5 de junho de 2026

A Lava Jato, o Shopping e o deserto do real, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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Imagem: Pixabay

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Antes de começar a ler vide a sugestão no final.

Hoje fui ao Shopping União, em Osasco, sentei-me próximo às escadas rolantes da Praça de Alimentação e fiquei durante quase uma hora vendo o movimento.

Centenas de pessoas desceram e subiram as escadas rolantes ou entraram na praça de alimentação pelo corredor próximo ao local onde eu estava.

Homens, mulheres, crianças. Idosos, adolescentes, brancos, pardos, negros e mulheres de meia idade. Alguns estavam bens vestidos, outros não. Corpos belos e esguios ou deformados e repugnantes, cada qual insulado em seu próprio universo de referências comerciais, emoções bem ou mal resolvidas e preferências políticas. Uma fantástica amostra de heterogeneidade humana desfilou diante de mim.

Sentado em silêncio comecei a divagar sobre a trilogia dos irmãos Wachowski, distopia em que os seres humanos vivem seus sonhos num ambiente virtual enquanto são cultivados como baterias que sustentam a Matrix. Sob o usurpador Michel Temer a Matrix brasileira está sendo destruída, portanto, todas aquelas pessoas estão fadadas a perder sua fonte de sustentação políticas. Alguma delas tem consciência disso, outras não.

Todas falam a mesma língua, duvido muito que elas consigam se entender se começarem a falar sobre futebol, religião e, principalmente, sobre o que deve ou não ocorrer a Lula. Prestes a ser sacrificado como se fosse Neo da trilogia Matrix, o ex-presidente petista deu uma surra no agente Smith da Justiça Federal. Qualquer que seja o destino que Smith imponha a Lula a Matrix brasileira irá inevitavelmente balançar e, eventualmente, reconfigurada. O resultado é incerto tão incerto quanto o destino de Sati ao fim da trilogia.

Durante todo o tempo que fiquei observando o formigueiro humano não vi nenhuma pessoa conhecida. Apesar de cheio de gente, para mim o Shopping é um deserto. O deserto do real.

Educado por Cypher, Neo se torna capaz de ver o que existe por trás da imensa coleção de números e ícones que deslizam em colunas de cima para baixo nas telas dos computadores da nave Nabucodonosor. Alheio ao movimento não consigo mais ver pessoas. Tudo o que vejo são recipientes de urina e de fezes que deslizam escada acima e escada abaixo. A semelhança da composição química do conteúdo de bexigas e intestinos anula qualquer distinção de idade, cor, raça, sexo, religião, ideologia e aparência externa.

Em algum momento todas aquelas pessoas irão ao banheiro e o resultado será o mesmo. Encanamento abaixo toda aquela matéria orgânica chegará inevitavelmente ao Rio Tietê. O que a periferia faz alguns bairros nobres cheiram. Cypher traiu Neo enquanto saboreava uma bisteca. É possível vê-lo trafegando pelos corredores do Shopping União de mãos dadas com o agente Smith de saias que passa falando mal de Lula. Felizmente ela não é capaz de identificar o código sob o qual minha consciência opera.

O deserto do real se torna uma ficção desértica em minha consciência. Não sinto absolutamente nada. Apenas observo o movimento e registro imagens muito diversas daquelas que se apresentam aos meus olhos. Cultivo minha terceira visão para além daquela que foi construída pela televisão. Não vejo mais as lojas que povoam a praça de alimentação. Tudo que vejo é o consumo de propaganda se deslocando escada acima escada abaixo.

Quem realmente precisa comer frango ensopado de óleo no KFC ou tomar um balde de coca-cola no MacDonalds? Com menos dinheiro é possível fazer uma boa refeição em casa. Desgraçadamente,  o lar perde todo seu brilho quando a televisão está ligada e todos querem manter a ilusão acesa. E muitos ficam conectados à Matrix global até quando estão nos seus carros ou num restaurante do Shopping.

No século XIX Marx disse que a religião era o ópio do povo. Se vivesse no século XXI ele provavelmente diria que o povo é entorpecido por uma droga nova droga, pois até a religião se viu obrigada a passar por uma transmutação tecnológica e visual. Neo, a versão cinematográfica de Jesus, enfrenta um Smith que se multiplica ao infinito à medida que toca cada um dos outros personagens.

Lula, este Neo da política brasileira, enfrenta o código destrutivo que diariamente é infiltrado nas consciências de milhões de pessoas pela Matrix global. Sem qualquer freio, o agente Smith da Justiça Federal segue se multiplicando e adquirindo poder para julgar a consciência do réu, para inquiri-lo sobre crimes que não lhe foram atribuídos para condenar Lula porque a inexistência de prova de propriedade do Triplex é evidência inquestionável de ocultação de patrimônio como disse um jornalista da Folha de São Paulo.

Quantos daqueles recipientes de urina e de fezes que deslizam escada acima e escada abaixo gostariam de ser julgados pelos mesmos critérios que estão sendo utilizados contra Lula? Esta pergunta é irrelevante. Todos os que condenam Lula são incapazes de se colocar na posição do réu. Muitos deles são apenas bits que sobem e descem as escadas rolantes de uma Nabucodonosor ancorada na Matrix global que não levará ninguém a lugar algum.

Sugestão de trilha sonora para desfrutar melhor este texto:

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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12 Comentários
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  1. Luis Armidoro

    14 de maio de 2017 2:39 pm

    Caro Fábio
    Faço um

    Caro Fábio

    Faço um comentário, e; perdoe-me se não entendi seu artigo: as pessoas não têm culpa, imagine um sujeito por 20, 30 anos; ouvindo CBN e jovem pig, vendo jornal nacional e sbt, lendo veja. O cara se aliena completamente,e acha que é culpado por seus fracassos (depois de neoliberalismo na veia e no cérebro por 30 anos); não compreende o fechamento de oportunidades, a seleção parcial, canalha e interesseira dos “vencedores”; nem que muitos perdem para poucos ganharem

    1. Renato Lazzari

      14 de maio de 2017 3:06 pm

      “Culpa” talvez não. Mas que

      “Culpa” talvez não. Mas que tal “responsabilidade”? Não é essa turma que diz que o socialismo doutrina?

      O problema está em achar que é normal, natural e definitivo esse modo de viver. Os Flintstones eram capitalistas, os Jetsons também eram (serão?), o tempo parou e a história acabou no neoliberalismo…

      Mas na realidade o tempo só parou e a história só acabou para quem morreu, como esse capitalismo. Nós estamos vivos, tranquilos e atentos. 😉

      1. Luis Armidoro

        14 de maio de 2017 4:33 pm

        Caro enato,muito boa sua

        Caro enato,muito boa sua observação, mas é a diferença entre culpa e responsabilidade considero difícil de distinguir. Como alguém pode ser responsabilizado se, a vida inteira apenas foi induzido a pensar de um modo. Podemos filosofar como hannah arendt e a banalidade do mal; mas vc tem consciênciA do mal. Creio que não, as pessoas não têm essa consciencia (nem nós! quanto fazemos que faz mal a outrem e não percebemos). Devemos, antes de tudo, mostrá-las que há outras maneiras de fazer e pensar

      2. Luis Armidoro

        14 de maio de 2017 4:33 pm

        Caro enato,muito boa sua

        Caro enato,muito boa sua observação, mas é a diferença entre culpa e responsabilidade considero difícil de distinguir. Como alguém pode ser responsabilizado se, a vida inteira apenas foi induzido a pensar de um modo. Podemos filosofar como hannah arendt e a banalidade do mal; mas vc tem consciênciA do mal. Creio que não, as pessoas não têm essa consciencia (nem nós! quanto fazemos que faz mal a outrem e não percebemos). Devemos, antes de tudo, mostrá-las que há outras maneiras de fazer e pensar

  2. Renato Lazzari

    14 de maio de 2017 2:43 pm

    Esse lado de cá do mundo, o

    Esse lado de cá do mundo, o do dólar, começou a enlouquecer depois do final da Segunda Guerra, acreditou que manequins eram humanos e vice-versa – Papai Sabe Tudo e a Feiticeira foram pioneiros -, mas despirocou de vez e vem piorando dia-a-dia desde o Grande Ataque do Capital, iniciado em 2008 e que não será interrompido por nenhum movimento repentino mas paulatina e localmente, na medida em que, de saco cheio, cada um for dando as costas para aquele que se arvora o Grande Irmão e assim encontrar alternativas.

    Nas igrejas só vão os crentes. Mas fora dessas igrejas, onde se reza ao deus consumo, você não está sozinho, caro Fábio.

  3. Paula Regina

    14 de maio de 2017 3:08 pm

    A culpa não é do povo

    Fábio… entendo suas boas intenções, mas seu texto, apesar de belo, acaba sendo preconceituoso com a periferia. As referências de filho de uma classe média alta no Brasil (Matrix, a trilha musical) dão a tônica do retrato feito a partir de um ponto de vista “superior”. A divisão entre os “corpos belos” e os “corpos repugnantes”, os bem ou mal vestidos completam o julgamento de valor que você faz, menos sobre a elite, do que sobre a população do shopping da periferia (de São Paulo ou do globo). Poderia, por exemplo, inverter a fórmula do despejo: o que a elite faz, a periferia também cheira. Quanto à droga nova do século XXI, o consumismo, ela já é velha, e os filósofos falam o século XX: Adorno, Horkheimer, Pasolini, Baudrillard, etc etc etc. Eu não sei quantos anos você tem. Mas a impressão que fica é a de um texto adolescencial. Bem intencionado, mas que beira o preconceito. Citando Glauber Rocha (Terra em transe): “A culpa não é do povo! A culpa não é do povo! A culpa não é do povo”. 

    1. Jorge Leite Pinto

      14 de maio de 2017 4:41 pm

      Primeiramente: Fora

      Primeiramente: Fora Temer!

      Segundamente: feliz dia das mães, Paula, se você o for.

      Terceiramente: “menas ” ódio, por favor. Seu comentário destoa da intenção do Fábio. Apela para um patrulhamento que não tem nada a ver com a essência do texto. Parece coisa de psol…

    2. Fábio de Oliveira Ribeiro

      14 de maio de 2017 5:45 pm

      Você é que está sendo

      Você é que está sendo preconceituosa. Se não fosse, teria prestado atenção no que eu disse:

      “Alheio ao movimento não consigo mais ver pessoas. Tudo o que vejo são recipientes de urina e de fezes que deslizam escada acima e escada abaixo. A semelhança da composição química do conteúdo de bexigas e intestinos anula qualquer distinção de idade, cor, raça, sexo, religião, ideologia e aparência externa.”

      O seu preconceito fica mais evidente quando você diz que eu falei o que não disse. Você diz que o consumismo é um problema antigo. Mas não é dele que eu estou falando:

      “O deserto do real se torna uma ficção desértica em minha consciência. Não sinto absolutamente nada. Apenas observo o movimento e registro imagens muito diversas daquelas que se apresentam aos meus olhos. Cultivo minha terceira visão para além daquela que foi construída pela televisão. Não vejo mais as lojas que povoam a praça de alimentação. Tudo que vejo é o consumo de propaganda se deslocando escada acima escada abaixo.”

      “No século XIX Marx disse que a religião era o ópio do povo. Se vivesse no século XXI ele provavelmente diria que o povo é entorpecido por uma droga nova droga, pois até a religião se viu obrigada a passar por uma transmutação tecnológica e visual. Neo, a versão cinematográfica de Jesus, enfrenta um Smith que se multiplica ao infinito à medida que toca cada um dos outros personagens.”

      o mais pare de citar aleatoriamente autores que não tem qualquer relação com o que você leu. Leia novamente o texto e veja se consegue entender algo. Se não conseguir, vá passear no Shopping, se entupir de coca-cola no MacDonalds e de frango oleoso no KFC como o seu “povo”. O meu não precisa necessariamente frequentar seu templo de consumo.

  4. Jorge Leite Pinto

    14 de maio de 2017 3:39 pm

    Primeiramente: Fora

    Primeiramente: Fora Temer!

    Segundamente: Muito interessante a ótica do texto, repassarei.

    Terceiramente: Bela dica este Psych/Stoner rock alemão de 2007. Não chega a ser um “kraut”, mas cai muito bem com a cerveja escura do domingo…

    Abraço!

  5. Ze Guimarães

    14 de maio de 2017 11:16 pm

    Um dia a Matrix acabará

    Sim, como dizia o agente smith, somos obrigados a encarnar nestes corpos mal cheirosos, ( que por mais que disfarcemos com perfumes, continuam sendo sujeitos a decomposição, e por isto ao mal cheiro ) .

    O próprio Lula é um algoritmo escolhido pela Matrix, digo pela elite. Inconscientemente, simmas mesmo assim ele é. Em 1989, na disputa presidencial, a esquerda tinha Brizola e Lula, a elite abriu fogo cerrado contra Brizola, por ser mais radical e defender a cassação das concessões de TV da mídia, e poupou Lula, deixando-o chegar ao segundo turno. O algoritmo Brizola foi descartado e o algoritmo Lula foi escolhido para ser o ” Neo ” pois era ingênuo e não tinha Maquiavel. . Uma seleção perversa e maquiavélica.

    ————

     

    Um dia a Matrix acaba, não se preocupe. Um dia a elite esgota os recursos naturais do planeta, com sua ganância sem limites, e iremos nos extinguir, seja por poluição atmosférica, e acumulo de CO² na atmosfera, seja por desertificação, esgotamento de recursos, super população causada por explosão demográfica ( que a elite com sua ganância incentiva para conseguir mão de obra barata ).

    A única coisa real aqui é a consciência, que mesmo com o fim do planeta, ou seja, da Matrix, continuará existindo em outros mundos.

  6. P Araujo

    15 de maio de 2017 1:03 am

    trilha sonora

    a trilha casa muito bem com o clima do texto.

    vou escutar depois o disco inteiro desse povo…

    durante a leitura, me veio à mente um curta metragem distópico…

    até porque o que vivenciamos hoje está perigosamente próximo de uma distopia.

     

     

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      15 de maio de 2017 7:34 pm

      Se quiser fazer um curta,

      Se quiser fazer um curta, faça. Se usar o argumento do meu texto cite a fonte de inspiração nos créditos.

      Farei uma pontinha no seu filme. Interpretarei um idiota que come maquinalmente frango do KFCtomando um balde de coca-cola enquanto olha o vazio com uma expressão vazia. Adoro ironias. 

      Ha, ha, ha… 

       

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