A Música Popular Brasileira (II), por Izaías Almada
Antes de chegar à música de protesto nos de 60 e 70, a MPB viveu um momento de criatividade dos mais empolgantes quando o talento de músicos e poetas, cantoras e cantores, instrumentistas, maestros, arranjadores, sacudiu o corpo e mergulhou num mar de tranqüilidade, paz, amor, carinho, sonhos e poesia que encantou o mundo: a Bossa Nova.
O samba quente que desceu do morro para a cidade do Rio de Janeiro, ao passar por alguns bairros como Ipanema, Copacabana, um pouquinho do Leblon, é surpreendido pela suavidade de um ritmo diferente, de música suave e poemas a cantar o amor, a solidão, a esperança do reencontro dentro do coração, a saudade, trazendo à tona o talento de nomes como Antonio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes, Nara Leão, Carlos Lyra, Baden Powell, Alaíde Costa, Sergio Ricardo, Maísa, João Gilberto, Claudete Soares, Elis Regina, Roberto Menescal e tantos outros que ajudaram a dar voz ao Brasil internacionalmente.
Com o passar do tempo outros nomes que viriam a se consagrar na MPB, como Gilberto Gil, Gal Costa, Jair Rodrigues, Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, juntaram-se ao samba tradicional e à Bossa Nova, num caldeamento que iria trazer para os palcos, para rádios e televisões e, sobretudo, para as gravadoras, o Tropicalismo e a Música de Protesto. O ano de 1964, pelo mal que fez ao Brasil, foi decisivo para essa vertente criativa da nossa música popular.
Surgiram nessa altura os grandes festivais de música popular realizados pela TV Record e TV Excelsior em São Paulo e a TV Globo no Rio de Janeiro. Festivais esses que deixaram em todo o país a alegria e o orgulho de ter uma música popular tão rica e diversificada nas suas melodias e letras e também revelar novos talentos como Ivan Lins, Gal Costa, Tonzé, Marília Medalha, Os Mutantes, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Luis Melodia, Beth Carvalho e por aí afora…
Os órgãos de informação e divulgação mais vistos e mais comunicativos naqueles anos eram as emissoras de Televisão, onde o melodrama das telenovelas reunia no horário entre as 19hs até às 22hs milhões de brasileiros e boa parte desses milhões for agradavelmente surpreendida com os Festivais de música popular que apresentavam as músicas concorrentes durante quatro semanas e uma finalíssima com dez ou doze das músicas escolhidas como as melhores.
No dia seguinte de cada apresentação o Brasil já cantava algumas das que se tornariam vencedoras. Não me esqueço, por exemplo, de ouvir o grande sucesso de Chico Buarque, num dos festivais, ser cantada em vários lugares: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar cantando versos de amor”…
(CONTINUA)
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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