4 de junho de 2026

Os 100 anos de dona Tereza e o encontro dos meus queridos, por Luís Nassif

Em alguma fresta dos céus, conseguirá enxergar os cinco filhos, os tantos netos, bisnetos, tudo enriquecido pelos relatos de Vinão

Autor visita Cemitério do Redentor para reunir túmulos de familiares, incluindo seu enteado Vinicius, falecido por dengue.
Vinicius, conhecido por seu humor e paixão por música, é lembrado em histórias que destacam sua personalidade única.
O texto reflete sobre memórias familiares, legado de dona Tereza e o reencontro simbólico no descanso final.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Saindo de casa, pego a avenida Brasil, subo na Gabriel Monteiro da Silva, viro na Rebouças, entro no túnel e saio na Dr. Arnaldo e viro à esquerda, no Cemitério do Redentor.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Lá, encontro meus três queridos, dona Tereza, que no 12 de abril completaria 100 anos, seu Oscar, dez anos mais velho, e o doce Vinicius, o Vinão, meu enteado querido.

Vinão se foi há dois anos, abatido pela dengue, que acometeu seu corpo frágil de down. Sempre que passávamos por lá, ele apontava que queria ser enterrado naquele cemitério, em que as ruas têm nomes de flores. Por coincidência, desde a primeira vez que estive por lá, no enterro de Luiz Gushiken, pensei em transladar s meus queridos, para ter sua companhia no último descanso.

A suprema delicadeza de Eugenia providenciou a compra do túmulo, o translado e a lápide com as fotos dos três. E fico imaginando a prosa dos três queridos, após a suprema surpresa do reencontro.

Vinão tinha por hábito me trazer “mensagens” de meus pais. Chamava-me de “bebê libanês”, gozador que nem ele só. Mas me presenteou com um presente inesquecível: uma colagem com “recados” de dona Tereza e seu Oscar.

Será o encanto de seu Oscar e dona Tereza. Ambos se surpreenderão com seu conhecimento de música e, ao mesmo tempo, com sua suprema desafinação. De fato, Vini foi uma das vozes mais desafinadas que conheci. Mas nunca se intimidou:

  • Para mim, eu canto bem!, e era o que importava.

Minha mãe certamente irá querer novidades da terra, as notícias frescas levadas por Vini. Ele vai me colocar em fria. Dirá que continuo trabalhando muito, que precisaria curtir mais a família, que ele sempre me trazia recados de dona Tereza, mas eu não obedecia.

Meu pai dará aquelas gargalhadas que ficaram presas na garganta, desde que começou a grande crise da farmácia. e se regalará com o neto torto, que tem algumas de suas características, como a gentileza com as moças.

Certa vez, em um aniversário, Vinão estava carregando o meu violão, quando foi abordado por duas moças, que perguntaram se ele tocava. E ele:

  • Toco muito bem!
  • E canta?
  • Canto muito bem!

Corrigi. Disse para as moças que ele conhecia tudo de música, mas não era bom cantor. E alertei:

  • Cuidado, que o Vinão é treteiro. Tenho quatro filhas e uma neta, todas muito bonitas. Sempre que pergunto qual a mais bonita, o Vinão aponta a que está na sua frente.

Aí, uma das moças ousou:

  • Então diga para mim: quem é a mais bonita.

E Vinão, sem vacilar:

  • Claro que é você!

Seu Oscar dará um de seus risadões e dona Tereza olhará com ternura o neto torto que não conheceu.

Mas mamãe irá querer saber, mesmo, é da Eugenia, para saber em que mãos seu filho está.

Vinão dirá que a mãe tem um modo de olhar que derretia ele e o padrasto. Lembrará que ele, ainda criança, não aguentava tanta ternura e pedia:

  • Olha, não! Olha, não!

Mas saberá descrever a mãe, sua garra, como enfrentou o mundo e os preconceitos contra mulheres, mostrando, ainda que indiretamente, até onde dona Tereza chegaria, não fosse a saúde frágil e a sociedade machista de tempos idos e sobrevividos.

Depois de muito tempo da sua morte, quando tive coragem de revirar seus guardados, descobri a correspondência de noivado. Ela insistindo que não queria ter aulas de tênis no Country nem frequentar a sociedade poços caldense, mas ser o braço direito do marido.

Agora, em alguma fresta dos céus, conseguirá enxergar o que deixou, cinco filhos, algumas dezenas de netos, bisnetos, tudo enriquecido pelos relatos de Vinão, mas não apenas. Também deixou órfãos os primos, filhos da tia Rosita, as 8 irmãs e um irmão que teve, os sobrinhos que tiveram a graça de conviver com ela.

Dona Teresa se acalmará vendo que as sementes vicejaram em solo fértil. E se encantará em saber que Vinão é do nosso time, dos que valorizam as relações familiares, e tratam as famílias como o melhor lugar para fazer amigos.

E eu, por aqui, vou contando os dias desse longo entardecer, lembrando que Vinão ficava bravo toda vez que lia “Ritos de Passagem”, uma crônica em que eu celebrava meu último dia de vida. Acabou cometendo essa falseta de ir antes. Resta o consolo que, mais à frente, estaremos juntos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Luiz Fernando Juncal Gomes

    12 de abril de 2026 7:51 pm

    Poços de Caldas, dezembro/2016
    Nassif resolve fazer um sarau em Posdicaldas na virada do ano, e convida a Comunidade GGN.
    E indica hotel. Como devoto, aceito o convite.
    Chegamos na tarde do dia 30.12.2016, eu e Dimea. O encontro é à noite em uma pizzaria.
    Descubro que mais devotos aderiram à causa, entre eles Laurindo Lalo de Almeida e Sandra.
    Forma-se um mesão comprido. Chega o garçom para tirar os pedidos.
    E vai anotando. Quando chega perto de nós alguém pede uma pizza, por hipótese, meia calabresa e meia portuguesa.
    Foi para o próximo, ao lado, que repetiu o pedido.
    Daí o Vini, ao lado da Dimea, muito atento ao que estava acontecendo, falou: “Por que não pede uma inteira de cada?”
    O Nassif, que estava em frente, na hora fez um sinal com os olhos, no sentido, tá vendo só?
    Almoçamos no dia 31.12.2016, e depois rolou a virada do ano em um boteco.
    Vini, inesquecível.

    1. cezarperin

      13 de abril de 2026 7:55 am

      Sem palavras, emocionante..

  2. Erik C.

    12 de abril de 2026 8:54 pm

    Acho lindas demais essas memórias que você traz aqui, Nassif. Forte abraço.

  3. celso soares

    13 de abril de 2026 7:39 am

    Parabéns pelo texto Nassif, seu sentimento que expressa amor e carinho aos seus e seguramente a humanidade, nestes tempos em que o ódio passou a ser corriqueiro. Vamos em frente Luis Nassif!

  4. Sergio Santos

    13 de abril de 2026 9:23 am

    Grannnnde Nassif!
    Parabéns pelo filho e pai – e marido – que você é!
    Além, claro, de.ser esse mega competente, e humano, jornalista que incansavelmente nos acode.
    Saúde e Sucesso Sempre!
    Sérgio Santos
    São José do Rio Pardo SP

  5. Anônimo

    14 de abril de 2026 7:49 pm

    Oi Luiz, não quero te incomodar, mas os teus comentários sobre o Vinão são da mas pura delicadeza que existe. Te admiro muito como jornalista e queria de darbos meus parabéns. Já tive uma entiada com síndrome de down e a convivência com ela me engrandeceu demais.
    Essa pessoas são mais que especiais, são uma alegria constante, uma inspiração infinita para nós.
    Parabéns.

  6. Marcelo

    14 de abril de 2026 7:49 pm

    Oi Luiz, não quero te incomodar, mas os teus comentários sobre o Vinão são da mas pura delicadeza que existe. Te admiro muito como jornalista e queria de darbos meus parabéns. Já tive uma entiada com síndrome de down e a convivência com ela me engrandeceu demais.
    Essa pessoas são mais que especiais, são uma alegria constante, uma inspiração infinita para nós.
    Parabéns.

Recomendados para você

Recomendados