“Dominó de Botequim”, o Fim, por Rui Daher

Mais leves, menos alucinados. Fomos incumbidos de devolver ao Brasil progresso para todos e gentileza desarmada.

“Dominó de Botequim”, o Fim, por Rui Daher

Passado um ano sorumbático longe das escrituras, se os mestres me permitem, volto às minhas parvas junções de letras, a formar palavras sem qualquer pretensão de oferecer-lhes pensamentos úteis ou nobres, ideias utilitárias ou criminosas.

Sabem os mais próximos que em 1º de junho de 2021 sofri o ataque de três projéteis balísticos, em forma líquida, que fraturaram o osso frontal de minha cabeça, chegaram à coluna cervical, e se imiscuíram na medula, esta miríade de fiozinhos e canais que doutores, fisioterapeutas, ilustrações, Wikipedia, ainda não me permitiram entender.

Foi no período que se seguiu ao auge da pandemia. Calculem, pois, que demorou para que eu voltasse a um convívio social que me afortunasse.

O Brasil sendo destroçado, os pulhas comprando armas, o povo, abestado, esperando qual seria o milagre que viria do “mito”, boiadas passando, patrimônios nacionais sendo doados ou em risco, feminicídios relativizados, luminares da arte e cultura brasileiras indo-se embora, dando vácuo para a música nova sertaneja, esporro sobre camas de motéis, não rascunhadas por Antônio Cândido (1918-2017) com o efetivo detergente “Música Caipira”, conforme seu livro “Parceiros do Rio Bonito” (1954).

Atendo o telefone. É o velho jornalista Pestana, do blog. A contragosto, marra da minha decidida solidão, resolvi atender.

– Rui, tudo bem?

– Não.

– Por quê?

– Fosse o Nestor, e não você, estaria em dúvida entre mandá-lo à merda ou pior. Bem? Fazendo as poucas coisas que ainda posso sozinho temeroso de outra queda.

– Persistência, meu amigo. Soube de vários casos de recuperação.

– Quando? Aos 78 anos? Mês que vem atinjo os 77. Provavelmente, ainda estarei amparado pela patroa, os filhos, a amiga Viviane (que a Natureza os mantenham vivos), um cuidador, fisioterapeutas, treinador pessoal, médicos, extensos exames, a cabeça invadida por um sono intenso, nenhuma disposição ao trabalho ou criatividade para escrever, álcool somente zero, o insano ainda no Poder?

– Pessimista demais. Depois de um ano, ainda não conseguiu entender o que aconteceu na madrugada daquele dia? Nem mesmo que os facínoras já foram descobertos?

– Não fui informado. Lembro apenas que voltava de manifestação na Avenida Paulista para defender a democracia. Recolhi-me em casa, feliz e um tanto alucinado. Previa o breve fim das trevas. Quis comemorar sozinho.

– Naquela noite, estávamos todos na Redação te esperando. A Lourdes até deu uma rápida passada pra te ver.

– Perdi e me fodi. Quem me deixou assim?

– O Trio. Foram presos.

– Todos? Do esgoto aos 01 e 04?

– Imagina! Estou aqui escrevendo e ouvindo pé-de-serra com o Virgulino, o Nordestino, Alceu, Geraldinho Azevedo, Fagner, Belchior, vários, e lembrando de algumas garrafas que ficaram na Redação, de sua reserva especial.

– Desejo irresistível de assim, novamente, nos reunirmos.

– Não mais. Outros meios. Mais leves, menos alucinados. Fomos incumbidos de devolver ao Brasil progresso para todos e gentileza desarmada. Quem naquela noite quase te matou foi o Trio VCG.

– Não conheço. Esqueça as iniciais. Quero os nomes completos.

– Vinho, Cachaça, Gin, em quantidades excessivas.

– Não entendi. Tudo junto e misturado? Um novo coquetel? Isso é coisa de bar de chacina. Eles eram da polícia?

– Não, Rui. Pensa.

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

Leia também:

GGN – De volta ao blog – tantas cenas, por Rui Daher

Cansaço, por Rui Daher

Uma tenta(ção)tiva mais, por Rui Daher

4 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

ze sergio/sorocabanoburaco

- 2022-07-18 13:59:56

Sr. Rui Daher para ver que falta que fazem "Cérebros e Gente do Ramo e Especializada" falando de determinado Setor, quando a Doutrinação e Ideologização querem emplacar o AntiCapitalismo de Estado Esquerdopata-Fascista contra a Indústria genuinamente Nacional. Neste Caso a AgroIndústria ou o nome da moda: AgroNegócio: "Em algum lugar do Universo: "...Bois são esfolados vivos em abatedouros brasileiros, mostra relatório..." BRASIL !!! CÉREBROS PELO AMOR DE DEUS !!! NESTE CASO, DE BOIS NÃO SERVEM !!!

Pedro Holanda

- 2022-07-18 11:06:20

Eita porra!!! Tava fazendo falta. Comigo foi do nada, me levaram pro hospital e fiquei. Abriram meu bucho, e nada. Nessa brincadeira fiquei quatro meses. De setembro a janeiro. Agora, fiquei sem a dupla W & C. Mas, tudo bem. Que bom que voltou. Fico feliz. Ah.! Os perebentos, 00 a 04, estão com os dias contados. Como eles diriam... Ó Glória Jesus!!!

emerson57

- 2022-07-18 10:45:10

Rui, Creio que estou começando a incorporar o seu estilo: Mandei para um amigo, via zap, um texto que afirmava: bolçonarismo mata. recebi a seguinte resposta: "Fake. É o STF" Tréplica: "Tira essa escada dai. Essa escada é para ficar aqui fora."

ze sergio/sorocabanoburaco

- 2022-07-18 10:39:07

O Brasil precisa de Cérebros mais que nunca. Bem vindos de volta. De qualquer Ideologia. Todos. Não temos tempo, nem oportunidade para Aposentadorias. Não neste momento. Vejam a EMBRAER? Não a doamos em mais uma das Privatarias Imbecis de Lesa-Pátria padrão PSDB/PT dos anos de 1990. A BOEING está trazendo uma Fábrica para cooptar Cérebros Brasileiros. Regiamente pagos por Salários de padrão de países industrializados. A EMBRAER então não se tornou um puxadinho, uma filial, uma subsidiária do Gigante NorteAmericano, apenas para ser fechado e falido como fizeram por exemplo com a GURGEL, sabotada por Ciro/FHC/Itamar... A partir de 2018 começamos a usar novamente os Cérebros, depois de um coma que durou entre 1930 e 2018. Pode ter sido um pouco de sorte? Mas sorte também conta. Bem Vindos de volta Cérebros. Décadas em coma, sabemos. Mas não existe espaço neste momento para Aposentadorias. abs.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador