Transitemos, por Rui Daher
I.
Educado em colégio católico, sempre que vivenciava fatos ruins ou eles me voltavam à memória, eu corria ao baú do passado e de lá tirava meus trajes de coroinha nas missas das igrejas de São Bento e Santa Ifigênia ou Efigênia (até hoje a Cúria não me esclareceu a grafia correta), ambas perto de minha casa.
Confesso que até 2018 foram poucas as ocorrências que me ameaçaram a ponto de eu precisar recorrer ao baú. Depois disso, foi como se devesse fazer dele meu lar. Seria impossível, pois os sufocos eram diários.
Não que de lá para cá eu tivesse crescido muito. Mesmo assim sapatilhas, calçolas e camisas de cetim branco ou vermelho não serviam mais. Sobrava a boina de pajem, vermelha, com vasto penacho preto na cabeça. Nos perrengues, logo a vestia e com ela passava resto do dia. Muitos estranhavam.
Lembro de certo dia, verão de 2004, Carnaval próximo.
Há seis meses, trabalhava em uma consultoria para um projeto da BR (Petrobras) empenhada em construir uma nova fábrica de fertilizantes nitrogenados. Tínhamos por missão determinar localizações, logística, viabilidade de mercado e retorno do investimento.
Depois de várias reuniões na sede da estatal, correções, mais exigências, mudanças de rumo, chegou o dia da apresentação final e da sonhada aprovação. No lugar de ofertas corruptoras só recebíamos pedidos de pechincha. Das primeiras, não tenho certeza se aceitaríamos. Das segundas, cagões, aceitamos todas. Na dureza, qualquer dinheiro seria bem-vindo.
II.
Noite anterior à data da apresentação final, pedi à minha mãe que resgatasse do baú as roupas de coroinha, as lavasse, passasse, dobrasse, e pusesse sob meu travesseiro.
– Pra quê? Já não cabem mais.
– Explicarei depois. Só deixa fora a boina vermelha com o penacho preto.
Quando cheguei do escritório fui conferir e estava tudo lá. Certinho, nada me agouraria. Sono dos protegidos.
Aeroporto, já no avião, dois sócios, que seguiam comigo para a batalha, estranharam quando coloquei sobre a cabeça a boina de pajem com o estranho penacho preto.
– Que merda é essa, Rui?
– Uai, não estamos perto do Carnaval?
Riram. Como fizeram todos os passageiros perto de nós. Assim continuei no táxi. O motorista bom de papo:
– Gávea, Maracanã, Ninho do Urubu?
– Não, Petrobras, no Triângulo das Bermudas.
– Concurso pra mascote do Flamengo, né, dotô? Sou Mengo, também. Boa sorte!
Tirei a boina na recepção do imponente prédio, nos apresentamos e recebemos os crachás. Recoloquei a boina. O elevador não parava de subir. Não me assustei. Estava protegido.
III.
Quatro horas de apresentação. Questionamentos vários, enfados medonhos, entortar de bocas e narizes constantes, silêncios aterrorizantes.
A certa altura, pediram que saíssemos da sala por “uns minutos”.
Os sócios: “fodeu, fomos mal”.
IV.
Chamados novamente à sala de reuniões, ouvimos:
– Amigos, o Conselho Consultivo pediu mais um tempo para reavaliar alguns pontos do estudo. Como sabemos que vocês têm voo com horário marcado para voltar a São Paulo, nós continuaremos discutindo com o Conselho e amanhã damos a resposta por e-mail. Se aprovado, será necessário voltar aqui para assinatura do contrato.
Silêncio sepulcral. Para descontrair o ambiente, vagarosamente, tirei da mochila a boina de pajem e a vesti.
Antes que abrissem a boca, anunciei:
– Combinei com amigos encontrá-los em Botafogo e brincar no bloco “Vamos Transitar”. Já vim preparado e reservamos passagem para o último voo.
De lá saímos, eu sempre carregando a boina com o penacho. Sentados num boteco na Urca, ficamos tomando chope, ouvindo o mar da Praia Vermelha cantar Jobim. Loucão, puto com a resposta, resolvi envolver-me, boina, penacho e tudo, num bate-bola de uma molecada que desafiava o pé-de-serra do Morro da Urca e (não me lembro bem) Grumari.
– Vai “Pena Rubro-Negra, vai”! Na esquerda! Não, lá é o quartel”. A molecada gargalhava: “Toma um gole dessa de rolha. Veio do Complexo do Norueguês. Agora um mergulho”.
Fui e, também, foi a boina com a pena rubro-negra, mar adentro.
V.
A garotada e meus sócios me recompuseram e fomos para Santos Dumont, pertinho da hora de nosso voo.
Eu tinha um só grito: “A boina vermelha! O penacho preto! Nunca mais nada dará certo em minha vida!”
Dia seguinte e-mail para a BIOCAMPO Desenvolvimento Agrícola:
“Prezados senhores,
Projeto aprovado. Compareçam para assinatura contrato, em 25 de novembro de 2004, 14 horas, passagens ida e volta a serem remetidas. Por favor, estão dispensados o uso de boina e penacho”.
Atenciosamente.
Conselho Consultivo BR
VI.
No dia seguinte, em meio às comemorações pelo êxito, tive um mal súbito. Mais um dia e fui internado no INCOR. Três pontes a caminho de meu coração vagabundo.
De lá para cá, foram 18 anos que misturaram alegrias e tristezas, o pensamento preso na boina e no penacho.
Um monstro a destruir o país e a mim. Homens toscos e senhoras iletradas a se enrolarem na bandeira do Brasil, pedindo arminhas, feminicídios, deslegitimação de povos identitários, até que …
Na próxima.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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Luiz Fernando Juncal Gomes
18 de novembro de 2022 5:37 pmMaravilha, Rui. Abraço!