O que fizeram de minha ema?
por Rui Daher
Folhas e telas cotidianas noticiam um estranho silêncio e acabrunhamento do atual presidente da República, certo misto entre o falastrão e o capiroto, por mim apelidado de RIP, Regente Insano Primeiro.
Discute-se o possível motivo. Qualquer um que acompanhe a política assinalará, de pronto, a alternativa A: ter perdido as eleições presidenciais para Lula.
Justamente, para ele, o presidiário, corrupto, nove dedos (estou com oito), analfabeto, cachaceiro (estou na quinta), corintiano, e outras inconstâncias do longo viver (ambos estamos com 77).
Foi isso que ouvi, novamente, de minha vizinha Zoraide, figurinha de minha crônica anterior. Acostumado a esquecer o nome de pessoas com quem não simpatizo, gravei seu nome como Dona Polaroide. Talvez por seu conservadorismo Leite de Rosas.
Amigo me esclareceu que o certo é Zoraide. Passarei a respeitá-la, como o exigiria algum tabelionato. Se bem que até ficaria bem uma ação cível entre Polaroide e Kodak. Tenho certeza de que eu iria sair melhor na foto, embora menos instantâneo. Ao final da refrega, Zoraide continuou.
– Aguarde! Não sairemos das portas dos quartéis, enrolados em nossas bandeiras verdes e amarelas, até que os militares ponham as coisas no lugar.
– Sei onde, no cu da jia.
O amigo evitou que partíssemos para as vias de fato.
Mas voltemos ao sorumbático Messias, o “Imbrochável Mito”, que anda recolhido e chorando.
Uma velha raposa política brasiliense me diz: “Não foi a derrota para o Lula. Ele ainda acredita e trabalha na possibilidade de um Golpe de Boas Festas. As Forças Armadas garantiram a ele que a peteca não cairá no Posto 6 de Copacabana, enquanto um peixe marimba existir”.
– Mesmo assim continua triste, não fala. Seria o pen-drive do Eduardo que o mandatário do Catar pensou ser uma versão remasterizada da novela Sheik de Agadir (1966) ou uma planilha para Malba Tahan analisar? Tudo pode ser, disse o raposão.
Certa noite, insone, dei um pulo até a Redação do BRD, por magnânima concessão da editora Lourdes Nassif, e evoquei Ariano Suassuna, que de onde mora, poderia me esclarecer a tristeza de RIP.
“Ruizinho, saúde melhorando? Pois bem, certo dia, vendo se aproximar a transmissão do cargo, sem saber o que fará com a faixa, Jair Messias saiu para dar uma volta pelos jardins do Palácio do Planalto. Primeiro espanto: sua amiga ema não apareceu para cumprimentá-lo e bicar seus joelhos. Pensou: Deve estar por aí, a malandra … preciso preparar bem o cercadinho para que lá ela esteja protegida dos desalmados vermelhos que vêm aí. Vai ver já está lá. Vou dar uma olhada e dizer pra não temer. A vitória está garantida. Todos sabem que fui roubado nas urnas”.
– Pirou de vez, Ariano, conta mais.
“Vagando pelos lugares tradicionais, em nenhum deles encontrou o cercadinho. Perguntou ao ajudante de ordens.
– Doutor Capitão, mandaram desarmar o cercadinho. Disseram que não iria mais ser usado pelo novo inquilino.
– Novo inquilino, o caralho. Quem manda aqui sou eu! Quero meu espaço no mesmo lugar em que estava, porra! E a ema?
– Dela o senhor precisa perguntar para o seu povo que trabalha aqui.
– Tá louco? Meu povo conta 50 milhões de pessoas.
– Não esses. Os do pré-Natal de ontem.
– Quem?!!!
– Ah, jardineiros, construtores, motoristas, mecânicos, seguranças, serviçais da primeira-dama e de seus filhos. Enfim, todos que o serviram.
– Vou berrar pela última vez ou você está demitido. E A EMAAAAAA?
– O capitão deve estar se referindo àquele peruzão que a Dona Damares recheou e assou com batatas e ovos cozidos regados em muita manteiga. Ficou ótimo. Por isso o amamos com toda fidelidade, e aqui esperaremos para servi-lo.
– Vou mostrar o peruzão, pra você e pra aquela vaca.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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