Buenos Aires, 5 de abril, San Telmo.
Varrendo o Sangue dos Outros
Invariavelmente, caio na realidade, e isso é uma guerra cansativa. Porque trabalho é com a imaginação em forma de escrita, logo, quando soa o alarme do fim desse expediente, tendo a abrir a porta do realismo falseado do mundo comum, desse comum mundo vertiginoso. E abri então as páginas de um jornal. Tenho vertigens e tonteiras, caminhando entre um lado e outro, vendo o que apenas e nada mais consegue meu globo ocular alcançar, pois o que de fora entra vem como cisco no olho. Pisco, pisco, para correr com essa poeira, e nem assim vejo algo melhor. É apenas isso mesmo: a violência de cada dia empurrando um pouco de sujeira em cima de mim. Sinto-me empurrada, por isso, cambaleio, é que estou mesmo com parte do corpo ocupado pela imaginação escrevedora. E que empurra-empurra!
Imaginando passo o tempo voando, e voar significa ir para longe de, assim, imaginar é a ferramenta que tenho à mão para soltar os pés da realidade. Nem sei ao menos como ela se instala, e vou escrevendo desembestada, às vezes, parece até mágica. Mas que sorte que eu a detenho – talvez também porque goste de verdade da cor verde – porque a ferramenta-imaginativa é valiosa e boa, pesada e generosa, ela só quer sentir o alívio de ver arrumado o que estava desconcertado, como as desconcertantes coisas que vejo agora nos jornais. Uf! Suspira quem imagina. Assim, vive-se suspirando e derretendo-se num estado de pura satisfação com os contornos da vida; porque com a imaginação a vida é leve e magnânima, e o homem é um aprendiz entusiasmado dos modos de caminhar com o espírito. Por isso é que tudo é mais leve e aéreo, porque nada se carrega, e o que existe é o abandono como forma de dar e receber. É tudo mesmo muito bom. Ah! E aqui estava eu a imaginar, e a escrever com a boa imaginação, fugindo e indo…
Mas escrevia por despencar concisamente na dita realidade, e lido com isso ao ler agora um jornal, ou melhor, ao passar os olhos piscando e piscando sobre as notícias. E é quando vejo a foto de um corpo no asfalto, um pedaço de corpo sangrando e linchado. Saí correndo e vir-me a abrigar entre esses escritos, sentindo-me zonzeada, aturdida porque voava e de repente aterrissei, caí com a cara no corpo linchado, na cidade de Rosario, que é uma cidade argentina. E foi um jornalista também argentino que me colocou o focinho cheirando essa realidade de um corpo. E se sangue próprio já tem cheiro denso, sangue dos outros na gente é a violência falando e cuspindo em voz alta na nossa cara. E além de escandalosa, a violência é tão ligeira e recheada, só sendo mesmo bem gorda para poder espalhar-se e ocupar tanto. Folgada! Sinto-me travar, sinto-me invadida e sem imaginação, não está a fazer-me bem essa coisa de ler e ver a violência específica na forma de linchamentos. Vou ali passar a palma das mãos na minha planta de lavanda, e perfumar-me um pouco. Esse sangue fétido não é meu, e o menino argentino de 18 anos já morreu e já perdeu todo o sangue seu. Mas a minha imaginação, essa sim pode continuar viva e perfumada em minhas mãos.
Felipe RP
5 de abril de 2014 11:10 pmMas…
…que texto cansativo.
Vai do nada ao lugar um andando em círculos.
Tony
6 de abril de 2014 1:52 amLinchamentos e imprensa
O texto é cansativo mas, você sabe do que ela está falando? Do assunto ao qual se refere?
Tem lido sobre o que é noticia na Argentina nestes últimos dias?
Uma pista: o efeito Sheherazade e os linchamentos atiçados pela imprensa chegou lá…
Tudo para criar um clima de insegurança e sensação de ausência do Estado com interesses eleitorais no desgaste do Governo.
http://www.youtube.com/watch?v=SGWmrcQwADs
http://www.youtube.com/watch?v=WDDBuyKZx0k
Roberto Beijamim
6 de abril de 2014 1:18 am…muito cansativo. acho que
…muito cansativo. acho que o autor deve enviar este texto à um analista.
…andando em circulos meio espiral…me perdoe (ou não), achei meio desnecessário!
Maíra
7 de abril de 2014 7:09 pmOi.
Eu fico mesmo muito agradecida pelos comentários. Sao muito corretos. Já estou armando um novo texto, que aqui será publicado, para conversar-responder vocês três.
Estarei aqui com crônicas todos os sábados.
Um abraço. Maíra.