Fernando Pessoa: O Desassossego de Bernardo Soares
por Jorge Alberto Benitz*
Depois de ler Bernardo Soares
Heterônimo de Fernando Pessoa
Parece que ser poeta, escritor
É ser triste, entediado
Nauseado
Desassossegado
Alberto Caeiro
É caso à parte
Entre os heterônimos
De Fernando Pessoa
É ideal do eu
Daí o título de mestre
Uma projeção solar
Do que gostaria de ser
Sem a aflição
Inação
Mortificação
Do criador Pessoa
E seus outros heterônimos
Ele, Bernardo Soares
A mais perfeita tradução
De viver numa bolha
Ser uma mônada
Ser alguém inadaptado
A vida normal e cotidiana
Voltado para dentro
O mundo fora de si, o outro
Visto como algo hostil, perigoso
Indesejado
Por que ler então
Tamanho desfilar de lamentação
Inação, tédio?
Às vezes me faço esta pergunta
Por estar correndo o risco
De ser contaminado
Por esta leitura contraindicada
A quem, como eu,
Já teve depressão
E logo me ponho de novo
Lendo fascinado
Estas aventuras mórbidas
De alguém que em nada
Reflete o que sou agora
Gosto de ação
Gosto de viver
Gosto de pessoas
– Não todas, claro –
Gosto de viajar
Conhecer novos lugares
Pessoas e culturas diferentes
Amar, rir
Conversar
Interagir
Ser
Ao contrário do pregado
Por Bernardo Soares
“Eu” mutilado de Fernando Pessoa
– Como este se referia a seus heterônimos –
Acho ler, escrever
Um trabalho como qualquer outro
Pura e nobre ação
E não uma mortificação
Não sento em cadeira de prego
– Como disse um poeta –
Para escrever
Escrever, para mim,
É sinônimo de prazer
O que nele me fascina
É a descrição de alguém diferente
Que vive para dentro
Exilado de viver
Praguejando seu nascer
Se sentindo um não- ser
Uma aberração
E assim refletindo
Mesmo sem querer
Seus iguais
Neste padecer
E também a nós
Inadaptados ao
Senso comum
Meio borderline
Em rota de colisão
Ao chamado
Mundo normal
Mundo são
E também a nós neuróticos
– Que fogem dos estereótipos
Que não se enquadram
São vistos como estranhos
Esquisitos, medonhos –
Que em algum momento
De nosso viver
Cai neste poço
Neste inferno
Neste estar morto
Sem morrer
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*Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.
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luci
26 de junho de 2023 9:58 ammuito bom
jorge alberto benitz
9 de março de 2024 6:56 pmObrigado, Luci.