
É curioso o processo de construção de reputação de professores do ensino médio. O padrão habitual do bom professor é o tipo severo, intransigente, que não dá muita bola para as demandas dos alunos.
Tive uma professora de português assim, em São João da Boa Vista. Seu apelido era Vera-Pé-Na-Cova, devido ao estilo duro de andar.
Era dura nas notas, intransigente nas demandas e tinha algumas iniciativas interessantes. Por exemplo, montou um grupo de teatro no Instituto Educacional Coronel Cristiano Osório de Oliveira, e convidou o grupo de teatro da cidade, o Gama, para uma fusão.
A peça a ser ensaiada era o poema Juca Mulato, de Menotti Del Picchia. Fui convidado para compor melodias em cima do poema.
Mas dona Vera, como a chamávamos, era intransigente demais, autoritária demais. Decidi, então, comandar uma rebelião. Parte do grupo saiu e montamos o Gajos.
A primeira peça do Gajos foi “Camélia Redentora”, uma sátira que escrevi em homenagem a dona Adélia, a diretora linha dura do Instituto. O verso principal era: “Eu sou a famosa Adélia / a maior em todo lugar / rainha de todos os povos / por intervenção militar”.
Dei essa volta toda para chegar à minha professora predileta, aquela que tinha a verdadeira vocação do ensino, Ana Maria Salomão, que faleceu no domingo passado.
Tínhamos algum grau de parentesco. Havia muitas famílias libanesas em São João, todas vindas da mesma região do Líbano e parentes entre si: os Salomão, os Marun, os Gebara.
Ana Maria era irmã de Paulinho Salomão, futuro juiz de direito, e que elegemos presidente do Gajos. E de muitas irmãs, todas educadas de acordo com os melhores princípios democráticos. E não era fácil em uma cidade altamente polarizada, com histórico de manipulação nas eleições municipais e de patrulhamento político, especialmente depois de 1968. Em 1964, fazendeiros armados expulsaram da cidade os Nicolau, ligados ao PTB. Em 1968, uma eleição de Durval Nicolau foi roubada em plena luz do dia.
Nesse ambiente opressivo, Ana Maria ouvia os alunos e estava aberta para nossas demandas de aprendizado. Quando nos encantamos com a Semana de 22, por exemplo, tratou de estudar o tema e nos abastecer de informações. Se não me engano, foi ela quem conseguiu os originais da peça seguinte que montamos, “Liberdade, Liberdade”, de Millor Fernandes e Flávio Rangel. Chegamos a excursionar com a peça por algumas cidades.
Organizou um concurso de contos no IE, tendo como jurado nada menos que o professor Antônio Cândido. E me presenteou, anos depois, com o conto com o qual venci o concurso e julgava nunca mais encontrar. Fomos parceiros de músicas nos festivais de música do IE.
Quando a pressão sobre nossa militância política juvenil tornou-se pesada, Ana Olga – nossa professora de filosofia e outra candidata a mestra preferida – cedeu, mas Ana Maria resistiu, nos apoiando dentro de suas possibilidades.
Foi minha mestra inesquecível.
Leia também:
Laurindo Bonilha
20 de agosto de 2025 8:57 pmOs textos literários teus são muito bons. Sempre me agradaram, desde o primeiro que li, aí pelos anos 2000. Para mim, têm três qualidades que aprecio sobremaneira: a leveza da linguagem, sem espartilho (Lembra desse equipamento?), a fluência, as reminiscências do cotidiano da juventude e o despojamento. Manda mais, inclusive os mais antigos.
Domingos Pellegrini
21 de agosto de 2025 1:56 pmParabéns, Nassif, pelas boas lembranças que perpetuam e disseminam bons exemplos!
Zé Chico
21 de agosto de 2025 6:31 pmFiquei triste ao saber da partida da querida Ana Maria.Mas foi bom recordar I E
Tania sabbag
21 de agosto de 2025 7:13 pmEla deve ter tido orgulho do ex-aluno.Ele se tornou excepcional jornalista.abs Grata