Que tal lembrar a nossa história?
por Izaías Almada
A carta abaixo foi escrita em 1954, mês de agosto. Passaram-se, portanto, 70 anos da nossa história política, econômica e social. Seu autor: o presidente eleito em 1950: Getúlio Vargas.
“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder. Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. (Rio de Janeiro, 23/08/54 – Getúlio Vargas).
Que tal, caro leitor? Muito mudou e nada mudou. O Brasil não conhece o Brasil.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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jura
21 de novembro de 2024 8:39 pmEstive no Palácio do Catete neste fim de semana prolongado no Rio de Janeiro, vi o famoso pijama furado no peito recém lavado e li essa carta de despedida, que é única última dentre as anteriores escritas por Getúlio.
Simultaneamente, li a biografia de Aimée de Heeren – A Bem-Amada – escrita por Delmo Moreira com a riqueza de pesquisa já empregada em 14 Camelos para o Ceará. Achei os camelos e as aventuras amorosas de Gonçalves Dias no sertão muito mais excitantes.
O que menos me interessou nos relatos do diário de Getúlio comentados e enriquecidos por Moreira, foram os encontros frios e burocraticos de um presidente com a mulher do seu chefe de gabinete.
O que eu gostei mesmo foi de ver foi a história nua e crua dos primórdios da administração “científica” no Brasil – ou “choque de gestão” pra ser mais popular – sem qualquer ciência por detrás, exatamente como na expedição “científica” dos 14 camelos argelinos largados no Ceará.
Entre os encontros com a amante – cujas impressões e motivações a respeito ela guardou consigo para sempre – e assuntos políticos e administrativos, tudo junto e misturado, destaca-se um comentário de Getúlio a respeito de um protesto de seu marido e diretor do Departamento Administrativo do Serviço Público Luiz Simões Lopes. Osvaldo Aranha o havia mandado à merda por causa de uma reprimenda processual administrativa.
Ao que Getúlio respondeu: o DASP não deve satisfações aos ministros, deve? Ele o mandou à merda e o senhor obedeceu?
Simões Lopes permaneceu fiel a Getúlio até o fim. No final do estado novo o DASP e seus principais servidores foram transferidos para uma fundação privada intitulada Getúlio Vargas em sua homenagem. Após a sua morte a fundação foi totalmente dominada pelas universidades americanas, que impuseram seus currículos para implantar aqui uma administração coerente com os padrões empresariais americanos.
Eles nos mandaram à merda e todos nós obedecemos.
Izaias Almada
23 de novembro de 2024 11:22 amComentário interessante e pertinente. Gostei do humor no final, rsrsrs