17 de junho de 2026

“Ainda estou aqui” – onde estão os negros e trabalhadores no filme?, por Urariano Mota

A discriminação, o preconceito se dá na interpretação da obra, mas não na própria natureza do que se cria na arte. Pelo contrário.
Divulgação

“Ainda estou aqui” – onde estão os negros e trabalhadores no filme?*

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por Urariano Mota

Entre as críticas que fazem restrição ao filme de Walter Salles, podemos anotar as mais severas a seguir.  

Fabiane Albuquerque, no Le Monde Diplomatique:

“jovens brancos de Copacabana, fumando maconha, querendo mudar o mundo, sem lavar a própria louça, são abordados pela polícia. Embora o período seja de Estado de Exceção, nem de longe podemos comparar com as abordagens policiais nas favelas e periferias do Brasil… Com o avançar do filme, o incômodo aumentou, sobretudo quando dei-me conta de que o olhar da obra se fechou numa família burguesa” . 

Ou aqui, em Dani Sousa

‘acho o filme alienante. É o ponto de vista de uma pessoa branca, herdeira em uma família de banqueiros, narrando a vida de gente branca e rica (o desaparecimento do patriarca não chega a afetar a qualidade de vida da família – no máximo a mudança da casa de praia para São Paulo), para outros brancos e ricos. É o puro suco da esquerda branca brasileira.”

Ou aqui, em vídeo do qual retiro alguns trechos, de Jones Manoel:

“Dois problemas na maioria dos produtores culturais sobre a ditadura: ou eles  carregam o filme sobre o grande acontecimento, grande personagem, ou retratam dinâmicas e problemas da classe média durante a ditadura.  Em ’Ainda estou aqui’, senti um grande incômodo em como é retratada a personagem Zezé, empregada doméstica no filme. De modo geral, o cinema falta muito retratar como era a vida da maioria na ditadura,… Chico Buarque foi embora do Brasil (Jones faz  movimento nos ombros como quem diz “e daí?”, ou “qual a importância?”). Enfim, diz pouco, não é?”

Isso posto, devemos anotar duas ou três coisas que procuram responder a semelhantes críticas.

Numa resposta, digo que na criação da arte não existe a divisão de cor, raça ou origem. É preciso que se repita isso à exaustão, e se mostre o quanto é impossível a segregação em obra de arte? A discriminação, o preconceito se dá na interpretação da obra, mas não na própria natureza do que se cria na arte. Pelo contrário. Um inesgotável valor da arte e do artista é romper os grilhões da sua origem de sexo, raça e classe.

Penso em Cruz e Sousa, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Se assim ainda não é visto, a razão está longe do que ele escreveu.

“SÓ

Muito embora as estrelas do Infinito
Lá de cima me acenem carinhosas
E desça das esferas luminosas
A doce graça de um clarão bendito;

Embora o mar, como um revel proscrito,
Chame por mim nas vagas ondulosas
E o vento venha em cóleras medrosas
O meu destino proclamar num grito;

Neste mundo tão trágico, tamanho,
Como eu me sinto fundamente estranho
E o amor e tudo para mim avaro!…

Ah! como eu sinto compungidamente,
Por entre tanto horror indiferente,
Um frio sepulcral de desamparo!”

Para a mais profunda estética desse soneto, não precisamos saber que Cruz e Sousa era negro. Só é uma alegria e tristeza permanentes. Podemos ver, é certo, por acréscimo, que o poeta escreveu esse fundo grito depois das maiores discriminações contra a sua pessoa, sobrevivência, em razão de cor e raça. Mas o valor do soneto se impõe, antes e além de tal insuportável injustiça.

No mesmo lado, contra o erro de avaliar uma obra pela origem de classe do autor, não precisamos ir ao exemplo de Balzac, muito bem analisado por Engels. Recorro ao imediato, mais perto de nós. Penso em João Cabral de Melo Neto, que expressou a maior miséria de nordestinos que não eram da sua própria classe social. Ou no cinema, maior exemplo não há que o do paulista classe média Eduardo Coutinho, com o clássico Cabra Marcado para Morrer, denúncia sobre o assassinato de líder camponês João Pedro Teixeira, de Pernambuco, de todo o Brasil, para too o mundo.  

Na questão da origem, de lugar e de tempo! de uma obra de arte, penso que o melhor caso é o da tragédia grega. Marx escreveu sobre ela:

“a dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas do desenvolvimento social. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda prazer estético e de terem ainda para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis”.

E Freud foi buscar nela nomes, características e fundamentos em sua obra de psicanálise.

Mas chegando mais perto do objeto do filme. Para uma obra que fala de uma família de classe média, que sofre um dos muitos crimes impunes da ditadura, falar uma crítica que não vê a importância desse filme é de uma estreiteza sem tamanho. Digo mais: os possíveis reparos são, de um ponto de vista político, sectários, descabidos. Os bolsonaristas já identificaram o perigo de uma obra que anuncia para o mundo inteiro a sua crueldade. Eles sabem. Repito o que eu publiquei antes.

Transmitido pelo filme, temos uma história real da miserável e terrível ditadura no Brasil. O diretor Walter Salles, Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello e todo elenco nos põem de volta a tragédia humana que a extrema direita e golpistas querem desmerecer, ocultar, debochar, desrespeitar, na sua revoltante impunidade. Trazida pela arte, a ditadura se mostra, com um drama humano, familiar, que não poupou nem os bem-nascidos. Que matou sem escrúpulo, porque, afinal, todo resistente era chamado de terrorista. E num ponto ótimo do filme, o público nas salas de cinema tem compreendido a ditadura que se ocultava. A ditadura que nem dizia o seu nome, pois era chamada de revolução de 1964.

Todos os democratas, todos os jovens e eternamente jovens devemos ver, discutir e divulgar este filme. Ele está inscrito em nosso DNA. É nosso. Todos, populares, estudantes, brancos, negros, não importa a condição, nos sentimos presentes. 

E concluo agora: recusar esse feito estético porque nele não há negros e trabalhadores, olhem, para ser mais explícito, digo: restringir nesse nível expressa uma visão bárbara que se disfarça de esquerda.

*Vermelho “Ainda estou aqui” – onde estão os negros e trabalhadores no filme? – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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9 Comentários
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  1. Bernardo

    17 de janeiro de 2025 4:26 pm

    Corretíssimo, mesmo porque o drama histórico ocorreu sim numa família de classe média branca e não há demérito nisso. Também é fato que pessoas negras sofreram naquela época e foram retratadas com seus respectivos dramas pessoais (vide Marighella) também pelo cinema e com bastante eloquência. Essas críticas externam opiniões que vão de encontro ao objetivo do filme que é expor as chagas do arbítrio e da insensatez de uma ditadura e nunca fazer apologias supremacistas. Os críticos deveriam sim se apoiar no exemplo desse filme e pedir aos produtores para relatarem também os dramas de vários outros, pretos, brancos, orientais, que sofreram e pagaram com a vida por serem contra o fascismo: operários, jornalistas, artistas, estudantes, políticos, miltares,…..

  2. Antonio Uchoa Neto

    17 de janeiro de 2025 4:44 pm

    Durante o julgamento de Meursault (O Estrangeiro, de Albert Camus), em determinado momento, quando a promotoria explora à exaustão a reação (ou não-reação) do mesmo à morte da mãe, o advogado de defesa se pergunta, acalorado: “Mas afinal, este homem está sendo acusado de assassinar um homem, ou de ter-lhe morrido a mãe?”
    Walter Salles está sendo acusado não somente de ter nascido um herdeiro bilionário, mas de ter feito um filme em que somente o sofrimento de uma família branca e privilegiada de classe média, durante a ditadura militar, mereça ser tema de um filme.
    No entanto, ele escolheu adaptar para o cinema uma história de e sobre brancos privilegiados de classe média, submetidos às agruras de uma ditadura militar. Ora, me parece que há uma questão subliminar envolvida nessa crítica. Será que Walter Salles faria sucesso, ganharia Globos de Ouro ou Oscars, se fizesse um filme mostrando o sofrimento de pretos, pobres, ou minorias? As pessoas que o estão criticando, provavelmente, diriam: não. Por isso ele faz um filme sobre brancos de classe média usurpando o sofrimento, muito maior e mais doloroso, dos pretos, dos pobres, e das minorias. O sofrimento destes é causado, em grande parte, pelos brancos de olhos azuis de que falava o Lula, irmãos gêmeos desses que agora criticam o filme; vamos mostrá-los, em seu sofrimento, e continuar perpetrando-os. Nada temos a ver com isso. Melhor estar na ponta do chicote onde está seu cabo, do que no outro lado. Branco levando chibatada é fake. Não se deve chamar a atenção para isso. Melhor mostrar só os que as merecem, pobres, pretos, e minorias. Afinal, a gente mostra o sofrimento dessa gente, e nos fazemos passar por justos, honrados, e decentes cidadãos que não toleram essas perversidades; e, além do que, não queremos aparecer nesses filmes…ainda que com eles, e suas polêmicas, ganhemos dinheiro (cliques, likes, e compartilhamentos). Como dizia o anônimo vietnamita, em ‘Corações e Mentes’: ‘Primeiro jogam bombas, depois vem filmar’.
    Mas… ‘Carandiru’ foi um grande sucesso, ‘Cidade de Deus’ foi um grande sucesso. Ah, já sei; não foram dirigidos por um branco herdeiro bilionário. Tá certo então. Aí, tudo bem.
    Palavra de honra: essa está sendo a polêmica mais estúpida dos últimos anos.

  3. Paulo Dantas

    17 de janeiro de 2025 5:36 pm

    Para que ela foi ganhar o prêmio !?

    Agora eu preciso ter uma opinião inteligente ainda que ninguém ligue.

    Faria uma crítica e assim que terminar talvez assista o filme.

  4. fernando.vugman

    17 de janeiro de 2025 5:47 pm

    Excelente análise. O filme é um tapa na cara dos fascistas aduladores da ditadura. E tem sido pedagógico para a juventude atual. E é arte. Grande arte. Se você, autoproclamado de esquerda ou democrata não enxerga isso, precisa rever seus conceitos e se educar.

  5. jura

    17 de janeiro de 2025 11:34 pm

    Nas celas que não aparecem no filme.

    O filme é um recado pra classe média de que ela não está livre das celas e da tortura a que os pobres estão acostumados.

  6. NELSON VIANA DOS SANTOS

    18 de janeiro de 2025 8:16 am

    Texto impecável de Urariano.
    O filme é um marco no cinema nacional. Como disse o Marcelo Rubens Paiva, o filme é essencialmente sobre Eunice, uma gigante de enorme coragem em face do horror da ditadura, da barbárie da tortura, da violência dos agentes do Estado; que continuam a torturar e matar impunimente (6400 jovens, na maioria jovens pobres, pretos e pardos são mortos a cada ano pelas polícias nesse triste país).
    Chegará o dia em que os identitários de esquerda vão defender o banimento de Machado de Assis da literatura nacional. Afinal, por que Capitu não era uma negra revolucionária?

  7. Rabuja

    18 de janeiro de 2025 9:52 am

    É por um este tipo de discussão e comentários (ainda não contaminados pela bílis que jorra na internet) que este espaço do Nassif é necessário diariamente

  8. evandro condé

    19 de janeiro de 2025 11:08 am

    As críticas apresentadas, se não cômicas, ridículas. Olhando apenas uma delas. Quem dirigiu Cidade de Deus foi um branco classe média. Alguma crítica pela dupla condição? Podemos pedir que um negro classe C ou D realize um filme sobre as condições que vive?
    Nesta linha esse povo desce o pau até em Vidas Secas do Graciliano.

  9. MIGUEL ANGELO GARCIA DA SILVA

    31 de janeiro de 2025 11:17 am

    “É preciso dar um jeito meu amigo!”

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