
“Pega a pisada!”: os ventos da boa fortuna sopram para “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”
por Carlos Didier
Eduardo Pontin e Francisca Sousa, os autores de “Vamô vadiá nesta Lezeira”, que pensaram grande e miraram alto, entregaram maior e mais elevado ainda. Um projeto sobre a Lezeira, a “dança mais característica” do Piauí, cuja peça central, mas não a única, é um livro, fruto de 2 anos de pesquisa de campo no sertão daquele estado. Um livro que, apesar de trazer como epígrafe a advertência “Este não é um livro de ciência, é um livro de amor”, criada por Mário de Andrade para o seu “Na pancada do ganzá”, se revela tanto de amor quanto de ciência.

Lezeira da Comunidade Boa Vista de Picos | Foto: Francisca Sousa
Uma pesquisa que resultou na captura do depoimento de 150 brincantes, na colheita de 1.000 quadrinhas populares, nas fotografias de todos os cultivadores e ambientes da dança, assim como na gravação “in loco”, com disponibilização na internet, de 6 dezenas de obras daquele “cancioneiro ancestral”.

Álbum digital disponível no livro
Um projeto que promoveu o reconhecimento oficial pelo Piauí da importância individual dos mestres cantadores e coletiva da Lezeira.

Chiquim Ferreira recebe em Teresina certificado de Patrimônio Vivo do Piauí
Um livro cujo capítulo mais tocante talvez seja aquele que indica a provável origem indígena da dança. Isso em função da “pisada”, traço fundamental da coreografia, presente na orientação de mestre Gabiru em “Barquinha de Noé”: “Pega a pisada!”.

Dança de roda indígena brasileira retratada em 1817 por Maximilian, Príncipe de Wied-Neuwied
De modo que os leitores do livro, os ouvintes das gravações e os observadores das fotografias têm a sensação de testemunhar um feito que equivale à soma daquele da colheita de versos por Sylvio Romero com o do registro de cantigas e de imagens pela Missão Folclórica de Mário de Andrade. Um projeto que marca um salto de qualidade de Eduardo Pontin e Francisca Sousa, dois bravos guerreiros da cultura popular brasileira. Uma leitura emocionante para todos aqueles que, como eu, aprenderam a amar a arte genuína do povo brasileiro.

Gravação feita ao ar livre durante a Missão de Pesquisas Folclóricas idealizada por Mário | Acervo Centro Cultural São Paulo (Torrelândia, João Pessoa – PB)
E agora, quando os ventos da boa fortuna sopram para “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, além da pesquisa, do texto e das fotos, brilharam, por certo, aos olhos dos jurados do Prêmio Jabuti o projeto gráfico de Francisca Sousa e a diagramação de Eduardo Pontin, assim como os registros sonoros, feitos por Zé Dantas, nos chãos do Piauí.
Tudo isso junto operou o quase milagre de encantar intelectuais em geral distantes da beleza das coisas do nosso folclore.
O Brasil de Mário de Andrade existe e resiste.

Nosso melhor aplauso aos autores de “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”.
Carlos Didier, além de biógrafo de Noel Rosa, é engenheiro, compositor, cantor, violinista, historiador e pesquisador da música popular brasileira.
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