Cartas a uma desconhecida – IV última parte
por Maíra Vasconcelos
Somente o antinatural de toda palavra escrita pode desnaturalizar um pássaro,
mas ainda assim deixá-lo belo.
Como dito nas publicações anteriores, essa é, então, a quarta e última parte de “Cartas a uma desconhecida”, este curto relato da costureira Margot, que escreve cartas à vida.
Pretendo reunir e editar outros textos de prosa poética, que ainda estão na gaveta ou também alguns que já foram publicados aqui no GGN, mas que poderiam ser editados e, de alguma forma, reescritos, e assim voltar em novas publicações aqui no jornal.
Boa leitura. Até mais.
*
Talvez, a obsessão por pássaros seja apenas ganância por colocar palavras em cada uma de suas penas. Palavras em cada voo. Mesmo se, ao encontrar a palavra, sempre matamos um pouco aquilo que é a coisa em si, única, natural e irretocável como um pássaro na natureza. Somente o antinatural de toda palavra escrita pode desnaturalizar um pássaro, mas ainda assim deixá-lo belo. Belo ainda que inútil, quando em palavras. Ou apenas útil para o que é a necessidade humana de buscar a beleza. Transformar as possibilidades de ver, e ver cada vez mais algo diferente da realidade. Talvez por isso goste tanto de falar em pássaros. Essa é a minha fuga. Falar em pássaros é também meu front.
Essa minha obsessão, desde sempre. Ou desde que joguei um pássaro no lixo. Talvez, eu sempre escreva sobre a menina que jogou o pássaro no lixo. E tudo que eu escreva seja para voltar e retocar aquela cena passada. Um modo de reinventar a si mesmo usando a palavra escrita, neste caso, algumas cartas. Mas essa cena ficou em meu olhar, digamos. Por isso, esquecer é importante. Talvez, tenha visto morrer um pássaro em minhas mãos. Bem amassado e duro. E digo que talvez o vi morrer, porque está muito difícil ter certezas, ultimamente. Considerando-se também que o lado de fora da gaiola nem sempre é benéfico. Bom, vou contar essa história. Vida, vou escrever esse relato como se fosse a primeira vez que falo em pássaros.
Na hora de voar, o pássaro não saía do lugar. O pássaro não sabia mais voar. Talvez, estivesse cansado demais para tentar viver. Talvez, suas penas gostassem da gaiola ou do modo como aquele espaço tratava seu canto. Não sei. Quando sua respiração já não podia mais, o embrulhei com tamanho cuidado nas folhas de um jornal, assim como quem prepara um presente. As mãozinhas de uma menina de oito anos que joga o pássaro no lixo. Parecia uma cena dos filmes de Tarkovski. Mas não brotava sangue.
Deixei o pássaro junto a todo o resto de sobras que a casa havia produzido naquele dia. Ao olhar fixamente o pássaro morto no lixo, aprendi que há coisas das quais nos desfazemos para sempre. Uma menina de oito anos aprendendo que aquilo do qual “nos desfazemos para sempre” é como a morte. Mas, se não estou equivocada, entendi sobre a morte aos cinco anos. Muito menina, sim. Mas certos entendimentos sobre a vida apenas nos chegam, sem aviso também. Esse passar do tempo, diria, é exatamente o tempo fora dos calendários. Margot, pare de pensar nessas coisas. Pare de fechar os olhos para tentar ver na escuridão. Dizia isso a mim mesma, mais ou menos aos nove ou dez anos. Muito menina, sim. Fechava os olhos e ficava buscando luzes e faíscas na escuridão, e, às vezes, era como ver estrelas mais perto de mim. Por isso, eu repetia essa brincadeira como se fosse um exercício de fantasia, entrar na escuridão e buscar as luzes.
Então, fiz o que deveria quando joguei o pássaro no lixo, disse meu pai. Mas não sabia se minhas mãos eram cruéis ou não. O pássaro estava morto e no lixo. Naquele momento, percebi ainda mais o quanto o queria. Mesmo estando duro e impossibilitado de voar. Pensei que naquele estado inanimado, talvez o pássaro me importasse menos. Ele estava feio e morto. Mas para minha surpresa de menina, mesmo sem voar, eu continuava a gostar muito do pássaro. Afinal, o pássaro morto não deixava de ser uma vida além de mim mesma. Pensava. Uma vida que se desfazia, claramente, diante dos meus olhos. E das minhas mãos. Quando deixou de se movimentar, dependeu de minhas mãos para finalizar o trabalho quase sujo de fazê-lo desaparecer da vista de todos. Eu joguei o pássaro no lixo. Agora que ele já não mais se prestava a voar.
É sempre bom dar vida a certos acontecimentos. Isso é também um modo de viver. Como se viver fosse recordar não aquilo que exatamente aconteceu, já que pelo tempo foi tragado. Mas recordar aquilo que quando revisto será uma nova possibilidade de ler a própria vida.
*
Não tenho outro modo de viver que não seja pela costura. Cansativa e insistentemente a repetir e repetir. Porque depois que olhamos os acontecimentos de uma vida, percebemos que a repetição é o que quase totalmente constitui os vários momentos de uma existência. Ainda que, às vezes, apenas passamos pela vida como quem respira. Come. Dorme. Assim, passando, sem deixar as pessoas nem muito felizes nem muito alegres. Apenas passando os dias. Lambendo os dedos e virando as folhinhas do calendário.
Então, devo contar sobre a minha primeira casa. Como foi que a construí e como se desmoronou. Só não vou contar onde vejo beleza. Afinal, diria que a beleza pode estar em tudo. O que se necessita é adquirir o olhar. Claro que não falo do olhar cinza. É o outro olhar. O que justamente consegue ir além do cinza. Talvez, quem tenha o olhar cinza entenda melhor sobre o olhar da beleza. Por necessidade de buscar a vida. Ou apenas o que há de melhor em viver. Coitado de quem não vê beleza nas coisas da vida.
Eu que sempre tive uma vida comum. Costurando. Não entrego em dias as encomendas. Sempre me atraso. Mal de costureiras. Bom. Então inventei todas aquelas casas que nunca foram casa. Eram tantas e tão bonitas. Mas nenhuma tinha qualquer validade como casa. A casa só foi existir muitos anos depois e por causa dele.
Margot, vou colocar a roupa para lavar.
Você ainda tem alguma coisa suja.
Não, nada, quero apenas ficar sujinha com você.
Eu que sempre tive uma vida comum. Essa história de que encontramos nossa casa dentro de nós mesmos. Que coisa horrível de se dizer. Não sei como as pessoas ainda propagam esse tipo de romantismo barato. Serve de nadinha para quase ninguém. Aprendi a fazer tanta casa dentro de mim que quase fiquei sem casa. Depois, tive que me desfazer de todas essas casas fajutas. Uma por uma. Eram tantas. Nem me lembre a tristeza dessas ruínas. O olhar cinza se encheu de poeira. Ficou bem cinza meu olhar.
Claro que o espaço interior é outra coisa. E o interior não é uma casa. Deveriam dizer a verdade para as pessoas. O interior pode ser dedicado aos outros, por exemplo. Como acontece com a arte. Casa é essa construção concretíssima que necessita muitas coisas dentro para poder se manter. Ou então vai desabar também. Esse pessoal filosofando justo com a casa. Coisa para bem poucos. Porque usar a linguagem da filosofia, ou de suas perguntas sempre primárias e iniciais, é também um modo de levar a racionalidade ao extremo, onde tudo pode, novamente, começar. Assim como o amor que sempre recomeça.
*
Vida, preciso redigir outra carta.
Vou começar uma nova carta. Bom dia, minha cara e terna vida, mesmo que nem sempre tenha sido tão terna. Ainda que eu mesma tenha tentado sempre o carinho das coisas. Porque desde o início fostes tão dura e difícil. Não sei se a minha vida de costureira é exatamente isso que tentei contar aqui. Acho que falei demais das penas. Mas, ao menos, sempre me lembro da beleza. Coitado de quem não vê beleza nas coisas da vida. Também, sempre me lembro da chegada do amor. Eu vou. Ele vem. Não sei se a minha vida é exatamente como contei aqui. Mas posso recomeçar tudo agora mesmo, nesta nova carta. E talvez isso seja como recomeçar um novo dia. Um dia sempre diferente do anterior, certamente. Como nós mesmos.
Maíra Vasconcelos é jornalista e poeta, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2012. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Tem publicado os livros de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018), “Algumas ideias para filmes de terror” (Ed. 7 Letras, 2022), e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
Deixe um comentário