem conhecidas e resultaram num golpe de Estado midiático-policial-judicial-parlamentar. Tendo em vista que a grande imprensa brasileira foi apoiadora, cúmplice e conivente, quando não atriz dos golpes de Estado perpetrados ao longo do século XX, a surpresa e o espanto não decorrem apenas ou principalmente dessa postura golpista dos maiores  veículos de comunicação. A principal agravante da crise atual – que não é apenas política e econômica, mas sobretudo institucional – é que na trama e execução do golpe de Estado em curso, todo o sistema de justiça (aí inclusas as polícias, o ministério público – tanto federal como nos estados – e o poder judiciário) foi cooptado e está a serviço da trama golpista, cujo alto comando sabemos ficar no exterior, em especial nos EUA.

A concentração dos meios de comunicação que são concessão pública (Rádio e TV) em número super-restrito de famílias, assim como a super-concentração de veículos impressos(jornais e revistas) em um número restrito de famílias, muitas das quais detêm a propriedade cruzada, explorando na mesma praça diferentes meios de comunicação, concomitantemente à cooptação do sistema de justiça, tornam o golpe de 2016 muito mais grave e de conseqüências até o momento imprevisíveis. O que vemos desde o episódio do chamado ‘mensalão do PT’, que resultou naquela aberração jurídica que foi o farsesco e midiático julgamento da AP-470, foi um completo desvirtuamento das instituições que compõem o chamado ‘sistema de justiça’; o respeito à Lei e ao Estado de Direito Democrático começou a morrer ali.

Em comentários e num ensaio já mostrei que as manifestações, que ficaram conhecidas como  jornadas de junho de 2013, foram as sementes do golpe de Estado lançadas em terreno fértil. A partir dali houve uma cooptação e espúria aliança – na verdade um conluio – entre os veículos da grande mídia comercial e as instituições que compõem o sistema de justiça (notadamente a PF, o MP e o PJ). A chamada operação “Lava a Jato”, cujo nome mais adequado é Fraude a Jato, deflagrada no ano seguinte, é conseqüência natural e continuidade da trama golpista, seguindo as diretrizes do alto comando internacional.

Os EUA investiram contra o projeto de desenvolvimento soberano do Brasil de olho em nossas riquezas e projetos estratégicos (Nióbio, Petróleo, Nuclear, Aero-Espacial, etc.). Como hoje em dia fica muito dispendiosa a aplicação de golpes militares clássicos e como o s EUA já possuem muitas frentes de guerra abertas no Oriente Médio, a solução adequada para aplicar os golpes de Estado na América Latina foi usar a técnica da guerra híbrida (a esse respeito sugiro que leiam e ouçam o jornalista e analista político Pepe Escobar) e desfechar nesses países o chamado ‘golpe brando’, ‘golpe branco’ ou ‘golpe suave’. A primeira aplicação da técnica se deu em Honduras; depois o golpe ‘soft’ foi aplicado no Paraguai e neste ano foi estendido ao Brasil, sempre com êxito. Na concepção e nas dissimulações do alto comando a trama dos golpes ‘brandos’ pode ser considerada sofisticada. Mas nos três países latino-americanos em que foi aplicada, o primitivismo e a canalhice dos atores locais desmascaram a trama golpista, assim que os golpes foram desfechados. No Brasil o processo foi mais lento e gradual, mas nem por isso deixou de ser percebido e denunciado pelos jornalistas independentes e pela parcela mais bem informada, atenta, crítica e observadora da população.

Uma vez que o golpe foi percebido e denunciado antes mesmo que sua consumação ocorresse, houve uma disputa para estabelecer qual das narrativas prevaleceria, se a da grande mídia comercial brasileira, que estimulou, promoveu e atuou em prol do golpe ou se a dos blogs e portais independentes e progressistas, que sempre defenderam o governo legítimo da presidenta Dilma Rousseff e o Estado de Direito Democrático. Veículos da mídia internacional a princípio reproduziam o que o PIG/PPV brasileiro publicava; mas com a instauração do processo de ‘golpeachment’ (um golpe de Estado midiático-policial-judicial-parlamentar travestido de impeachment, simulando legalidade e institucionalidade que jamais possuiu), repórteres e correspondentes foram enviados ao Brasil e passaram a acompanhar o que acontecia e nosso País.

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Em poucas semanas todo o castelo de cartas do PIG/PPB brasileiro foi posto abaixo e os jornais, revistas, emissoras de Rádio e TV mais influentes do mundo (como o New York Times, The Guardian, Der Spiegel, BBC, El País, Le Monde, etc.) chamaram o golpe por aquilo que é: um golpe de Estado, a ruptura com o Estado de Direito Democrático. O jornalista estadunidense, radicado no Brasil, Glenn Greenwald e o portal de notícias que dirige, The Intercept, teve papel importantíssimo na construção da narrativa verdadeira sobre o golpe, em âmbito internacional. Com sua credibilidade e reconhecimento, Glenn Greenwald denunciou a trama golpista, mostrando ao mundo que uma presidenta honesta estava sendo deposta por um parlamento cuja câmara baixa, composta por bandidos, era chefiada por um bandido, Eduardo Cunha. Por sua decidida tomada de posição, Glenn Grenwald chegou a sofrer ameaças; o jornal O Estado de São Paulo, em editorial, chegou a pedir a restrição da atuação do jornalista no Brasil; a ANJ, que defende os interesses corporativos do PIG/PPV, quer impedir a atuação de jornalistas estrangeiros em veículos de mídia, como é o caso de Glenn Greenwald e seu portal Intercept.

A publicação de livros destrinchando e mostrando as entranhas da trama golpista,antes mesmo da consumação, de que são exemplo “Golpe 16”, que reúne artigos de jornalistas e analistas independentes e progressistas, “A radiografia do golpe”, do professor e sociólogo Jessé Souza, “A outra história da Lava a Jato”, do jornalista Paulo Moreira Leite, contribuiu de forma decisiva para criar uma massa crítica de resistência e combate ao golpe. Assim, para se consolidar, os atores do golpe têm de apelar cada vez mais para medidas repressivas e atentatórias contra os direitos dos cidadãos, contra os movimentos sociais e contra os partidos de Esquerda. É isso que temos visto desde que as quadrilhas políticas, sobretudo do PMDB e do PSDB, tomaram o poder executivo federal. A nomeação de ministros truculentos, machistas, misóginos, investigados ou réus em processos penais por corrupção, velhos e brancos, está em sintonia com o viés autoritário, corrupto e violento do governo ilegítimo que usurpou o poder após o ‘golpeachment’.

A presença de figuras como o general Sérgio Etchegoyen no recriado SNI – tucanamente alcunhado de GSI, Gabinete de Segurança Institucional – , o grotesco e truculento Alexandre de Moraes no Ministério da Justiça, Raul Jungman no Ministério da Defesa (área da qual não entende absolutamente nada), Eliseu Padilha, para a Casa Civil, Geddel Vieiral Vieira Lima, para Secretaria de Governo, além de incompetentes e corruptos notórios como Mendonça Filho na Educação e Ronaldo de Barros na Saúde, mostram que a má-fé e a violência repressiva estão no DNA do governo usurpador. Um governo composto por figuras como as citadas, com uma pauta ultra neoliberal, privatista e entreguista, que se põe a demolir todo o estado de bem-estar social duramente construído ao longo de 12 anos por Lula e Dilma, só pode se sustentar pela força, pela violência, pela repressão. A peculiaridade do Estado Fascista de Exceção, já em vigor e predecessor da ditadura fascista que em breve se consolidará no Brasil, é que a repressão agora está sendo exercida não pelo Exército e outras Forças Armadas Federais, mas pelas polícias (federal, militares e civis dos estados e distrito federal), pelo ministério público (tanto da União, como dos estados e do distrito federal) e pelo poder judiciário (tanto federal como nos estados).

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O aspecto mais grave do golpe de Estado de 2016, ainda em curso, é o fato de que o conluio do sistema de justiça com o PIG/PPV com outros atores golpistas levou vários agentes desse sistema de justiça a atuarem de forma criminosa, à margem da Lei. Salta aos olhos e parece evidente ao cidadão bem informado, atento e observador que instituições como as Polícias, o Ministério Público e o Poder Judiciário estão eivados de ORCRIMs institucionais. A atuação descaradamente partidária da Fraude a Jato, que persegue e incrimina líderes políticos da Esquerda e ao mesmo tempo blinda e protege líderes políticos do PSDB permite inferir que os integrantes dessa força-tarefa constituem, na verdade, uma organização criminosa composta por profissionais dessas instituições. Repórteres investigativos como Marcelo Auler e Luís Nassif produziram reportagens com denúncias provadas de práticas de ilegalidades criminosas por parte de delegados da SR/DPF/PR. O juiz federal Sérgio moro, responsável por conduzir e julgar a maioria dos processos da Fraude a Jato, tem cometido crimes de forma continuada (prisão preventiva por tempo indeterminado e coação de presos, para forçá-los a delatar o que e quem ele, os delegados e procuradores desejam, tortura psicológica e física contra esses presos – como denunciou Delcídio do Amaral – gravação de conversa entre cliente e advogado, violação do sigilo telefônico de escritórios de advocacia, interceptação e divulgação de conversa telefônica entre a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, cerceamento da defesa dos investigados, impedindo que estes possam produzir provas que demonstrem sua inocência, vazamentos de informações aos veículos do PIG/PPV sobre investigações processos que deveriam ficar em sigilo, assassinato de reputação ao expor pessoas investigadas ao linchamento, mesmo antes de serem julgadas). Não apenas o juiz Sérgio Moro, mas delegados da PF e procuradores do MP, os quais integram a Fraude a Jato, têm cometido os crimes listados, além de outros que não citei.

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O TRF4 coonestou os crimes do juiz Sérgio Moro e o STF se omitiu, sendo conivente com tais crimes. Essas ações criminosas de desembargadores e ministros do STF (afinal se um juiz de tribunal superior coonesta uma ação criminosa de juiz de primeiro grau, também ele está cometendo um crime) abriu a porteira, para que juízes e procuradores pudessem soltar os ‘demônios’ que guardavam consigo. As recentes decisões de dois juízes, Glaucenir Oliveira, Marcelo Bretas e do próprio Sérgio Moro, decretando a prisão dos ex-governadores do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral Filho, mostram que o Estado de Exceção ràpidamente caminha para uma ditadura do Judiciário. Os Direitos do cidadão são vilipendiados, desrespeitados, as pessoas são submetidas a linchamentos e condenação prévia nos veículos de mídia, o direito de defesa é cerceado e a população, manipulada e envenenada pelo ódio nazifascistóide disseminado pelos veículos de mídia, assiste ao espetáculo de suplício, como se estivéssemos na era medieval. A ação dos jornalistas independentes foi rápida e no dia seguinte à prisão de Anthony Garotinho, os leitores puderam conhecer a ficha corrida de Glaucenir e os abusos e crimes cometidos por esse juiz; foi possível saber, também, que o DPF que pediu e executou a prisão de Garotinho é aliado político de um adversário do ex-governador, na cidade de campos dos Goytacazes, no norte fluminense, reduto político de Garotinho e esposa. É fundamental relembrar que Garotinho é considerado inimigo mortal da TV Globo, a quem denunciou por sonegação fiscal, usando microfones e câmeras da própria emissora. No afã de se vingar do ex-governador, a PF e a emissora dos Marinho cometeram outro crime, ao grampear e divulgar a conversa entre Garotinho e seus advogados, visando desqualificar a decisão da juíza e ministra do TSE, Luciana Lóssio, que reformou a decisão do juiz Glaucenir, determinando que Garotinho permaneça em prisão domiciliar. Com problemas cardíacos, Garotinho sofreu princípio de obstrução de uma artéria e foi submetido a cateterismo e colocação de um stent.

Sérgio Cabral Filho também foi linchado pela mídia, que usou imagens dele de cabeça raspada e uniforme de presidiário,divulgadas pela polícia.

Não tenho nenhum apreço ou simpatia pelos ex-governadores fluminenses e presumo que sejam culpados de alguns dos crimes de que são acusados, mas como cidadãos eles têm o direito à presunção de inocência – como estabelece a CF/1988 em seu Art. 5º – e ao exercício de ampla defesa. Os veículos de mídia, os profissionais da PF(e outras polícias que atuaram nesses casos) e os juízes Sérgio Moro e Glaucenir Oliveira cometeram crime e devem ser punidos por isso.

Como disse Ruy Barbosa: “a pior ditadura é a do judiciário”.

João de Paiva Andrade

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4 comentários

  1. “Em comentários e num ensaio

    “Em comentários e num ensaio já mostrei que as manifestações, que ficaram conhecidas como  jornadas de junho de 2013, foram as sementes do golpe de Estado lançadas em terreno fértil.”

    Gilmar Mendes falou que começou em Junho de 2013, Cunha falou, e os “Troskos” vão continuar negando que foram ELES que começaram com o golpe !!!

  2. A esquerda precisa chegar a um consenso sobre o impeachment

     

    João de Paiva Andrade,

    Muito bom. O final principalmente com a sua defesa de se dar tratamento digno e de inocente até prova em contrário a Sérgio Cabral e a Antony Garotinho empolgou-me bastante. Apesar de saber da injustiça que é a justiça brasileira, ela faz parte das três instituições brasileiras – Poder Judiciário, Poder Legislativo e Poder Executivo – que só são instituição se todas três são ao mesmo tempo.

    Um dos fundamentos do Poder Judiciário é a sentença transitado em julgado que dá suporte ao princípio da inocência. Se alguém diz acreditar nas instituições, mas acusa outrem seja lá do que for sem que haja o trânsito em julgado da sentença, a crença desse alguém é falsa. Aliás recrimino nos seus textos certas acusações que você faz principalmente as autoridades sem que haja contra elas uma sentença transitado em julgado.

    Ao longo desta minha exposição, eu não vou falar explicitamente do título que eu escolhi para o encimar como uma espécie de epígrafe este meu comentário. A título de esclarecimento deixo consignado então que o que eu quero dizer com o título é que a esquerda precisa chegar a um consenso sobre o processo de impeachment, suas causas, suas consequências, para que o próprio impeachment possa servir de vacina contra situações semelhantes no futuro, por mais distante que o futuro possa parecer agora. Nesse sentido todas as análises são bem vindas. Há que reconhecer, entretanto, que mas muitas vezes salta aos olhos a inconsistência delas.

    Eu tenho minhas discordâncias com você que vou resumir não com palavras, até porque não tenho o poder de concisão para fazer resumos, mas com links. Eles serão apresentados até o fim do comentário, mas haverá pausa também para uma ou duas frases ao meu feitio, isto é, mais prolixas.

    Uma discordância que eu quero apresentar em palavras e serei breve é em relação à participação dos Estados Unidos no que acontece no Brasil. E minha discordância só cresce quando você dá como exemplo Honduras e Paraguai. Aqueles países ainda são piores que o Brasil na questão de desigualdade. E em um nível de riqueza bem inferior a nossa. A medida que os países vão ficando menos pobres a desigualdade aumenta. Só lá à frente quando já se é um país rico é que volta a haver uma melhora na distribuição de renda. Para mim então o impeachment aqui, no Paraguai e em Honduras foi construído pelo grupo dominante atendendo interesses próprios desse grupo dominante dentro do país. São grupos que não tem o poder de voto, mas tem o poder de domínio. E um domínio tal que eles não precisam de força alienígena.

    E volto agora para os links. O primeiro é para comentário meu enviado quarta-feira, 29/06/2016 às 00:18, para você em comentário seu enviado segunda-feira, 27/06/2016 às 23:36, junto ao post “O que os leitores querem: um jornalismo isento ou um espelho daquilo que pensam?” de segunda-feira, 27/06/2016 às 23:03, aqui no blog de Luis Nassif com a transcrição do artigo “Isenção ou identificação?” de Alexandre Marini e que fora publicado no Observatório da Imprensa. O link para o post “O que os leitores querem: um jornalismo isento ou um espelho daquilo que pensam?” onde está meu comentário para você é o seguinte:

    http://jornalggn.com.br/noticia/o-que-os-leitores-querem-um-jornalismo-isento-ou-um-espelho-daquilo-que-pensam

    O segundo link é para o post “O Xadrez dos movimentos radicais de uma democracia incompleta” de quinta-feira, 11/08/2016 às 08:54, aqui no blog de Luis Nassif e de autoria dele dentro da série do Xadrez e que pode ser visto no seguinte endereço:

    http://jornalggn.com.br/noticia/o-xadrez-dos-movimentos-radicais-de-uma-democracia-incompleta

    Lá no post “O Xadrez dos movimentos radicais de uma democracia incompleta” eu enviei quinta-feira, 11/08/2016 às 22:14, um comentário para Luis Nassif. Há muitos erros no meu comentário, mas mais de ortografia ou gramática. Por exemplo, utilizar defensores em vez de perdedores na frase a seguir em que já transcrevo corrigida:

    “Felizmente houve alguns nos comentários que se procuraram por dos lados dos defensores e chegaram a apontar com sentido crítico algumas frases que constam deste seu post e que são mais próprias dos vencedores, mas foram poucos.”

    E na frase a seguir faço a correção substituindo queria por quisesse e ponho um acento diferencial em “fôra” do verbo ser (Penso que os acentos diferenciais deveriam ser facultativos):

    “Então não tinha dúvida que a afirmação que ela e o Luis Fraga pinçaram fôra de sua autoria. O título do post de Ana S. não me parecera apropriado. A não ser que ela quisesse dizer que os vencedores serão recebidos por ela com batatas.”

    E substituo continuaram por continuarão na frase a seguir:

    “Talvez se a presidenta Dilma Rousseff tiver só vinte votos contra o impeachment que do total representaria menos de 25%, os críticos continuarão acusando-a de não ter feito e de não ter acontecido”.

    Há mais, mas paro aqui. O que queria dizer é que, mesmo com erros, você fez, em comentário junto ao meu, uma boa avaliação do meu, mas discordando da pouca importância que eu dou ao papel que coube ao poder judiciário e à grande mídia na deflagração e consecução do impeachment. Em comentário enviado terça-feira, 16/08/2016 às 02:29, eu respondi ao seu comentário enviado sexta-feira, 12/08/2016 às 10:34. Em meu comentário, eu procurei mostrar que, embora soubesse a importância da mídia e do judiciário no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, eu entendia que a mídia não faz opinião, ela acompanha a opinião da maioria e o Poder Judiciário apenas apara arestas.

    Fui bem exaustivo nos motivos que me fazem descrer da importância da mídia. E também respondo a sua crítica a minha depreciação do poder judiciário, no sentido de ser um poder pode parecer poder muito, mas que se recusa a poder muito, ou seja, respondo a sua crítica a minha argumentação de que o poder judiciário é um poder muito pequeno no que diz respeito aos seus efeitos na economia. Recentemente lancei a afirmação de que o poder judiciário tem em geral pouco poder e em casos específicos em que poderia apresentar um poder imenso – menciono como exemplo a decisão sobre o confisco do Plano Collor – ele declina desse poder. Posso, mas não devo, pois não é meu esse poder: assim parece querer dizer o Judiciário que mesmo tentando esconder acaba deixando transparecer que esse é o lema de conduta desse poder.

    Fui movido a comentar este seu post “2010 é o ano da ruptura de qualquer pudor ou verniz, por João de Paiva” de quarta-feira, 24/11/2016 às 15:56, aqui no blog de Luis Nassif não só porque se trata de você, mas também pela sua primeira frase em que você diz:

    “A disseminação do ódio, semente do fascismo, tem sido feita pelos chamados veículos da grande mídia comercial brasileira desde os idos de 2005, quando veio à baila a farsa do chamado “mensalão do PT””

    Eu avalio que a semente do fascismo permeia todas as sociedades ainda no estágio de barbárie. E não creio que haja no mundo alguma sociedade que tenha saído da barbárie. Não precisa da mídia para dissiminar o fascismo. Sua afirmação, dando entender que a mídia é veículo que propaga a semente do fascismo, faz-me lembrar do Aforismo XLVI do “Novum Organum” de Francis Bacom e que eu vi pela primeira vez junto ao post “Ética, Heiddeger e Woody Allen” de terça-feira, 04/02/2014 às 15:18, em sugestão de Marco St. para texto de Flávio Paranhos médico e filósofo publicado na Revista Bula e intitulado “Woody Allen e Heidegger: Morte aos monstros!”. O link para o post “Ética, Heiddeger e Woody Allen” é

    https://jornalggn.com.br/noticia/etica-heiddeger-e-woody-allen

    E o Aforismo XLVI do “Novum Organum” de Francis Bacom é o que se segue:

    “O intelecto humano, quando assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo.”

    E que leva também a uma frase na canção “The Boxer” de Paul Simon em que ele diz:

    “It isn’t strange,

    After changes upon changes, we are more or less the same.”

    Tudo isso para dizer que você, assim como a grande mídia não convence ninguém. A grande mídia pode propagar a semente do fascismo, mas é um propagar enganoso à medida que a grande mídia leva o fascismo aonde ele já existe. E eu me igualo a você e a grande mídia nesse poder de convencimento. Eu também não convenço ninguém.

    Desde o final de 2013, eu venho alertando para o resultado diferencial que surgiu do julgamento da Ação Penal 470, no que diz respeito ao entendimento do crime de corrupção e do crime de caixa dois quando funcionário público tem na sua esfera de competência um poder muito grande. Alteração benéfica para o país na medida que foi mais rigorosa no combate a corrupção.

    O meu alerta vem de há muito, mais exatamente, desde o momento em que o professor de filosofia, Joao Vergilio Gallerani Cuter, também conhecido como Jotave ou JV, antes mais frequente nesse blog, provavelmente alertado por colegas dele, professores de direito na USP, fez menção a declaração de voto de Enrique Ricardo Lewandowsky, então revisor da Ação Penal 470, em uma exposição proferida na sessão de 20/09/2012, no julgamento da Ação Penal 470 no STF.

    Toda a longa exposição é extremamente instrutiva para o entendimento do julgamento e toda ela pode ser vista em vídeo. O endereço do vídeo com a declaração do voto do ministro Enrique Ricardo Lewandowski proferido na sessão de 20/09/2012 é:

    http://www.youtube.com/watch?v=m6uyOzTG2T8

    Muitas, desde então, têm sido as minhas indicações dessa declaração de voto. No entanto, entre os frequentadores do blog, eu nunca vi um que tenha mudado de opinião a respeito dos novos efeitos do julgamento da Ação Penal 470, relativamente ao crime de corrupção tanto passiva como ativa. Poucos se manifestaram e mais recentemente duas manifestações me chamaram a atenção.

     Uma manifestação que me chamou atenção foi a de JB Costa em comentário enviado domingo, 22/05/2016 às 15:43, junto a comentário meu enviado sábado, 21/05/2016 às 21:21, lá no post “Aragão acredita em inteligência clandestina por trás da queda de Dilma” de sábado, 21/05/2016 às 11:29, com o vídeo de exposição do Ministro Aragão, em vídeo que fora postado no Blog VioMundo de Luiz Carlos Azenha. O endereço do post “Aragão acredita em inteligência clandestina por trás da queda de Dilma” é:

    http://jornalggn.com.br/noticia/aragao-questiona-inteligencia-clandestina-por-tras-da-queda-de-dilma

    Como se tudo tivesse acabado de acontecer, JB Costa, um comentarista sempre bem informado, e bem assíduo no blog diante do meu comentário exclama surpreso: “Clever Mendes, tens certeza!”

    Cheguei a responder a ele em comentário enviado segunda-feira, 23/05/2016 às 00:38, e depois aproveitei para o perseguir em dois ou três posts com a resposta na ponta da língua, mas como nós todos andamos bem apressados provavelmente ele nunca chegou a ler alguma das minhas respostas.

    E mais recentemente o comentarista Rui Ribeiro, que eu não tinha visto com frequência aqui no blog brindou-me e a todos nós frequentadores do blog de Luis Nassif com um comentário surpreendente. Ao responder ao comentário dele que ele enviou quarta-feira, 09/11/2016 às 09:42, junto a comentário meu enviado terça-feira, 08/11/2016 às 00:41, lá no post “Primeira entrevista de Moro indica que ele perdeu a “aura de intocável”, por Helena Chagas” de segunda-feira, 07/11/2016 às 14:04, aqui no blog de Luis Nassif e contendo o texto “Moro não vai atrapalhar anistia ao caixa 2”, que Helena Chagas publicara no site Os Divergentes, eu chamei o comentário dele não de surpreendente, mas de estranho pelas circunstâncias, mas no comentário dele havia o mesmo conteúdo presente naquilo que eu dizia desde 2013 e no comentário dele o conteúdo estava expresso de modo bem jurídico em três parágrafos que vinham entre aspas. O endereço do post “Primeira entrevista de Moro indica que ele perdeu a “aura de intocável”, por Helena Chagas” é:

    http://jornalggn.com.br/noticia/primeira-entrevista-de-moro-indica-que-ele-perdeu-a-aura-de-intocavel-por-helena-chagas

    E os três parágrafos do comentário de Rui Ribeiro que vieram entre aspas são os seguintes:

    “Os Ministros [do $TF] têm interpretado o artigo 317 do Código Penal ao pé da letra. O dispositivo diz que configura corrupção passiva “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”. Dessa forma, ao receber dinheiro de campanha com origem ilícita e sem declaração à Justiça Eleitoral, um candidato poderá ser enquadrado como corrupto. A pena é de dois a 12 anos de prisão mais multa.

    Os dois primeiros votos de ministros do STF no item 6 do processo do mensalão recolocaram em debate a tese desenvolvida pela defesa dos réus do núcleo político de que os recursos recebidos por meio das empresas de Marcos Valério não passaram de caixa 2, o que seria um crime eleitoral e já prescrito. Barbosa afirmou em seu voto que “A AJUDA DE CAMPANHA CONSISTE EM VANTAGEM INDEVIDA E PODE INDUZIR A PRÁTICA DE ATO DE OFÍCIO. A declaração mostra o entendimento do ministro no sentido de que POR TRÁS DA FORMAÇÃO DO CHAMADO CAIXA 2 DE CAMPANHA EXISTE UM ATO DE CORRUPÇÃO.

    Caso a maioria dos ministros entenda que o caixa 2 deve ser considerado um crime de corrupção mesmo sem a comprovação de que houve uma contrapartida do agente público que recebeu a quantia – o ato de ofício -, cairá por terra a tese usada por advogados de réus do processo do mensalão. A leitura dos votos sobre o item continua nesta segunda-feira.”

    Como os parágrafos vinham entre aspas, não se tratava de opinião de Rui Ribeiro, mas revelava alguém com pleno domínio do assunto e era de se esperar que Rui Ribeiro estivesse bem ciente da ideia constante nos parágrafos. Ao transcrever os parágrafos, Rui Ribeiro mostrava que havia ido até boas fontes e compreendera o resultado que advirá do julgamento 470 do STF. O entendimento dele era um avanço comparado com o que pensava a maioria, mas pecava na medida que era um entendimento que direcionava para o mesmo entendimento da maioria. Nos parágrafos transcritos por Rui Ribeiro estava expresso que o crime de caixa dois quando cometido por funcionário público que possuía uma competência muito ampla na sua área de atuação subsumia no crime de corrupção. Só que para ele havia a percepção de que aquele entendimento era um ponto fora da curva e que depois de atingir o PT, o judiciário esqueceria do resto.

    Respondi ao Rui Ribeiro. Além disso, junto ao post “Chico e Francisco: como Moro trata vazamentos contra Lula e Toffoli” de segunda-feira, 14/11/2016 às 18:17, aqui no blog de Luis Nassif e com texto de autoria dele, em comentário que enviei quarta-feira, 16/11/2016 às 01:12, para Rui Ribeiro junto a comentário dele enviado terça-feira, 15/11/2016 às 14:39, eu lancei a ele um repto para que ele explicasse porque tendo entendido o significado do julgamento da Ação Penal 470 no STF, ele considerava que aquele julgamento fora um ponto fora da curva. O endereço do post “Chico e Francisco: como Moro trata vazamentos contra Lula e Toffoli” é:

    http://jornalggn.com.br/noticia/chico-e-francisco-como-moro-trata-vazamentos-contra-lula-e-toffoli

    Para responder-me Rui Ribeiro lançou mão da entrevista que Sérgio Moro havia dado ao Estadão e que a Helena Chagas abordou no post “Primeira entrevista de Moro indica que ele perdeu a “aura de intocável”, por Helena Chagas”. A entrevista intitulada “‘Jamais entraria para a política’, diz Sérgio Moro” concedida a Fausto Macedo e Ricardo Brandt e de sábado, 05/11/2016 às 17h00, e publicada no site do Estadão pode ser vista no seguinte endereço:

    http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/jamais-entraria-para-a-politica-diz-sergio-moro/

    E a justificativa de Rui Ribeiro se prendia a resposta de Sergio Moro à seguinte questão formulada pelos entrevistadores:

    “Como vê a criminalização do caixa 2? Se passar, o que muda nas investigações sobre empreiteiras? Elas admitem repasses de propinas via caixa 2 disfarçadas de “doações eleitorais””

    Rui Ribeiro que transcreveu a pergunta, transcreveu também a resposta de Sérgio Moro que é a seguinte:

    “O assim chamado caixa 2, ou seja, o uso de recursos não declarados em campanhas eleitorais, já é criminalizado no artigo 350 do Código Eleitoral. No projeto 10 Medidas do Ministério Público Federal, há proposta para aprovação de uma redação melhor para esse crime. Seria um passo importante do Congresso. Se a lei exige que todos os recursos eleitorais devem ser declarados, e isso é uma regra básica de transparência, é isso que deve ser feito. No caso da Operação Lava Jato, o foco não tem sido propriamente no caixa 2 de campanhas eleitorais, mas no pagamento de propinas na forma de doações eleitorais registradas ou não registradas, ou seja, crime de corrupção. Então, embora a proposta represente aprimoramento da lei atual, não terá um impacto tão significativo nos processos. Sobre eventual proposta de anistia, creio que é prudente aguardar eventual formulação concreta antes de opinar. Seria impensável, porém, anistia de crimes de corrupção ou de lavagem.”

    Eu havia deixado o link para a entrevista de Sérgio Moro em meu primeiro comentário lá no post “Primeira entrevista de Moro indica que ele perdeu a “aura de intocável”, por Helena Chagas”. E em minha resposta enviada sexta-feira, 11/11/2016 às 00:46, junto ao comentário de Rui Ribeiro enviado quarta-feira, 09/11/2016 às 09:42, eu já procurava explicar a resposta que Sergio Moro dera que uma leitura ligeira ao meu ver levava ao entendimento que Rui Ribeiro chegara.

    O julgamento da Ação Penal 470 não transformou o crime de caixa 2 em crime de corrupção. Continuam existindo os dois crimes. E os dois crimes podem ser cometidos por funcionário público. Se você é candidato em uma eleição e, portanto, com a possibilidade de ser um funcionário público para efeitos penais e um amigo que tem atividades bem específicas sem nenhuma relação com a Administração Pública lhe fornece via caixa dois recursos para sua candidatura, o crime cometido é caixa dois e não crime de corrupção.

    Este é em meu entendimento o sentido que se depreende da resposta de Sérgio Moro. Não repliquei à resposta de Rui Ribeiro enviada quarta-feira, 16/11/2016 às 10:31, ao meu repto em meu comentário lá no post “Chico e Francisco: como Moro trata vazamentos contra Lula e Toffoli”, mas ainda o pretendo fazer.

    Enfim, o que queria dizer é que o poder judiciário é pequeno, a mídia é pequena, a Ação Penal 470 e seus efeitos precisam ser mais bem entendidos. E em meu entendimento há questões ainda mais relevantes que precisam ser analisadas e respondidas.

    A mais importante de todas em meu juízo é analisar as causas e os efeitos de junho de 2013. Não vejo ninguém fazendo essa análise com o rigor necessário, embora você faça referência a um ensaio seu a respeito das manifestações de junho de 2013. Seria o caso de você disponibilizar esse ensaio. Em minha opinião as manifestações de junho de 2013 tiveram moto próprio. Não quero com isso dizer que o poder judiciário e a mídia não influíram na redução da popularidade da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff e que mais à frente a queda da popularidade desaguou no impeachment. É claro que influíram e, em meu entendimento, influíram de modo que deveria ser analisado para ver se ali não se configurou crime contra a República.

    As circunstâncias definidoras do impeachment, entretanto, são outras. A minha tríade continua de pé: Se o Brasil fosse mais igualitário espacialmente e o poder econômico financeiro não estivesse tão concentrado em São Paulo, o impeachment não teria ocorrido. Também não teria ocorrido se o Brasil fosse mais igualitário socialmente e assim a direita não ficasse com uma super-representação no parlamento. E não teria ocorrido o impeachment se não houvesse a crise econômica.

    É a crise econômica que deveria ser o cerne dos esforços para se entender o que ocorreu com o Brasil. Tudo mais são dados antigos. A nossa cultura é antiga, a nossa mídia é antiga. Hoje com a predominância de uma mídia que se apresenta quase toda mediante imagens, as grandes figuras da nossa mídia são jovens, mas as ideias que eles transmitem são antigas. O nosso judiciário é ainda em grande parte formado por descendentes de senhores escravocratas. As mudanças vão ocorrer de modo lento.

    A economia é, entretanto, mais dinâmica. Algo aconteceu no terceiro trimestre de 2013 que destruiu o que o governo tinha planejado e que era a recuperação do pais pelo crescimento dos investimentos. No quarto trimestre de 2012, no primeiro e segundo de 2013, o crescimento dos investimentos é assombroso. E de repente há a queda no terceiro trimestre de 2013 para só vi começar a recuperar recentemente.

    O estudo sobre a razão para que houvesse a forte reversão nos investimentos no terceiro trimestre de 2013 era obrigação da nossa academia. Só que qualquer análise que se faça passa direto sobre esse período. Em minha avaliação a reviravolta nos investimentos decorreu do temor que se engendrou nos meios empresarias com as manifestações de junho de 2013.

    Trata-se, entretanto, só de uma suspeita e de suspeita de leigo. É preciso que os estudiosos com um cabedal maior de conhecimento debrucem sobre os acontecimentos, desagreguem os investimentos e verifiquem realmente onde ocorreu o problema e qual foi o fator que preponderou na sua ocorrência.

    Eu até concedo que as manifestações de junho foram fruto do julgamento da Ação Penal 470. De um lado a economia cresceu a taxas medíocres durante os quatro trimestre que antecederam o julgamento da Ação Penal 470. E só então a economia começou a recuperar. Com o julgamento as pessoas passaram a ver a política na sua forma mais desfavorável. E não houve nenhuma tentativa de esclarecimento. Ninguém, salvo os que não são leigos ou que, como a mim, foram bem informados pelos que não são leigos, sabe do efeito apontado acima do julgamento da Ação Penal 470 no STF.

    O país estava recuperando economicamente, porem era uma recuperação pelo lado do investimento que é menos visível para a população. Havia uma revolta latente. E as manifestações surgiram com toda força. Salvo o uso das redes sociais não dei muita importância em se ver interferência externa nas manifestações. Não estou dizendo que não houve interferência externa, mas apenas enfatizando que a interferência é sem importância.

    As manifestações me pareceram bem populares. E me pareceram equivocadas nas suas reivindicações que me pareciam próprias de quem não entendia o funcionamento da democracia nem o funcionamento do capitalismo e quando entendia não aceitava o funcionamento tal como é na realidade.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 25/11/2016

    • Um complemento para dizer que tudo não começou em 2010

       

      João de Paiva Andrade,

      O título do seu comentário mereceria uma análise mais detalhada e eu acabei não o comentando nem mesmo de relance. Faço essa referência aqui neste meu comentário.

      A primeira frase do seu primeiro parágrafo aborda a questão do mensalão que ocorreu em 2005, mas que só teve mesmo repercussão em 2012/2013, com o julgamento da Ação Penal 470 no STF. Eu transcrevi essa primeira frase para mostrar como, desde o início, este seu post “2010 é o ano da ruptura de qualquer pudor ou verniz, por João de Paiva” de quinta-feira, 24/11/2016 às 15:56, interessou-me. Só que eu acompanhei a sequência das datas e quando fui comentar seu post passei para 2013 e assim saltei qualquer referência que você tenha feito em relação ao que ocorreu em 2010 que você utilizou para dar título ao seu post.

      Reproduzo a seguir o que você diz no primeiro parágrafo logo na sequência da frase que eu transcrevi. Diz você:

      “Como já abordado por mim e por vários jornalistas, analistas e colunistas que escrevem e publicam artigos em blogs e portais progressistas, aquele episódio marcou o fim da curta e falsa ‘lua-de-mel’ entre a grande mídia, o PT, Lula e o governo liderado por este. 2010 é o ano que marca a ruptura completa de qualquer pudor ou verniz que pudesse encobrir a atuação político-partidária dos veículos da grande mídia comercial; nesse ano Judith Brito, então presidente da ANJ, confessou publicamente que, devido à ‘fragilidade’ da oposição política –leia-se PSDB – a imprensa assumira então o papel de oposição política ao governo petista.”

      Você dá muita importância à palavra escrita que sai na imprensa. Em meu comentário enviado quarta-feira, 29/06/2016 às 00:18, para você junto ao comentário seu enviado segunda-feira, 27/06/2016 às 23:36, junto ao post “O que os leitores querem: um jornalismo isento ou um espelho daquilo que pensam?” de segunda-feira, 27/06/2016 às 23:03, aqui no blog de Luis Nassif com a transcrição do artigo “Isenção ou identificação?” de Alexandre Marini e que fora publicado no Observatório da Imprensa, eu falo na minha descrença na força que muitos atribuem à grande mídia.

      Fui acumulando essa descrença ao longo do tempo. Ela é fruto em parte da percepção da dificuldade de convencimento que um discurso exerce sobre o outro. É claro que há variações. Há pessoas com o carisma do convencimento, seja pelo estilo da escrita, seja pelo timbre da voz, seja pela expressão fisionômica, seja pela história de vida, e quem em razão desse dom possuem mais facilidades de convencer os outros dos valores ou ideias que. Vale ficar repetitivo para dizer que nós não convencemos ninguém. Todo mundo se apega as suas convicções e não as larga de jeito nenhum.

      Em meu comentário de réplica ao seu que fora enviado sexta-feira, 12/08/2016 às 10:34, e que fora postado junto a um que eu enviei quinta-feira, 11/08/2016 às 22:14, lá no post “O Xadrez dos movimentos radicais de uma democracia incompleta” e para o qual eu fiz referência no meu comentário anterior, eu faço menção a como a humanidade demora a mudar os conceitos que ela adota, ou mais corretamente, as convicções que ela carrega, aludindo ao livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” de Thomas Kuhn.

      No meu comentário acima, eu falo sobre essa dificuldade mencionando o Aforismo XLVI do “Novum Organum” de Francis Bacom e que eu vi pela primeira vez junto ao post “Ética, Heiddeger e Woody Allen” de terça-feira, 04/02/2014 às 15:18, aqui no blog de Luis Nassif e oriundo de sugestão de Marco St. para texto de Flávio Paranhos médico e filósofo publicado na Revista Bula e intitulado “Woody Allen e Heidegger: Morte aos monstros!”.

      Lembrei-me de três outros acréscimos para enfatizar essa dificuldade. O primeiro é uma frase que vi citada aqui no blog de Luis Nassif e sendo atribuída a Albert Einstein. No post “As meninas de Jô e a Escolinha do Professor Raimundo” de sábado, 17/09/2016 às 11:06, aqui no blog de Luis Nassif e de autoria dele, o comentarista Almeida transcreve a seguinte frase atribuída a Alvert Einstein:

      “Senso comum não é nada mais do que um depósito de preconceitos colocados na mente antes de fazermos dezoito anos.”

      Todo mundo está atribuindo frase a quem não seria dono da frase e, embora, Almeida seja um excelente comentarista, esta não me pareceu uma frase de Albert Einstein. É bem verdade que Albert Einstein imiscuiu bastante em áreas externas a expertise dele. E é bem verdade que ir além do que sabemos é prática de todos nós mortais. De todo modo, a frase sendo dele, ela perderia muita relevância na medida que a frase aborda assunto que não era da área do conhecimento dele. Eu chequei a frase no Quote Investigator e no link a seguir há a confirmação da frase como sendo de Albert Einstein, mas repassada por um jornalista, Lincoln Barnett, que o entrevistou e sem que a frase tenha vindo entre aspas e a frase seria:

      “. . .common sense is actually nothing more than a deposit of prejudices laid down in the mind prior to the age of eighteen.”(Pelo Google Tradutor a frase seria: “. . . o senso comum nada mais é que um depósito de preconceitos que são colocados na mente antes da idade de dezoito anos.”)

      E o link para essa frase no Quote Investigator é:

      http://quoteinvestigator.com/2014/04/29/common-sense/

      Nem Albert Einstein, nem Lincoln Barnett têm conhecimento para dar validade a essa frase, mas supondo que a frase informe um fato verdadeiro, então ela precisa de uma análise maior que se resumiria em duas questões. A primeira seria quem repassou para os jovens o senso common. E a segunda demandaria saber quem repassou o senso comum para quem o repassou para os jovens.

      Quero com isso enfatizar que a frase mostra como o senso comum perdura durante muitas gerações. Então há muita informação equivocada ou inconsistente ou mesmo obscura, muitas ideias e muitas crenças que se encontram já de há muito arraigadas em uma cultura e que ao longo do tempo se espargiram em quase todos os indivíduos.

      O link para o post “As meninas de Jô e a Escolinha do professor Raimundo” onde se encontra o comentário de Almeida é:

      http://jornalggn.com.br/noticia/as-meninas-de-jo-e-a-escolinha-do-professor-raimundo

      Eu fiz menção à frase de Albert Einstein fazendo referência ao autor do comentário que trouxe a frase porque o comentarista Almeida tem trazido ótimas contribuições para o blog de Luis Nassif. E dentro do contexto deste meu comentário parece-me instrutivo deixar o link do post “A primeira entrevista: Trump desce do palanque, mas sobe no muro” de segunda-feira, 21/11/2016 às 18:23, aqui no blog de Luis Nassif e com matéria e vídeos sobre a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, e que foi retirado do blog de Almeida.

      Há muitas discussões interessantes no post sobre Donald Trump e eu creio que a vitória dele vai ser motivo de muitos estudos, em especial para saber o papel da imprensa na eleição dele. Assim penso que vale trazer aqui o link do post “A primeira entrevista: Trump desce do palanque, mas sobe no muro” que pode ser visto no seguinte endereço:

      http://jornalggn.com.br/blog/almeida/a-primeira-entrevista-trump-desce-do-palanque-mas-sobe-no-muro

      Tenho dado muita atenção a frases que tratam sobre o convencimento, pois esse é um assunto que vem sendo discutido recentemente com mais ênfase. Não faz muito eu vi uma frase de Blaise Pascal, em um post de Chris Dillow, um economista marxista britânico, que também serve a esse propósito de mostrar como é difícil convencer as pessoas. A frase de Blaise Pascal está em inglês e eu a transcrevo no original com uma tradução do Google Tradutor:

      “People are generally better persuaded by the reasons which they have themselves discovered than by those which have come into the mind of others.” (“As pessoas são geralmente mais bem persuadidas pelas razões que elas próprias descobriram do que pelas que vieram à mente dos outros.”)

      E o post de Chris Dillow denominado “Persuasion in a post-Truth World” de sexta-feira, 21/09/2016, publicado no blog dele Stumbling and Mumbling pode ser visto no seguinte endereço:

      http://stumblingandmumbling.typepad.com/stumbling_and_mumbling/2016/09/persuasion-in-a-post-truth-world.html

      E embora não tenha muita relação com essa questão do convencimento, vi uma frase recente, também aqui no blog de Luis Nassif trazido por um comentarista que se não me engano chama Eduardo o Outro. Ele apresenta uma frase que diz algo mais ou menos assim: “o problema é que os melhores não têm convicção e piores são cheio dela” (A frase na forma que eu lembro que Eduardo o Outro a expressa talvez fosse aproximadamente escrita da seguinte forma: “O problema com o mundo é que as pessoas inteligentes são cheias de dúvidas enquanto as pessoas estúpidas são cheias de confiança”).

      Segundo Eduardo o Outro, e como eu me lembro, a frase seria de Bertand Russell. A frase em si é incoerente, uma vez que para a dizer é preciso ter convicção. E eu a considerei não muito própria para um filósofo como Bertrand Russell, e resolvi checar no Quote Investigator se a frase era realmente dele. Há uma discussão, ou o que seria mais adequado dizer, há um inventário, sobre frase no seguinte endereço:

      http://quoteinvestigator.com/2015/03/04/self-doubt/

      Há uma frase parecida dita pelo poeta irlandês William Butler Yeats no poema “The Second Coming” em que ele diz o seguinte (A tradução do Google tradutor entre parênteses):

      “. . . The best lack all conviction, while the worst Are full of passionate intensity.” (E traduzido pelo Google Tradutor: “Os melhores não tem convicção e os piores são cheios de intensa paixão.”)

      A frase de William Butler Yeats é de 1920, enquanto a de Bertrand Russell veio em ensaio intitulado “The Triumph of Stupidity” publicado em 1933 e abordava o crescimento do movimento Nazista na Alemanha. Nela Bertrand Russell diz o seguinte:

      “The fundamental cause of the trouble is that in the modern world the stupid are cocksure while the intelligent are full of doubt.” (E de novo na tradução do Google Tradutor tem-se: “A causa fundamental do problema é que no mundo moderno os estúpidos são cheios de convicção enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas.”)

      Como eu disse, considero a frase um pouco incoerente. No entanto, vejo validade na frase ainda que fora do contexto se dita para expressar uma armadilha em que se encontra a humanidade, no sentido de que quem sabe duvida do seu saber e, portanto, não se propõe a agir e pode ficar submetidos aos que agem por terem convicção. E deve-se acrescentar que a frase tem mais validade quando entendida no contexto de uma análise sobre o fenômeno nazista. Não se trata do problema do mundo, mas do problema do surgimento do Nazismo.

      Trouxe a frase aqui porque me parece que ela ressalta um problema relacionado ao processo de convencimento. A ideia que você tenta repassar só será absorvida, ou melhor, compreendida provavelmente por quem tem dúvida, e esse necessariamente vai questionar a sua ideia. Já quem está convencido não será receptivo a sua ideia a menos que sua ideia convirja para a ideia que aquele a quem você destina o convencimento já possui.

      E há o mais importante aspecto a levar os meios de comunicação a não serem capazes de moldar a opinião das pessoas. Os meios de comunicação, a menos de indivíduos isolados – e eu menciono sempre o I. F. Stone, com o seu jornal investigativo semanal como exemplo de projeto individual que não segue o padrão tradicional – para sobreviverem tem que operar de modo capitalista. Isso significa que devem obter mais valia crescente seja pela redução de custos seja pelo aumento da venda do seu produto.

      Ora, o que vai levar a se comprar o produto de uma mídia de comunicação qualquer ou é algo que ou não pretende convencer, isto é, é algo que não traz uma ideia, mas apenas algo que pretende encantar, ou seja, algo que seja emotivo ou muito bonito, ou se trata apenas de uma ferramenta a ser utilizada de pronto, ou seja, algo útil ou, no caso em que traga uma ideia, que seja uma ideia com a qual o destinatário da mídia concorde. Ninguém vende notícias com ideias contrárias às das pessoas que compram as notícias.

      O fato de uma empresa de comunicação estar inserida no modo de produção capitalista a deixa com muito menor capacidade de convencimento. Ela pode apenas ajudar as pessoas convictas a ficarem ainda mais convictas, se isso for possível.

      E do fato de uma empresa de comunicação estar inserida em um modo de produção capitalista é possível tirar outra conclusão: o empresário será sempre de direita. Por mais evoluído que ele seja, para sobreviver como empresa que cresce, ele terá que gerenciar o esforço de acumular mais capital e que é feito via mais valia e que significa a apropriação de parte do trabalho de terceiro. O que não é postura de esquerda.

      Eu sou um pequeno pecuarista. Como tal eu não posso dar um salário muito alto aos meus empregados. Eu posso ter todos os ideais de esquerda, mas como empresário terei que agir com uma visão de direita. No meu caso, eu posso ser um pouco menos egoísta porque tenho outra fonte de renda, mas o capitalista puro será sempre de direita.

      Compreendendo o empresário dos meios de comunicação como uma pessoa de direita, você não vai ver nenhuma novidade na declaração de Judith Brito, que, em 2010, como presidente da ANJ, confessou que, dada a fragilidade da oposição, a imprensa iria cumprir o papel de oposição política ao governo petista. ela poderia ter dito a frase dez, vinte, trinta ou mais anos antes que não deveria surpreender ninguém.

      Não se deve deixa enganar pela frase de Judith Brito. Aqui se deve entender que ela iria se opor à qualquer política do governo do PT que fosse de esquerda. Ela não estava querendo dizer que é função de um jornal ser crítico do governo de plantão. Essa frase é pretensiosa quando não for engodo ou, o mais provável, pura hipocrisia. Para crescer em um ambiente empresarial capitalista, uma empresa jornalista não pode ir contra um governante com alto apoio popular. Assim, eu estou de acordo com você em dar destaque a frase de Judith Brito. Só não concordo com você, por você dizer que tudo começou em 2010 quando ela diz essa frase.

      Você deve ser jornalista para dar tanta importância a uma declaração da mídia. Essa postura de uma empresa jornalista, por tudo que eu disse aqui, começa desde que ela se constitui como uma empresa jornalista. Salvo a derrota de José Serra em 2010, não houve nada de especial naquela data para dizer que tudo começou em 2010. Os meios de comunicação empresarias vão ser contra governantes de esquerda e, salvo quando os governantes de esquerda conseguem manter a economia em marcha forçada de crescimento deixando a maioria da população satisfeita, os meios de comunicação como empresas capitalistas estão em situação muito favorável para fazer a crítica ao governo de esquerda. Um porque terá leitores para isso e outra porque é da natureza deles criticarem governantes de esquerda.

      Clever Mendes de Oliveira

      BH, 28/11/2016

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