Dudu no Qatar e o desprezo pelo pai
por Fernando Castilho
Não poderia haver simbolismo maior do descaso e desprezo pelo povo do Brasil do que o flagra que deram em Eduardo Bolsonaro curtindo a Copa do Mundo no Qatar.
Enquanto, desde 30 de outubro, quando Jair Bolsonaro perdeu a eleição presidencial para Lula, milhares de pessoas, entre idosos, mas também crianças, estão acampados junto a quartéis em vários pontos do país, lutando para que o capitão não reconheça o resultado e permaneça no poder ou pedindo intervenção militar, enfrentando sol quente, mas também, muita, muita chuva, o filho do presidente está de boa, torrando dinheiro, seja público ou próprio, comendo do bom e do melhor e dormindo em caríssimos hotéis.
Ele sabe que os patriotas, como eles próprios se intitulam e que se recusam a assistir aos jogos do Brasil, também estão sendo bem alimentados e recebendo boa ajuda de custo de empresários bolsonaristas, sem o que não deixariam suas casas por tanto tempo.
Mas talvez a maior insensibilidade do 02 seja em relação ao seu pai, o 00 que, segundo aliados informam, se encontra em estado depressivo por não aceitar o resultado da eleição. Além disso, se recupera de uma erisipela que o acometeu pouco antes do último debate pela Rede Globo. Faz quase um mês que pratica seu esporte predileto, o ócio.
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O estado mental de Bolsonaro se agravou após uma primeira reunião com alguns poucos ministros próximos (os que se elegeram a cargos eletivos já o abandonaram), comandantes das Forças Armadas e o cacique do PL, Valdemar da Costa Neto.
O capitão queria porque queria que os militares lhe garantissem apoio a um possível golpe, mas até agora, eles o cozinham em banho-maria.
O máximo que conseguiu é que Costa Neto representasse junto ao TSE pedindo anulação de 279 mil urnas eletrônicas, o que garantiria sua vitória, mas Alexandre de Moraes não caiu no conto e aplicou uma multa de 29,9 milhões ao PL por litigância de má-fé.
O general Braga Neto ainda mantém a casa alugada em Brasília que funcionou como comitê da campanha para instalar um QG do golpe, mas, sem apoios de peso, o negócio parece não engrenar.
O capitão não encontra saída para a sinuca de bico em que se meteu e sabe que será preso a partir do próximo ano. Por isso, seu desespero.
É nesse contexto que Eduardo Bolsonaro disse: ah, quer saber? Vou ver a Copa e f…!
Se um golpe estivesse em vias de ser deflagrado, ele não iria ao Qatar.
Há uns dois anos escrevi um texto em que defendia que não há amor entre o pai e os filhos. Se Bolsonaro tivesse vencido Lula, instalasse uma teocracia e um dia decidisse deixar o poder para um de seus filhos, a briga iria ser de foice no escuro.
O único que nutre um pouco de carinho pelo pai é o Carluxo. Era ele que visitava o capitão no hospital nas vezes em que ficou internado e postava fotos ao seu lado. Os demais, Eduardo, Flávio e Renan, nunca se importaram muito.
Eduardo Bolsonaro está todo alegre no Qatar porque é vida que segue.
Não sei porquê ainda me espanto.
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br.
Navalha
29 de novembro de 2022 8:41 pmSe um golpe estivesse em vias de ser deflagrado, ele não iria ao Qatar…