Com menos de cinco meses de governo, a era Bolsonaro estaria no fim?

Mobilização social pela educação, corrosão de base eleitoral e política, falta de articulação no Congresso, mercado reticente e escândalos envolvendo a família. Com tudo isso e mais um pouco, impeachment já é discutido como uma possibilidade

Em Dallas, Bolsonaro em imagem simbólica: com poucos aliados, metade deles não visíveis e sob foto de Willie Nelson, ídolo musical americano que foi defensor da causa LGBT, da legalização da maconha e neto de índia (MARCOS CORRÊA/PALÁCIO DO PLANALTO)

São Paulo – “O governo passa por uma corrosão acelerada da base eleitoral e social, do apoio dos partidos e das forças políticas institucionais, e também do mercado. Sem os partidos e sem o mercado vai ser difícil construir governabilidade.” A opinião é de William Nozaki, professor de ciência política e economia da Fundação Escola de Sociologia e política de São Paulo (FespSP). Esse cenário, que abriu o debate para um possível impeachment do presidente, não é simples, mas não teria sido construído sem a colaboração do próprio governo Jair Bolsonaro.

No final da semana passada, o presidente fez a enigmática previsão de que um tsunami chegaria, mas que seu governo venceria “o obstáculo com toda certeza”. Nos dias seguintes, Bolsonaro se tornou uma ilha e o tsunami veio de todos os lados. A começar do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que declarou na terça-feira (14) a investidores, em Nova York, que a aprovação da reforma da Previdência não é suficiente para o país crescer. Disse também que o chamado “teto de gastos” (da Emenda Constitucional 95) poderia levar o país ao “colapso social”.

Na quarta-feira (15), cerca de 2 milhões de pessoas protestaram em todo o país contra os ataques à educação e às universidades. Isolado, no mesmo dia Bolsonaro estava em Dallas, no Texas. Mesmo longe do país, conseguiu alimentar a onda de protestos ao chamar os manifestantes de “idiotas úteis” e agredir uma jornalista verbalmente.

De Dallas veio a foto que simbolizou a semana do tsunami: Bolsonaro numa lanchonete junto com Hélio Negão e o general Augusto Heleno (atrás de Negão). Acima deles, uma enorme foto do cantor e compositor Willie Nelson, defensor da causa LGBT, neto de uma índia cherokee e defensor da legalização da maconha.

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Editoriais da imprensa tradicional nos últimos dias têm sido duros com o presidente. “O obscurantismo agressivo do governo Jair Bolsonaro (PSL) converteu o crucial debate sobre o financiamento do ensino superior público, já tardio no país, em um confronto de bandeiras ideológicas”, publicou, por exemplo, a Folha de S. Paulo.

Finalmente, nesta sexta-feira (17), o presidente da República divulgou texto de um suposto “autor desconhecido” que lembra o episódio da renúncia de Jânio Quadros, em 1961.

No mesmo dia, em debate com o ministro Paulo Guedes no Rio de Janeiro, Rodrigo Maia voltou ao palco, defendendo políticas que gerem emprego. “Nós estamos caminhando para o aumento do desemprego, para o aumento da pobreza e no final do ano voltamos a ter fome no país”, disse o deputado.

Diante do cenário, muitas pessoas se perguntam: com menos de cinco meses de governo, sem capacidade de articulação no Congresso e talvez incapaz de fazer as reformas prometidas ao mercado, a era Bolsonaro estaria no fim?

Para Nozaki, ainda não é possível prever um desfecho porque “o jogo está sendo jogado”, mas a situação ficou muito mais difícil para Bolsonaro esta semana, devido a uma conjunção de fatores.

No último mês ficou claro que há duas lógicas contraditórias no interior do governo, que até aqui estavam coesas: “de um lado, as demandas por reformas oriundas das alas financista e lavajatista, que exigem articulações institucionais e parlamentares, e que precisam de emendas constitucionais ou projetos de lei, ou seja, da relação entre Executivo e Legislativo. De outro lado, a agenda dos bolsonaristas e olavistas, com uma disputa ideológica sistemática que exige um governo por medidas provisórias e decretos”.

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Segundo Nozaki, no ciclo da Nova República como um todo, o governo Bolsonaro é o que mais editou medidas provisórias por dia e o que mais emitiu decretos nos três primeiros meses de mandato. Foram mais de 80 decretos e uma medida provisória a cada 7,4 dias. A título de comparação, Dilma Rousseff, no começo do primeiro mandato, valeu-se de cerca de 34 decretos.

Politicamente, o governo “arbitrou” esse conflito em favor da ala bolsonarista e olavista, na avaliação do professor. Exemplos disso foram os repentes autoritários de Bolsonaro, o comportamento de seus ministros ao participar das sabatinas no Congresso ou as discussões entre os generais (Santos Cruz e Mourão) e Olavo de Carvalho.

“Todos esses elementos somados revelam que o governo é incapaz de gerir crises e, além disso, tem alta capacidade de aprofundar as crises que ele mesmo gera. Isso provocou uma reação por parte das forças institucionais que agora colocam o governo contra a parede, junto com o mercado, abrindo a possibilidade de ele ser inviabilizado.”

Tudo isso sem falar das acusações contra Flávio Bolsonaro e a explicitação de suas relações mais íntimas com as milícias, lembra Nozaki. O que se soma à parcela da sociedade organizada em torno do movimento nacional contra o desmonte da educação, e a uma parcela não organizada cada vez mais insatisfeita por conta das revelações feitas sobre a família Bolsonaro.

Impeachment?

Na opinião de Nozaki, embora o jogo esteja “sendo jogado”, não está claro que caminho o governo vai tomar diante da instabilidade. “Mas o conjunto das forças políticas e econômicas tem essa opção (o impeachment) posta no tabuleiro como uma das possíveis.”

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O mercado, o centrão e as forças institucionais podem ter concluído que a instabilidade permanente provocada pelo bolsonarismo pode inviabilizar até mesmo a reforma da Previdência. Não há como Bolsonaro obter os 3/5 dos votos na Câmara.

Para Oswaldo Amaral, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não se pode dizer no momento que o governo Bolsonaro está no fim. Mas é evidente que sua agenda vai fracassar se ele não souber negociar com o Congresso.

O impeachment ainda não é visível no horizonte de Bolsonaro, na opinião do professor da Unicamp. “O governo vai durar até o momento em que os vários agentes políticos e econômicos perceberem que ele não vai mudar de comportamento, e então vão pensar numa alternativa. Acho que esse momento não chegou e que o mercado ainda acredita numa composição com o Rodrigo Maia e o centrão, para aprovar a reforma da Previdência.”

A adesão do centrão dependeria de o governo saber negociar politicamente, o que até agora o Planalto e seus líderes demonstraram não entender como se faz.

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6 comentários

  1. Disse também que o chamado “teto de gastos” (da Emenda Constitucional 95) poderia levar o país ao “colapso social”.
    “Esquece” o Rodrigo Maia que foi artifice da aprovação desse impropério!

  2. Se a manifestação convocada pelo Bolsonaro para o próximo domingo não aglomerar pelo menos 10 milhões de pessoas pelo Brasil afora, aí ele pode jogar a toalha.

  3. E la nave va… Até quando e onde vai parar, eis a questão. O governo bolsonaro praticamente acabou. O recuo de Olavo de Carvalho é uma dos fatores. Veremos se tem capacidade de virar o jogo ou se vai ser sangrar, como foi com o governo Dilma.

  4. Impeachment do coiso pra por o “coisa ruim”?????

    Trocar seis por meia duzia?, é um governo de negocistas e negociatas, querem que o povo se f……, quando o tchutchuka falou sobre desemprego, salario e renda? Além de esfolar o pobre coitado que ganha a “fortuna” de 1.900,00 reais, quer retirar as isenções de educação e saude……., vida boa pra banqueiro, que não paga um centavo sobre as dezenas de bilhões que embolsa, já o “milionario” trabalhador, que ganha menos de dois mil reais, paga regiamente seu IR……

    Digo mais, após sancionar a desgraça da previdencia sairá do governo para desfrutar esse dinheiro que virá facinho, facinho…… pra que esquentar a cabeça quando terá garantido uma montanha de dinheiro todo mes, sem garantia nenhuma de que precisará desembolsa-lo daqui a algumas décadas??
    È um país perverso, e ignóbil, o governo só é a cara de uma boa parte do país….

  5. Dicas para em épocas de crise, usufruir da oportunidade e faturar uns trocos a mais: vender camisetas pretas escritas na parte da frente LUTO.
    Na parte de trás, algumas variações:
    -…por um governo que sirva para o Brasil
    – …pela educação
    -…por uma reformas de reais benefícios
    -…para que o Queiroz apareça
    -…para saber quem mandou matar Marielle e seu assessor
    -…pelo Lula Livre

  6. no dia 26 eu ficarei em casa descansando
    desse terrorismo bolsonário….
    e pensando nisso que o chomnski falou sobre
    tanta badalação acercas de trump(bolsonaro)
    pela grande mídia e pela midia alternativa inclusive…
    troque trump por bolsonaro, por exemplo:
    “Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós”.

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