Vai malandra!
por Ana Laura Prates
Hoje quero falar sobre Anitta. E pra provar que não sou fã de ocasião, declaro que escrevi parte deste texto em 2018 (o que chocou alguns) e outra parte em 2020.
Conheci Anitta e Ludimilla pelo meu filho Gabriel. Torci o nariz, brigando com meu corpo que insistia em balançar ao som do funk. Algo parecido havia ocorrido anos antes com o axé: uma dissonância entre corpo e intelecto. O vocábulo chulo, pelo menos em nossa perspectiva elitista, um machismo escancarado – como se nunca antes Amélia tivesse sido a mulher de verdade. Estava resolvido: funk era coisa de traficante, não era música, alienante, pra dizer o mínimo.
Mas meu filho estava ouvindo e adorava. Minha filha feminista começou a me ensinar que havia nuances, como em qualquer produção artística e gênero musical. Me fez perceber que a MPB é tão ou mais machista. E que as mulheres do funk estavam se posicionando e escrevendo letras interessantes, virando o jogo.
Comecei a prestar mais atenção nessas meninas e, nas festas do Rio, deixei meu corpo vencer meu preconceito uspiano e meu próprio machismo (eu deveria ser discreta, como uma moça de família deve ser). Aprendi a dançar funk – muito mal – com minhas jovens, lindas e bem mais livres amigas cariocas.
Em 2016, naquela triste abertura da Olimpíada, lá estava ela, Anitta, belíssima ao lado de Caetano e Gil, exemplos de homens que transcendem preconceitos e sempre estão abertos para o novo.
A carreira internacional e os prêmios foram se acumulando na mesma proporção da indignação da intelligentsia desesperada, tentando encontrar critérios sobre o que é e o que não é arte. Se esquecem de que Mozart já foi considerado ralé pelos eruditos e Cole Porter apenas fruto da indústria cultural por Adorno.
E o que falar das madames, para quem “o samba democrata é música barata sem nenhum valor”? A história se repete: música que nasceu no morro, música de preto, letras com gírias e modos que não compreendemos no asfalto não é música.
Mas Anitta havia furado a bolha, estava fazendo sucesso e ganhando dinheiro com sua inteligência iletrada.
Aí veio o clip VAI MALANDRA, no qual ela mostrava sua bunda com celulite e otras cositas más, e a galera foi à loucura. Ali ela joga tudo na nossa cara, uma estética que não queremos ver, um atentado ao nosso bom gosto, imitação fake de padrões europeus decadentes, como estamos assistindo agora. Confesso que adorei!
Entendi que Anitta era neta de João Gilberto com Elza Soares, e filha de Gilberto Gil com Rita Lee. Fiquei com preguiça de justificar e apenas postei seu clip.
No ano anterior eu havia incluído uma música de Valesca Popozuda em um pocket show que fiz para amigos, em comemoração a meu aniversário de 50 anos. Cantei “Eu sou a diva que você quer copiar” junto com “Sob Medida” do Chico. As letras ornam que é uma beleza.
E eis que chegamos em 2020, nós que nos dizemos progressistas, como sempre divididos e com acusações mútuas. Enquanto isso, minha querida Anitta consegue reconhecer publicamente sua ignorância e responder com o desejo de saber! Coisa rara nesses tempos sombrios.
Mais ainda, consegue coletivizar esse desejo promovendo debates políticos importantíssimos como a questão dos direitos autorais e o desmatamento da Amazônia. As aulas com Gabriela Prioli em 2020 foram um dos pontos altos. Essas duas mulheres tão diferentes, unidas contra a paixão da ignorância é a síntese do que poderia ser um bom começo para a construção de um novo mundo. “As recalcada pira, falsiane conspira…”
Mas, quer saber, Anitta? Siga com seu corpão maravilhoso e sua inteligência livre. Beijinho no ombro. Afinal, “pra que discutir com madame?” Você em 2022 é top no mundo!
Ana Laura Prates – Possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (1996), doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (2006) e Pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN
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Marcelo Sobreiro
24 de março de 2022 1:58 pmAnitta é a melhor versão atualizada de Cármen Miranda. Simples assim. E palmas pra ela. Yes, nós temos bananas pra dar e vender.
Antonio Uchoa Neto
24 de março de 2022 3:56 pmA inteligência iletrada de Anitta. É um bom eufemismo para a esperteza marqueteira de Anitta.
A inteligência iletrada de Carolina Maria de Jesus (primeiro nome que me veio à mente, ao ler a expressão inteligência iletrada“), e a esperteza marqueteira da “Auto-ajuda”, que durante muito tempo (ou até hoje, não sei, deixei de acompanhar) monopolizou as listas de livros mais vendidos, o que tem em comum? Toda arte, independente de sua origem e propósitos, não é um produto a ser comercializado? Por que não “engolir” – e aqui, me perdoem meu preconceito elitista – a música de Anitta, da mesma forma que consumimos Mozart, ou Tom Jobim? Qual a diferença, a sinceridade ou honestidade dos últimos, e a “descerebração” da primeira? Isso é bobagem.
O que é produto da inteligência iletrada, e o que é produto da esperteza marqueteira?
Fiquemos no campo da música, já que a literatura, ao que parece, caminha a passos largos para a extinção – lado a lado, diga-se, com a capacidade de raciocínio crítico, algo que, evidentemente, entrava o consumo (ou fruição, como queiram) da obra de arte (sic).
Há alguns anos (alguns, kkk…lá pelos anos 80) vi uma matéria de um programa de TV, em sua seção cultural (sim, já existiu isso, uma vez, na telinha da TV, hoje igualmente a caminho do esquecimento), em que Quincy Jones, o brilhante músico e produtor, descrevia o processo de produção do não menos brilhante e bem-sucedido álbum “Thriller”, de Michael Jackson. Cercado de aparatos eletrônicos – alguns com teclados – ele mostrava como iam sendo adicionadas as diversas camadas sonoras da composição, a mixagem com as partes vocais, alguns efeitos sonoros, e pronto: lá estava a faixa completa, redonda, pronta para ganhar o mundo. E eu me lembro de haver perguntado, cá com meus botões: e o compositor, nisso tudo?
Quando Paul McCartney, ou John Lennon (ou, para os mais nacionalistas, João Gilberto, Caetano, Gil, Chico), decidiam compor uma nova canção, o que eles faziam? Eles sentavam ao piano, ou empunhavam um violão, e começavam a buscar sons, uma harmonia, uma linha melódica, vasculhavam a memória à cata de referências e inspiração, e, ao cabo de alguns minutos, horas, ou dias, saíam com uma nova canção, que, devidamente embelezada e carregada de novos significados e arranjos, cujo processo acompanhavam, era transformada em um novo sucesso.
Assim como o escritor – hoje apenas um roteirista – o compositor foi substituído, graças, entre outras coisas, ao famigerado Algoritmo, pelo produtor. Custa crer que a Anitta – e não só ela, mas todas as ludmilas, isas, pablos vittar, etc., que hoje estão no topo – tenham que, como Lennon & McCartney, perder tempo com composição, se dispõem de um produtor – às vezes, uma equipe deles – para produzir sucessos em série, como numa linha de produção.
E é nessa brincadeira – nesse processo de substituição do artesanal pelo industrial – que a inteligência iletrada põe para escanteio a inteligência letrada; estamos na era do tiktok, do kwai, do consumo rápido e instantâneo de tudo, das bebidas lácteas à arte. De tudo.
Sei que nada será como antes; sempre soubemos, apenas o processo acelerou. Nada do que foi será do novo do jeito que já foi um dia. 100% absolutamente certo.
O caminho de Carolina Maria de Jesus para o sucesso – se é que ela, verdadeiramente, desfrutou dele algum dia – pode-se dizer, com certeza, que lhe foi proporcionado pela sua inteligência iletrada. Naquela época, ainda era possível fazer sucesso com um livro. E hoje? As novas inteligentes iletradas, tendo ao seu dispor, além de sua beleza e atributos físicos expostos como carne no açougue, o que poderiam fazer? Escrever um livro? Quem iria ler? Não, não, não. Melhor largar um vídeo no Youtube, uma dancinha altamente sexualizada e explícita, gemidos e sussurros eróticos, e vamos em frente! Excitar-se é melhor que pensar, não dá trabalho e não complica as coisas. E se é possível, ainda por cima, enriquecer com isso, ótimo!
Por fim, apesar de tudo que escrevi, nada tenho contra essas artistas, nem contra seu tipo de música. Mas cresci tendo em mente outro conceito de artista, de música, de tudo, praticamente, e não consigo dar atenção a essa produção intelectual iletrada de hoje. O que pode ser um defeito meu, mas nada há que eu possa fazer. Até a inteligência iletrada do meu tempo era melhor!
E muito sucesso para a Anitta!
José de Almeida Bispo
25 de março de 2022 7:58 pmMarcelo Sobreiro… NA MOSCA!