Quirorrepublicanismo na mão de ninguém, por Eliseu Raphael Venturi

Os dedos da indicação. De mãos dadas. Da mão na roda prometida, somos apenas credores quirografários da quirorrepública

Otto Dix. Skat players. 1920. (1)

Quirorrepublicanismo na mão de ninguém

por Eliseu Raphael Venturi

“The grabbing hands grab all they can, All for themselves after all” (Depeche Mode).

Mãos limpas.

Em primeira mão, em mãos: mão na bola com ambas as mãos ou a quatro mãos, Mãos de Padre! Nem à mão de Deus!

Sem mão e mando, forçar a mão é fazer com as mãos e desmanchar com os pés.

Para se ter mãos limpas é preciso lavar as mãos? Colocaria a mão no fogo por suas condutas? “Pense sobre isso, ouse abrir mão de sua superioridade e aguente a mão das suas responsabilidades” dizia um senhor fincando a mão, fora de mão, rompendo o costume de passar a mão na cabeça do mocinho debaixo cujas mãos se deram mãozinhas – a despeito das regras – aos poderes afora e a quem demais se deu de mão beijada do que jamais nunca se fez na história de um condado.

“Uma hora a mão rota já não é mais tão feliz”, ria uma senhora, fitando e aplaudindo o desmoronamento.

Mãos de ferro à mão armada, a mão pesada, perder a mão da autoridade às mãos leves é um tanto contraditório. Põe-se a mão aqui e ali, mão por baixo, no final, mãos abertas por todos os lados. Mão por mão, mão diurna e mão noturna com a mão do gato, às mãos lavadas banham-se de sangue as mãos.

Mas as mãos são limpas, sempre limpas.

As mãos de nossa política são a nossa técnica, humanista, arte da humanidade, a marca da hominização desumana. Dedilhamos a colheita e dedamos em delações. Estamos nas mãos de gente como areia, areia cujo tempo escorre em ampulheta virada.

Às mãos cuja falta dos dedos ainda são motivos de deboche se sucederam naquelas que um dia se pôde temer por contorcerem traições, mas que ainda eram mãos eloquentes de uma habilidade linguística, e que se transmutaram nas mãos inexpressivas e secas da sucessão e vozes esganiçadas.  Um canto cujo ritmo se entonou com mãos batidas na plateia.

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Há mãos que passam e se passam e a mão do mercado é a mão de Deus que não é economia: é modo de vida, a ilusão da manufatura de si. Às mídias que manipulam as mentes e que eventualmente mentem, e os poderes que abrem mão de toda ação, entre o cotovelo e a ponta do dedo médio lá se vão dois palmos de protesto. Entre uma demão e outra de imparcialidade rasgou-se o craquelê.

O que promete a mão da vez? A mão de obra que quite o dolo e o equívoco da mão de frade.

Mão direita ou mão esquerda, há quem ainda brigue pelo tráfego diante da mão dupla; pegue-se de mãos largas a mão única democrática entre as mãos, uma única história a ser escrita à mão.

Mãos limpas.

Assentar as mãos em nossas liberdades não é assentar a mão de nossa cultura jurídica, insiste-se: mão na massa, mão na consciência, quem terá mão, qual mão forte, quem nos terá pela mão, quem terá a mão?

Os dedos da indicação. De mãos dadas. Da mão na roda prometida, somos apenas credores quirografários da quirorrepública. Com uma mão na frente e outra atrás, não seguimos em boas mãos; nem mão por cima, nem mão por baixo. Ficamos na mão, de mãos abanando as mãos atadas.

Não há mão a estender, a última mão: mãos postas ou mãos à obra?

***

Eliseu Raphael Venturi é doutorando e mestre em direitos humanos e democracia pela Universidade Federal do Paraná. Especialista em Direito Público pela Escola da Magistratura Federal no Paraná. Advogado.

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***

(1) Disponível em: <https://www.neuegalerie.org/content/skat-players>. Acesso em: 12 jun. 2019.

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2 comentários

  1. “Sem mão e mando, forçar a mão é fazer com as mãos e desmanchar com os pés.” Este livro http://archive.is/PIIpv é uma espada de fogo, que na escuridão das mentiras ilumina agora o caminho de cada um dos povos.

  2. Há uma profecia que haverá se de cumprir: Que um dia o Anticristo será manifestado no mundo juntamente com o Falso Profeta. Está também escrito nas Escrituras que todas as autoridades procedem de Deus, isto é, chegam ao poder com a permissão Dele. A conclusão óbvia é que um dia o Anticristo será manifestado no mundo com a permissão de Deus e enganará a muitos, milhões o seguirão. Outros anticristos menores surgiram e já passaram pela história (Nero, Hitler, etc), mas o Anticristo, a videira da terra, esse ainda haverá de ser revelado em breve. Enquanto isso, esses filhotes de anticristo, do tipo Trump, Bolsonaro, etc, e falsos profetas do tipo bispo Macedo, Feliciano, Malafaia, etc, estão preparando o caminho daquele. Esses nada têm a ver com VERDADEIRO Evangelho de Jesus Cristo. Portanto, esse Jesus que eles pregam eu também odeio, assim como o Jesus, o Verdadeiro, também odeia a obra dos nicolaítas.

    “Tens, porém, isto: que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.”
    Apocalipse 2:6

    “Assim tens também os que seguem a doutrina dos nicolaítas, o que eu odeio.”
    Apocalipse 2:15

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