5 de junho de 2026

Jubileus paulistas II, por Walnice Nogueira Galvão

Os festejos da cidade de São Paulo, os quatrocentões, os centenários, os anuais, que já chegam dando ideias para a Virada Cultural futura
Monumento ao Quarto Centenário - Oscar Niemeyer

Jubileus paulistas II

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por Walnice Nogueira Galvão

Integrando os festejos do IV Centenário em 1954, foi entregue ao público o Parque Ibirapuera, obra de Oscar Niemeyer, com inauguração simultânea do Monumento às Bandeiras, de Vitor Brecheret. Deu-se relevo à construção de uma gigantesca escultura de Oscar Niemeyer, intitulada “Aspiral” ( trocadilho entre espIraL e  aspirar). Constava de uma espiral atravessada por um pilar, ambos na vertical, simbolizando o desenvolvimento de São Paulo. A peça estava fadada à destruição, por motivos técnicos.

Também foi criado  o Balé da Cidade, com e colaboração dos maiores artistas do Modernismo. O viés era moderno e de vanguarda, tendo sido contratado um coreógrafo estrangeiro para coordenar os trabalhos. O resultado foi uma projeto para cobrir o ano todo, com 4 programas de 4 balés cada, sendo obrigatório um balé brasileiro em cada programa.  Convocaram-se arquitetos e pintores para cenários e figurinos, assim como compositores nativos para a música. A lista dos compositores estrangeiros  já mostra o viés: Bela Bártok, Stravinsky…Tudo tinha que ser moderno e até de vanguarda: inspirando-se nos Ballets Russes de Diaghilev e Nijinsky, pensava-se no “balé total”.

Complementando,  promulgou-se  a lei de criação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a batuta de Eleazar de Carvalho.

E foi lançado um concurso para premiar a canção popular celebratória da data, a que acorreram milhares de candidatos. As melodias inundaram os ares, mas sobretudo esta que ficou em primeiro lugar: o dobrado São Paulo Quatrocentão, do grande compositor do samba carioca Garoto, logo prematuramente falecido. O dobrado vendeu quase 1 milhão de cópias.

Os três dias dos festejos propriamente ditos incluíram fartos divertimentos populares de praça pública, numa previsão das futuras Viradas Culturais, que celebram anualmente o aniversário da cidade.Tudo isso há 70 anos redondos.

Entretanto, na virada de século, ou exatamente no ano 2000,  ocorreria outro festejo estrondoso: a Mostra dos Descobrimentos, realizada nos 500 anos não da cidade de São Paulo mas de todo o Brasil. A escolha da cidade de São Paulo para sede já é uma consagração de sua hegemonia no país. As celebrações exigiram muita pompa e circunstância, afora amplos recursos, e ocuparam os pavilhões do Ibirapuera.

A Mostra foi subdividida em nove exposições, tal sua magnitude: Arqueologia, Artes Indígenas, Arte Afro-Brasileira, Arte dos Séculos 17 e 18, Arte Popular, Arte do Século 19, Imagens do Inconsciente, O Olhar Distante e Arte do Século 20. Envolveu até países estrangeiros, como um óbvio que é Portugal, mas também outros que tinham algo de muito distante a ver com a conquista e a colonização. É bom exemplo a Dinamarca, procedência do manto tupinambá de plumas vermelhas que encantou multidões. Portugal, num gesto nunca assás louvado, mandou-nos nossa certidão de nascimento, a Carta de Pero Vaz de Caminha, que foi exibida debaixo de uma redoma blindada e num quarto branco vazio – tal sua importância,

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) celebrou os 500 anos do Descobrimento durante todo o ano de 2000. Para tanto,  concentrou-se na execução das composições de 23 autores da terra, no projeto que recebeu o nome de Criadores do Brasil.

Sob a batuta do maestro John Neschling, o primeiro concerto, a 16 de março,  na então nova Sala São Paulo, na Estação da Luz, apresentou um programa que incluiu o Concerto para Flautim e Orquestra de Cordas, de Osvaldo Lacerda; a Congada, de Francisco Mignone; e a abertura de Salvador Rosa, pouco conhecida ópera de Carlos Gomes.

Já o projeto intitulado “Nau Capitânia”… Destinava-se em criar uma réplica da caravela de Pedro Álvares Cabral, fabricada em Porto Seguro, onde se deu o desembarque, sob os auspícios do Ministério dos Esportes e Turismo.  Foi um fiasco: atrasou quatro meses, teve problemas sem fim, sobre os quais se precipitaram chargistas d`aquém e d`além mar, acabando por atrair o epíteto  de “Nau dos Insensatos”. Dizem que nunca conseguiu navegar, para gáudio dos portugueses: estes insistiam que os brasileiros deviam ter pedido a eles para construir a caravela, sendo eles de know-how comprovado…

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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  1. AMBAR

    25 de outubro de 2024 12:51 pm

    Pois é, agora, em vez de ballet temos a dança da bundinha, a OSESP já não ensaia no Copan e nem se apresenta no Teatro Municipal. A sala onde funcionava a administração da estação Júlio Prestes, agora Sala São Paulo, é uma ilha entre os escombros da cracolândia e degradação social abrangente. Das coincidências, tanto antes quanto agora, São Paulo escolheu um carioca para canta-lo e outro para governa-lo. De bonito, ainda temos a arquitetura do 4º centenário nos prédios da Av. Maria Paula, na Avenida Angélica e algumas outras esparsas. Nem meu irmão, que nasceu no quarto de casa e no quarto centenário chegou aos 70 anos.

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