Conversa entre Luis Nassif e o jurista Lênio Streck, gravada para o programa da TV GGN 20 horas. Partindo do fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo, os dois usam o futebol como metáfora para discutir o momento político e institucional do Brasil. Transcrição e organização por Inteligência Artificial.
A Copa como espelho do país
A conversa abre com o fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo, tratado como ponto de partida para uma discussão sobre o Brasil. Nassif lembra a financeirização que tomou conta do futebol — preços de ingressos que afastaram o povo dos estádios — e Lênio anuncia coluna em que usa o conceito de niilismo, de Nietzsche, para ler o episódio: uma “crônica de um fracasso anunciado”. O futebol, que era espaço de catarse popular, virou espaço comercial dominado pela burocracia, que “tirou o laço” e o improviso do jogo.
Apatia, vigilância e o medo de ousar
Os dois estendem o diagnóstico ao país: apatia que ninguém consegue explicar desde os anos da Lava Jato, movimentos de massa irracionais, e uma sociedade sob vigilância permanente das redes sociais, em que o medo do cancelamento inibe qualquer ousadia. A metáfora central da conversa aparece aqui: como o time que não dribla mais e devolve a bola ao goleiro, o governo prefere recuar — não mexe na segurança pública, não enfrenta a questão dos juros — com medo de ser criticado por “perder a bola”.
A escassez de craques — no campo e na política
Assim como a seleção não tem mais um grande craque, a política não produz mais grandes figuras. Lênio contrasta os oradores de outros tempos — Ulisses Guimarães, Freitas Nobre — com o padrão atual de “delegado fulano” e “gilson da federal”. O centroavante desconhecido que estreia na Copa é comparado ao ministro burocrata de qualquer governo: está ali para não fazer nada e aparecer na fotografia.
Potencial desperdiçado e a política da entrega concreta
O paradoxo apontado: o Brasil reúne um dos conjuntos mais fortes de possibilidades de desenvolvimento — terras raras, energia, Amazônia — mas o governo, amarrado pelo jogo político, empurra tudo com a barriga. Nassif observa que Lula acredita na entrega do concreto (Bolsa Família, financiamento) e abre mão do “sonho”, do projeto de futuro construído a partir de ideias, capacidade de imaginação que o país perdeu desde a Constituinte.
Raízes do Brasil: patrimonialismo e capitalismo chapa-branca
Discussão sobre as raízes da crise: o patrimonialismo que mistura a casa e o jardim (o público e o privado), os penduricalhos do Judiciário, e um capitalismo dependente de subsídios — “chapa-branca” — paradoxalmente defendido pelos editoriais liberais. A soma de tudo, diz Lênio, é uma “tempestade perfeita”.
Lula e as concessões
Avaliação do papel de Lula: salvou o país da barbárie em vários momentos, mas fez tantas concessões que, “no final do dia, eles venceram”. A falta de institucionalidade e de governabilidade mata as iniciativas e a criatividade — seja do time, seja do país.
Antígona e Creonte: o público contra o privado
Lênio recorre à mitologia grega para explicar o Brasil: na tragédia de Sófocles, Creonte governa a partir da lei da cidade e Antígona defende o interesse pessoal e familiar. O Brasil teria feito a “opção Antígona”: cada um cuida primeiro do seu interesse individual — do caso Master aos penduricalhos, da política de subsídios a aplicativos em vez de política pública — e ninguém cuida do direito de todos, da pólis.
A incapacidade de pensar o coletivo
Nem os empresários escapam: ao contrário da lição de Ford (salários fortes criam o mercado que beneficia as empresas), o empresariado brasileiro pensa apenas no ganho individual. São raros os pactos fundadores na história — os “pais fundadores” americanos, o acordo das províncias argentinas. No Brasil, com exceção da Constituinte de 88, as mudanças sempre vieram de fatores externos (1930, os anos 50), e o projeto de consolidação de uma classe média foi destruído pelo golpe de 64. Do antigo pacto da Constituinte surgiu o Centrão, hoje quase sempre um elemento de impedimento de conquistas.
O presidencialismo refém do parlamento
Diz Lênio que a Constituição foi sendo alterada até produzir uma espécie de parlamentarismo de fato: o presidente da República, sem maioria, depende dos presidentes da Câmara e do Senado e dos acordos com o Centrão, que cobra seu quinhão. Como o goleiro que só recua, o presidente não tenta “driblar o meio-campo”. As emendas parlamentares — 42 bilhões citados para o ano — são o preço dessa dependência.
Caso Master, “Lava Jato 2” e os ataques ao Supremo
No episódio recente do Banco Master, um grupo da Polícia Federal teria tentado repetir a Lava Jato, mirando não uma pessoa, mas o próprio Supremo — para derrubar qualquer barreira ao seu poder. O STF, ainda que machucado, resistiu e impediu a continuidade desse jogo de violência. Lênio lembra que o Supremo foi protagonista mesmo sem querer: na pandemia, nas grandes questões orçamentárias e existenciais do Estado — e paga até hoje o custo desse protagonismo. O “efeito rebote” lavajatista, porém, é um bumerangue que sempre volta.
A irracionalidade da mídia
Crítica dura à grande mídia: numa divisão que já não é esquerda contra direita, mas democracia contra selvageria, a mídia só tem poder na democracia — e ainda assim embarca periodicamente na “síndrome da Lava Jato”, explorando casos de forma irracional e atrapalhando inclusive as críticas legítimas ao governo. A liberdade de expressão foi usada para sustentar a autodestruição da democracia (o acampamento diante dos quartéis), e instituições como o Ministério Público não processaram quem incitou o golpe.
Eleições, soberania e o vazio de renovação
Com a nova eleição se aproximando, recomeça o ciclo: especula-se se o perdedor aceitará o resultado, entrevistam-se militares. A soberania nacional é retórica — o Brasil não tem soberania digital nem de defesa. A esperança de renovação a partir dos estados (como o consórcio do Nordeste) também se esvaziou, e a dicotomia que importa já não é direita contra esquerda, mas civilização contra barbárie.
Encerramento: o exemplo mexicano
Nassif encerra citando o discurso da presidente do México sobre o que significa ser de esquerda — solidariedade contra individualismo — e sugere que o Brasil precisa de um chacoalhão semelhante. Lênio conclui: quem ganha eleição governa, quem quer mudar a Constituição o faz pelas vias institucionais — é assim na democracia. Sem um parlamento hostil ao presidente, ao Supremo e ao próprio povo, seria possível fazer as reformas sociais estruturais. Enquanto isso, o presidente segue “devolvendo a bola ao goleiro”.
Paulo Dantas
11 de julho de 2026 10:25 amVivemos democracia e ditaduras , governos progressistas , de centro e de extrema-direita.
Ganhamos e perdemos copas , times bons e ruins , boas e más campanhas.
Não tem causa e efeito , podem forçar a barra que quiserem.
Minha humilde opinião
Mas o futebol nacional precisa se repensar.
Luiz Fernando Juncal Gomes
11 de julho de 2026 4:29 pmNa bola, na bala e na bolinha
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A “intervenção norte americana” na Copa 2026 provocou lembranças remotas. Colecionei a revista Placar, lançada em 20.03.1970, do número 1 até mais de 200 exemplares. Aguardava a chegada da revista em Bauru toda quarta-feira, sentado na calçada ao lado da banca.
Placar tinha um time de jornalistas de primeiríssima qualidade, que se refletia no texto primoroso e reportagens inusitadas. E na página central, dupla, nada menos que a genialidade do Henfil. Os cartuns da Copa 70 foram antológicos.
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Uma reportagem em especial marcou na memória. Era sobre o União Bandeirantes Futebol Clube, de Bandeirantes (PR), time fundado em 1964 pelo folclórico e polêmico Serafim Meneghel (1932/2020), que também patrocinava o time através da sua usina de açúcar e álcool. E era o presidente do clube, claro. Mandava os jogos em casa no Estádio Comendador Luiz Meneghel, patriarca da família, onde raramente perdia um jogo. Ou seja, os Meneghel mandavam não só no clube, mas na cidade.
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A quase invencibilidade, segundo a reportagem, era o modus operandi do Serafim Meneghel, que ficava no gramado ao lado do bandeirinha que marcava o ataque do União Bandeirantes, nos dois tempos do jogo, andando junto, ao lado. Detalhe importante: na cintura, Meneghel ostentava um revólver no coldre.
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Mas não acabou, no intervalo o time era turbinado com um “estimulante” vigente na época, a “bolinha”, nome popular que se dava a anfetaminas tipo pervitin, muito em voga entre 1960/1980. Daí o título da reportagem em tom bem-humorado “Na bola, na bala e na bolinha”.
Trump Meneghel deveria ter feito um estágio 6 meses antes da Copa em Bandeirantes (PR), para se inteirar junto à família Meneghel dos procedimentos de como ser invicto jogando em casa.
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Do Google, por ocasião da morte do Serafim Meneghel, em 2020:
“Meneghel fundou o União Bandeirante em 1964. O time era patrocinado pela empresa de açúcar e álcool da família. Foram 42 anos de parceria e história. A equipe mostrava força em casa e foi vice-campeã paranaense por cinco vezes: 1966, 1969, 1971, 1989 e 1992.
Como dirigente, Serafim Meneghel era polêmico e colecionou histórias – verídicas ou não. O fato é que ele várias vezes entrou no gramado para reclamar com a arbitragem. Uma vez teria feito o árbitro mudar um pênalti já marcado e dar impedimento para outro time.
Entre as lendas, a mais famosa é que Meneghel um dia teria atirado na bola em um jogo para evitar que um pênalti fosse cobrado. Isso teria sido contado por um repórter na época com a intenção de promover as contratações da dupla Tião Abatiá e Paquito.”
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Trump Meneghel teria entrado com um tanque de guerra.