Ontem estava com saudades do Brasil. A melhor maneira de saciá-la foi a ida ao Porão da Casa de Francisca assistir uma rodada de samba. Porão lotado, maioria absoluta de negros, jovens, adultos, idosos, celebrando o samba do bairro de São Mateus, denominado de “berço do samba da Zona Leste”.
O repertório era todo de clássicos do samba, Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho. Depois, o samba de São Mateus celebrando os personagens do dia a dia, a dona do brechó, o vizinho da esquina, com a mesma sensibilidade do samba carioca para os personagens do dia a dia, cantando a beleza das coisas simples e a esperança de dias melhores.
Além da celebração de Brasil, o evento me permitiu duas lembranças inesquecíveis.
A primeira, de minha amiga Fabiana Cozza, celebrando seus 50 anos de idade. Ela relembrou o início, aluna da PUC cantando às segundas feiras no Ó do Borogodó, um dos templos do samba em São Paulo, que tinha ao lado um prostíbulo e, em frente, um cemitério.
Toda segunda Fabiana descia de sua casa e cantava para meia dúzia de pessoas. Não conseguia cachê nem para cobrir o jantar. Até que um dia assisti um show dela no Centro Cultural do Banco do Brasil, e nossa amiga Consuelo de Paula me falou de suas apresentações no Ó. Fui lá na segunda seguinte e, no domingo, em minha crônica semanal na Folha, escrevi sobre ela.
No show de ontem, Fabiana contou que, no dia seguinte, quando caminhava em direção ao Ó, viu uma fila de pessoas se estendendo pela rua. Julgou que fosse alguma festa na zona. Era o pessoal curioso em conhecer a cantora que, segundo a crônica, em pouco tempo ascenderia ao topo das grandes intérpretes nacionais.
Foi a partir dali que Fabiana assumiu, de vez, seu lado de sambista e de voz inconteste da causa negra. Nunca abdicou de seus princípios, mesmo quando alguns radicais do movimento negro protestaram contra o convite para que interpretasse dona Ivone Lara em uma peça, alegando que não era suficientemente negra.
Ali, no Porão, era a negritude de Fabiana casando com a negritude do conjunto de São Mateus e mostrando o Brasil que se esgueirou pelos porões dos navios negreiros, pelas senzalas, pelas favelas e bairros periféricos, para se transformar em um dos alicerces da Nação Brasil.
Ao lado de nós, sambando, uma moça negra, que veio conversar, perguntando se não me lembrava dela. Foi amiga de minhas meninas mais velhas, moradora do mesmo prédio do lado de cima da rua Pamplona, onde fomos morar nos anos 80.
E aí me recordou outro episódio marcante.
Do lado de dentro, o prédio dava para uma rua, que ficava várias dezenas de metros abaixo. Um dia, a criançada resolveu jogar objetos na rua. Alguns moradores vieram se queixar e o porteiro concentrou todas as broncas na menina preta.
Quando Mariana veio me contar, imediatamente pedi a ela que levantasse o número do apartamento da família. E fomos nós dois, eu e Mariana, para um pedido formal de desculpas, e de protesto contra o porteiro preconceituoso.
O pai da menina era funcionário do Citibank e – descobrimos depois – um grande tocador de surdo. Imediatamente foi convocado para nosso grupo de samba. Infelizmente já tinha falecido. Mas a filha estava lá, orgulhosa da sua negritude, sambando com alma.
| São Paulo, domingo, 12 de outubro de 2003 |
LUÍS NASSIF
Pepitas raras da MPB
Foi em uma das apresentações do Festival Sete Cordas, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, que ouvi a moça. Cheguei atrasado, mas a tempo de ouvir o Jorge Simas e o Luizinho solarem.
Mas, quando a moça entrou no palco e começou a cantar uma canção romântica, admito que não caí de joelhos por uma questão de compostura. Foram duas ou três canções, poderiam ter sido 12 e eu não conseguiria sair da posição catatônica em que fiquei, a ponto de ser chacoalhado por minha filha quando o show terminou.
Foi minha amiga Consuelo de Paula, ela própria cantora excepcional, doce, talentosa, generosa, que me contou o nome do fenômeno -Fabiana Cozza- e depois a levou a um dos saraus que costumamos fazer periodicamente em casa.
A sensação de todos os convidados foi a mesma do dia em que Renato Braz, ainda pouco conhecido, antes de vencer o Prêmio Visa, ainda mantendo a timidez caipira encantadora, abriu a boca para cantar “Beatriz”. Todos constataram de imediato estar diante de um cantor diferenciado. Aconteceu o mesmo com Fabiana.
Comentei sobre ela na lista M-Música de discussão pela internet, e o grande compositor Sérgio Santos, de Belo Horizonte, admitiu ter tido a mesma sensação no dia em que Fabiana, depois de ter pedido composições para gravar, telefonou e cantou uma delas pelo telefone.
Fabiana tem pouco mais de 30 anos, formada na PUC, às segundas-feiras mostra seu talento no “Ó do Borogodó”, ali perto da Cardeal Arcoverde. E nem gravou ainda seu primeiro CD. O trabalho é independente, construído passo a passo, dentro das limitações financeiras de quem tem que se virar sozinha.
A voz é aveludada, tem um vibrato especial, disponível apenas nas grandes intérpretes. E Fabiana o utiliza com um discernimento que nada fica a dever a Elizeth e às grandes cantoras românticas. Sua voz tem o poder de comover como tinha a voz de Inhana, de Nana. Quando transita pelo samba, seu balanço e divisão são estupendos, não apenas a voz mas a musicalidade capaz de decifrar a música na primeira audição e transformá-la, fazendo a síntese, mudando o andamento, de uma maneira que não ouvia havia muito tempo. Sua experiência de teatro a dotou de um domínio de palco que parece mesclar a majestade de Mônica Salmaso com o balanço de Virginia Rosa.
Não cometeria o exagero de dizer que existem muitas Fabianas por aí, cantando na noite ou nos shows menores, à procura de espaço nas gravadoras ou nos circuitos maiores. E digo isso porque daqui a algum tempo, quando seu CD for lançado e seu nome for mais veiculado, Fabiana será consagrada rapidamente como uma das grandes intérpretes contemporâneas. Mas que existe gente boa de dar com o pau, existe.
Quem já ouviu André Mehmari? É um Yamandú Costa do piano, com o mesmo virtuosismo e uma formação musical imensamente superior, um dos maiores talentos que esse país já abrigou.
E o eremita erudito da Paraíba, Vital Farias? Há algumas semanas fui a João Pessoa, consegui seu telefone, liguei, ele me pegou no hotel, me levou a uma casa simples, de três andares, perto da Bica, que ele construiu com as próprias mãos. Há alguns anos descobriu a tecnologia e montou um pequeno estúdio com três computadores.
No violão começou a me mostrar sua “Epopéia Negra”, uma peça sinfônica em fase final, em que misturará cantores líricos e cantadores nordestinos. E me mostrou um violão carregado de Tárrega e Barrios, de Villa e de Lauro, e me mostrou arranjos feitos em sintetizadores, com uma sofisticação, uma capacidade de mesclar o erudito e o popular nordestino à altura do aluno que ele foi de Radamés Gnatalli. Eu olhava da varanda o bairro humilde, o entorno daquele sobrado perdido, vizinho da Bica. E na minha frente o Vital construindo sua epopéia maravilhosa, que conquistaria qualquer platéia culta do planeta.
Daí concluí que há algo errado com essa indústria cultural brasileira. Não é possível tanta jóia de valor solta por aí, sem espaço para difundir sua obra.
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