Por Carlos Frankiw
Nassif.
Pouco noticiado, volto acá apenas para novamente solicitar que pelo menos se dê uma nota ao falecimento de Affonso Ávila, ocorrido ontem. Não tão conhecido, Ávila certamente foi um dos maiores poetas modernistas mineiros, contemporâneo e equivalente em estilo e inventividade aos sempre incensados irmãos Campos…
Do Hoje em Dia
Em 60 anos dedicados à literatura, Affonso Ávila deixa legado inestimável
Clarissa Carvalhaes e José Antônio Bicalho
“O amor ainda se apura e, embora mudo, faz do silêncio a fórmula de alarde”. Solta assim, a frase – garimpada do poema “Soneto de Amor” – é também um recorte dos dias do poeta Affonso Ávila, falecido na manhã de quarta-feira (26), em casa.
“É uma das expressões mais significativas da poesia brasileira, que soube encontrar na herança barroca de Minas a essência de uma obra original e inovadora, marcada por uma contundente consciência crítica dos fenômenos históricos”, comenta o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo.
E se Affonso soube traduzir, por meio da releitura do barroco, as características basilares da mineiridade, coube a ele ainda carregar o mérito de ser um dos grandes expoentes da literatura mineira contemporânea.
“Destacou-se como escritor, poeta, pesquisador nos estudos sobre o barroco e foi um dos responsáveis pela fundação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG)”, lembrou, ontem, a secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, Eliane Parreiras.
Não por menos, em 2011, o conjunto da sua obra – que passa pelos anos de 1953 até abril último, quando lançou “Égloga da Maçã” – foi reconhecido com o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura em 2011. “Ele continuará sendo fonte de inspiração para muitas gerações”, afiança a secretária, ao Hoje em Dia.
Como garante também o artista plástico Paulo Schimidt que, em 2008, organizou a exposição “Constructopoético – affonso80anosávila”, uma homenagem ao poeta. À época, Ávila contou que desde pequeno era de escrever e rasgar – “só quando chegava a me agradar que guardava”. Sobre a homenagem, completou: “Me sinto surpreso e, ao mesmo tempo, comovido. Isso mostra que há reconhecimento do meu trabalho”.
Responsável pelo grato reconhecimento, Schimidt falou ontem sobre Ávila, comovido. “O que posso dizer é que esse homem é um dos principais poetas do Brasil. Um artista com quem pude trabalhar lado a lado e, desse convívio, guardo uma experiência única”.
Sensibilidade
Pai de cinco filhos e casado com a poetisa Laís Corrêa de Araújo (1929-2006), Affonso recolheu-se em pranto e pessimismo quando a esposa faleceu. Da tristeza nasce o livro “Poeta Poente”.
Em abril último, quando abriu sua casa para receber a reportagem e falar sobre o recente trabalho (“Égloga da Maçã”), Ávila confessou que estava cansado de ser triste e chegou a fazer planos.
O filho Carlos Ávila, também poeta e editor do caderno Cultura do Hoje em Dia, destaca o privilégio de ser filho do escritor. “Ele aflorava sensibilidade humana… Coube a ele e a minha mãe me proporcionarem acesso às diversas manifestações culturais. Eu e meus irmãos crescemos numa casa cheia de livros”.
O poeta também era um gigante no ensaio
Poeta entre os maiores de sua geração, Affonso Ávila também exerceu com o mesmo afinco e sucesso as atividades de pesquisador e ensaísta. Seu foco era o barroco mineiro e seu objetivo, apresentar a originalidade desta que é a primeira manifestação artística genuinamente brasileira.
Em meio às pesquisas, acabou por “tropeçar”, na década de 1960, em dois textos setecentistas que deram origem ao mais importante estudo teórico sobre o barroco mineiro já escrito. Trata-se do livro “Resíduos Seiscentistas em Minas”. Nele, Ávila defende que a arte das igrejas barrocas, opressiva e teatral, era uma projeção da mentalidade, da sociedade e do modo de vida dos setecentos em Minas Gerais.
No livro, ele disseca, pela primeira vez na história da arte brasileira, a ideologia do barroco e o sentido dramático da religiosidade mineira à época do fausto do ouro.
Curiosidades
Os textos, conforme o próprio autor, não eram desconhecidos, mas tratados apenas como curiosidades históricas. São eles o “Triunfo Eucarístico” e o “Áureo Trono Episcopal”, de 1734 e 1749, respectivamente, que narram duas grandes festas públicas acontecidas nas ruas de Vila Rica e Mariana. A primeira, pela inauguração da matriz do Pilar, e a segunda, pela chegada do primeiro bispo a Mariana.
A pompa dos desfiles públicos, sua divisão com diferentes papéis entre as associações religiosas, laborais e classes sociais, a duração das festividades e o luxuoso exibicionismo dos ricos e da igreja, descritos em seus pormenores nos dois textos, serviram para Ávila compor um riquíssimo painel sociológico e psicológico do homem setecentista.
E, deste painel, o autor compreende a riqueza e a incoerência das igrejas mineiras como uma projeção da sociedade que as criou, com sua visão dramática da vida e necessidade do ambiente teatral para realizá-la.
Ávila foi generoso com os “não iniciados”
Ávila foi um ensaísta profícuo. Além do fundamental “Resíduos Seiscentistas”, produziu vasta obra de análise da arte barroca, na qual também se destaca o profundo – e pouco amigável – “O Lúdico e as Projeções do Mundo Barroco”, quase que como extensão da teoria iniciada no “Resíduos”.
Mas Ávila, acima de sua importância teórica, era autor de grande generosidade: assinou outros dois livros fundamentais para os que dão os primeiros passos na teoria da arte mineira, hoje encontrados apenas em sebos: “Iniciação ao Barroco Mineiro” e o pequeno (mas maravilhoso) texto introdutório do “Barroco Mineiro: Glossário de Arquitetura e Ornamentação”.
Outra faceta do autor foi a de agitador cultural, tanto na poesia quanto na promoção de eventos e publicações de vanguarda, como no estudo crítico da arte, principalmente por meio da Revista Barroco, iniciada em 1969. Já em seu primeiro número, a iniciativa apresentou-se como fórum de ideias e debates aos principais historiadores da arte, contemporâneos de Ávila, unindo brasileiros e estrangeiros, sem qualquer resquício de provincianismo.
Secretariada por Hélio Gravatá, a revista tinha, entre seus colaboradores, assíduos nomes como o do diretor do Louvre, Germain Bazin, e grandes historiadores da arte brasileira, como Benedito Nunes, Court Lange e Carlos Del Negro.
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