Mais um assassinato de jornalista na criminosa lista de Israel. Um “rogue state” avalia Reginaldo Nasser

A repercussão na mídia mundial do assassinato de Abu Akleh é importante, mas não é suficiente, avaliam analistas.

Mais um assassinato de jornalista na criminosa lista de Israel. Um “rogue state” avalia Reginaldo Nasser

por Arnaldo Cardoso

Com a atenção da mídia ocidental ainda concentrada na guerra na Ucrânia enquanto outras atrocidades continuam seu curso sangrento, um novo assassinato de jornalista por forças israelenses ocorreu no último dia 11 e quebrou um ensurdecedor silêncio.

A jornalista palestina Shireen Abu Akleh, de 51 anos, trabalhava para a Al Jazeera desde 1997 e desfrutava de respeito internacional pelo trabalho jornalístico que realizava bem embasado numa visão histórica da Palestina e do mundo árabe.

Sua morte com um tiro na cabeça, no território ocupado de Jenin, na Cisjodânia, mesmo usando capacete e colete próprio para identificação de profissionais de imprensa no trabalho, soma-se a uma série de outras violências e assassinatos de jornalistas nos últimos anos por forças de segurança de Israel, sugerindo um padrão, numa tentativa de silenciar aqueles que trabalham para expor as atrocidades contra os palestinos. (Atacar jornalistas é marca de governos despóticos e isso também os brasileiros têm tido mais uma infeliz oportunidade de constatar).

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No caso da Al Jazeera, no ano passado seu escritório na Faixa de Gaza foi alvo de ataques aéreos israelenses bem como outros prédios que abrigavam organizações de mídia.

A repercussão na mídia mundial do assassinato de Abu Akleh é importante, mas não é suficiente, avaliam analistas.

Em artigo do Sultão Barakat, diretor do Centro de Conflitos e Estudos Humanitários do Instituto de Doha, publicado pela Al Jazeera, ele refutou tentativas torpes de explicação desse assassinato por autoridades israelenses e sentenciou que “Foi um assassinato destinado a silenciar vozes palestinas, intimidar jornalistas palestinos e obscurecer a verdade”. Defendeu ainda que esse assassinato seja investigado por um órgão internacional, sendo o TPI (Tribunal Penal Internacional) o mais adequado.

No Brasil, o cientista político Reginaldo Nasser, livre docente em relações internacionais e pesquisador sobre o Oriente Médio, com diversos artigos e livros publicados, gravou para a Carta Capital uma análise em que reiterou críticas que faz há anos acerca de como age Israel na Palestina “faz o que quer, não há punição, não há contrapoder”, em seguida classificou Israel como um “rogue state”.

Reginaldo Nasser, que recentemente lançou o livro sob sua organização, intitulado “Revolta, conflitos e os novos caminhos da Geopolítica: as interconexões entre o Oriente Médio e a América Latina” observou com ironia no vídeo para a Carta Capital que “a palavra da onda é autodeterminação; claro, quando a questão se refere a europeus, apoiados pelos Estados Unidos, mas quando não é assim, autodeterminação não vale”. 

Mesmo reconhecendo que essa repercussão do assassinato da jornalista Abu Akleh possa redundar em posterior esquecimento e somente juntar-se a uma série de outros, Nasser defendeu a importância da mídia, principalmente da independente, no cumprimento das nobres funções do jornalismo livre e investigativo, que honra a luta daqueles que tombaram. Também mencionou o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) que visa “acabar com o apoio internacional para a opressão dos palestinos por Israel e pressionar Israel a respeitar o direito internacional”. Reginaldo ainda lembrou que “estratégia semelhante foi utilizada contra o apartheid na África do Sul, pelos movimentos antirracistas”.

Do povo palestino para o mundo a mais admirável lição é sua capacidade de lutar, resistir e sonhar como bem ressaltou Reginaldo Nasser.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela PUC-SP, escritor e professor universitário.

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