Izaias Almada
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
[email protected]

Amigas para sempre (VI) – Heleny Guariba, por Izaías Almada

A amizade tem, entre outros atributos, o dom de entrelaçar corações e mentes, de unir ideais e, sobretudo de CONFIANÇA.

Amigas para sempre (VI)

Heleny Guariba

por Izaías Almada

          Como e por quais motivos as pessoas se tornam amigas?

          Deixo a questão para filósofos, psicólogos e sociólogos pensarem e responder… E não estou jogando conversa fora.

          Penso que as respostas são tantas que podem tornar a minha pergunta ingênua ou mesmo fora de propósito. Será?

          A amizade tem, entre outros atributos, o dom de entrelaçar corações e mentes, de unir ideais, de amenizar conflitos, de ajuda mútua, de solidariedade nos momentos difíceis e, sobretudo de CONFIANÇA.

          – Em que mundo o colunista vive? Perguntará algum leitor.

          A resposta é simples:

          – No mesmo que o seu, caro leitor. Se os atributos citados acima não correspondem ou se coadunam com o mundo atual em que vivemos, o problema é de todos nós. Ninguém escapa!

          Quando conheci Heleny Guariba o mundo era outro, o Brasil era outro. Conhecemo-nos no ano de 1968, o ano que não terminou, segundo o escritor Zuenir Ventura. Nesse ano, a agitação estudantil em São Paulo foi intensa.

          As guerras na Rua Maria Antonia entre estudantes do Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, a explosão de um carro bomba na porta do Quartel do II Exército, as mortes dos estudantes Edson Luiz (Rio) e José Guimarães (SP), O congresso estudantil em Ibiúna, a edição do AI-5 e a violenta repressão daí advinda tornaram 68 um marco na história política brasileira. A literatura a respeito desse período é grande e vale a pena conhecer os fatos, sobretudo nos dias em que estamos vivendo.

          Os grupos que se propunham a resistir e a lutar contra a ditadura imposta pela força das baionetas necessitavam da confiança entre seus membros.

          Heleny, que voltara de uma viagem à Europa, onde estudou com alguns grandes nomes do teatro francês, como o de Louis Planchon, iniciou um excelente trabalho no Teatro de Arena da Rua Theodoro Bayma e também em Santo André ao lado de atores e estudantes da cidade.

          Aos poucos, foi absorvendo a realidade à sua volta e, antes que o ano de 1968 terminasse integrou-se a um grupo que, exatamente no dia 13 de dezembro do mesmo ano, autodenominou-se Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR.

          Devido à segurança necessária em tal situação, Heleny e eu não nos vimos mais por uns tempos.

          1971, três anos depois: sou chamado à Auditoria Militar e, para minha surpresa, posto em liberdade após dois anos e uma semana de prisão.

          Estava no Presídio Tiradentes aonde Heleny havia chegado há pouco tempo, presa que foi no interior de São Paulo. Encontramo-nos poucas vezes nos dias de visita dos familiares.

          Ainda dividido entre o alívio e a alegria da liberdade e a tristeza e a preocupação com os companheiros presos e pelas terríveis historias de assassinatos e desaparecimentos de militantes de várias organizações que combatiam a ditadura, sou surpreendido com um recado telefônico: Heleny queria encontrar-me no Teatro de Arena para conversarmos, dizendo que tinha sido libertada há poucos dias.

          Marcamos o encontro para a tarde do dia seguinte.

          Após nos confraternizarmos e trocarmos nossas impressões sobre o que passamos e alguma ansiedade sobre o que fazer, Heleny surpreendeu-me com uma pergunta: se eu pretendia continuar a luta fora da cadeia, pois ela estava determinada a fazer isso.  

          Foram umas duas horas de uma conversa franca e civilizada, onde Heleny tentava me convencer a continuar na luta como militante, enquanto eu tentava convencê-la a não continuar, pois com certeza seríamos seguidos e poderíamos comprometer a nossa segurança e a da própria organização.

          Não conseguimos, com inúmeros argumentos levantados, convencer um ao outro. Após um cafezinho no Bar Redondo em frente ao teatro, nos despedimos com um abraço.

          Heleny caminhou pela Avenida Ipiranga em direção à Praça da República, acenando-me uma vez em despedida. Meses depois foi presa novamente e torturada até a morte. Seu corpo nunca foi encontrado.

          Heleny Guariba, amiga para sempre!

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Leia também:

Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador