5 de junho de 2026

Fernando Pessoa: O Desassossego de Bernardo Soares, por Jorge Alberto Benitz

Daí o título de mestre, uma projeção solar do que gostaria de ser
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Fernando Pessoa: O Desassossego de Bernardo Soares

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por Jorge Alberto Benitz*

Depois de ler Bernardo Soares
Heterônimo de Fernando Pessoa
Parece que ser poeta, escritor
É ser triste, entediado
Nauseado
Desassossegado

Alberto Caeiro
É caso à parte
Entre os heterônimos
De Fernando Pessoa
É ideal do eu
Daí o título de mestre
Uma projeção solar
Do que gostaria de ser
Sem a aflição
Inação
Mortificação
Do criador Pessoa
E seus outros heterônimos

Ele, Bernardo Soares
A mais perfeita tradução
De viver numa bolha
Ser uma mônada
Ser alguém inadaptado
A vida normal e cotidiana
Voltado para dentro
O mundo fora de si, o outro
Visto como algo hostil, perigoso
Indesejado

Por que ler então
Tamanho desfilar de lamentação
Inação, tédio?
Às vezes me faço esta pergunta
Por estar correndo o risco
De ser contaminado
Por esta leitura contraindicada
A quem, como eu,
Já teve depressão
E logo me ponho de novo
Lendo fascinado
Estas aventuras mórbidas
De alguém que em nada
Reflete o que sou agora

Gosto de ação
Gosto de viver
Gosto de pessoas
– Não todas, claro –
Gosto de viajar
Conhecer novos lugares
Pessoas e culturas diferentes
Amar, rir
Conversar
Interagir
Ser

Ao contrário do pregado
Por Bernardo Soares 
“Eu” mutilado de Fernando Pessoa
– Como este se referia a seus heterônimos –
Acho ler, escrever
Um trabalho como qualquer outro
Pura e nobre ação
E não uma mortificação
Não sento em cadeira de prego
– Como disse um poeta –
Para escrever
Escrever, para mim,
É sinônimo de prazer

O que nele me fascina
É a descrição de alguém diferente
Que vive para dentro
Exilado de viver
Praguejando seu nascer
Se sentindo um não- ser
Uma aberração
E assim refletindo
Mesmo sem querer
Seus iguais
Neste padecer

E também a nós
Inadaptados ao
Senso comum  
Meio borderline
Em rota de colisão
Ao chamado
Mundo normal
Mundo são

E também a nós neuróticos
– Que fogem dos estereótipos
Que não se enquadram
São vistos como estranhos
Esquisitos, medonhos –
Que em algum momento
De nosso viver
Cai neste poço
Neste inferno
Neste estar morto
Sem morrer

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn”      

*Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem um ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected] . A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

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2 Comentários
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  1. luci

    26 de junho de 2023 9:58 am

    muito bom

    1. jorge alberto benitz

      9 de março de 2024 6:56 pm

      Obrigado, Luci.

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