O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no segundo trimestre de 2023 superou as expectativas de muitos analistas, mas a composição do crescimento gera uma postura mais cautelosa por parte de economistas.
Contudo, os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam uma análise mais cautelosa por conta da desaceleração dos principais componentes do indicador no acumulado do ano (soma dos últimos quatro trimestres contra os quatro trimestres anteriores).
“Vale ressaltar serviços, que sai de 3,9% para 3,3% e a indústria de 2,4% e 2,2% nesta janela de análise. Pela demanda, a formação bruta de capital decresce quase 1 p.p, de 2,7% para 1,7% neste último dado, indicando uma retomada dos investimentos na economia real ainda tímido do que esperado”, diz Roberto Ivo, economista e professor da Escola Politécnica da UFRJ.
Tal percepção é compartilhada por Matheus Pizzani, economista da CM Capital. “Ao contrário dos três primeiros meses do ano, quando a agropecuária e as importações tiveram papel de destaque, vimos alguma reação dos motores domésticos de crescimento no segundo trimestre, muito embora ela tenha sido causada por motivos que não necessariamente um crescimento orgânico da nossa economia”.
Segundo Pizzani, os dados destacaram a dependência da indústria do desempenho do setor extrativo – influenciado pelo setor externo, o que gera um prognóstico pouco animador para os próximos meses diante da perspectiva de desaceleração global.
“Neste caso, a menos que haja uma guinada muito forte nos resultados econômicos da China, acreditamos ser pouco provável que o bom desempenho da indústria se mantenha até o fim de 2023”, diz o economista.
No caso do segmento de transformação, Pizzani diz que a queda da Selic não deve ser fator decisivo para a construção de uma trajetória de melhora sustentada, “uma vez que os efeitos da política monetária são extremamente defasados no Brasil, e a taxa de juros seguirá como um fator extremamente restritivo para o investimento privado”.
Consumo das Famílias
O economista Mateus Pizzani destaca ainda o consumo das famílias, apesar do seu desempenho expressivo no período: o primeiro ponto destacado é o papel dos estímulos governamentais, que não devem se manter um período prolongado de tempo a não ser que os objetivos em termos de resultado primário sejam deixados de lado.
“Além disso, o mau desempenho do setor de serviços, que possui elevada capacidade de incorporação de mão de obra, ratifica a possível piora no mercado de trabalho que deve ocorrer no segundo semestre deste ano, o que pode ter forte impacto sobre o consumo das famílias”, ressalta.
A queda da inflação é um vetor positivo citado, mas não deve ter a força necessária para impulsionar os dados do grupo, “visto que este é um processo que afeta majoritariamente famílias com nível de renda mais baixo (…)”.
Segundo Roberto Ivo, a formação bruta de capital decresce quase 1 p.p, de 2,7% para 1,7% neste último dado, indicando uma retomada dos investimentos na economia real ainda tímido do que esperado. “Nota-se nesta mesma base de comparação uma desaceleração do consumo das famílias (4,5% para 3,9%), dado o endividamento ainda da população e taxa de juros ainda em níveis elevados”, ressalta.
Para o economista, a variável que ainda sustentará a demanda agregada será a balança comercial (exportações menos importações), por conta da taça de câmbio e elevação de preço das commodities ainda favorável para os exportadores que recebem maiores rendas.
José Carvalho
5 de setembro de 2023 4:38 pmApesar do termo avanço usado acerca do resultado do PIB no período avaliado, a realidade é que como o País tem se demonstrado muito acanhado nos últimos tempos em seus ânimos, sempre se parte de previsões baixas e pouco animadoras. Por essa razão, a “surpresa” pelos números verificados nesses trimestres recentes estar acima do esperado, não representa muito. O poder de fogo dos segmentos impulsionadores para uma retomada animadora, ainda precisa solução. Tanto consumo quanto investimento dependem de uma demanda agregada que se mantenha e com a restrição do crédito será preciso criatividade para dar fôlego às atividades. Voltar a crescer a economia formal, que possui atividades mais efetivas nas possibilidades de ampliação do conjunto econômico e maiores transferências na dinâmica entre todos, é um fator a ser olhado. Mudar as perspectivas será fundamental para o País sair dessas análises baseadas em tempo passado e prospectar no tempo adiante. Mesmo com expectativas não otimistas, a economia mostra mais que o esperado. Isso é um bom incentivo.