O papel global do dólar, há décadas dominante nas transações internacionais, enfrenta questionamentos crescentes — e a história pode oferecer pistas sobre o que vem pela frente.
Para o economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley e ex-assessor do Fundo Monetário Internacional, o debate atual sobre o futuro da moeda americana ecoa experiências de outras moedas que já ocuparam posição semelhante, como a libra esterlina britânica — e, mais profundamente, o denário romano.
Considerado por muitos como a primeira moeda verdadeiramente internacional, o denário do Império Romano circulava não apenas na Europa, mas também ao longo da Rota da Seda, chegando à Ásia. Sua força estava apoiada em pilares claros: comércio robusto, estabilidade política, padronização monetária e confiança institucional.
Durante cerca de três séculos, o teor de prata da moeda permaneceu estável, garantindo previsibilidade e segurança nas transações. Esse ambiente favoreceu a expansão comercial e até o surgimento de formas primitivas de crédito, antecipando características dos sistemas financeiros modernos.
Quando o poder corrói a moeda
Esse equilíbrio, no entanto, começou a ruir com a concentração de poder político. Sob o imperador Nero, o Império Romano passou a reduzir o teor de prata do denário — uma prática conhecida como desvalorização — para financiar gastos crescentes, incluindo guerras, obras públicas e reconstruções após o grande incêndio de Roma em 64 d.C.
A medida abriu caminho para um ciclo de perda de confiança. Moedas antigas passaram a ser acumuladas ou derretidas, enquanto novas emissões, com menor valor intrínseco, inundavam a economia. Em poucos séculos, o denário perdeu sua relevância internacional.
Em artigo no Project Syndicate, Eichengreen traça paralelos com os Estados Unidos de hoje: embora o país não tenha promovido uma desvalorização direta do dólar, cresce entre investidores o temor de um processo indireto, impulsionado por dívida pública elevada e pressões sobre a independência do Federal Reserve.
Além disso, mudanças geopolíticas também pesam. A ascensão da China como potência comercial e o uso de tarifas pelos EUA têm incentivado outros países a fortalecer relações fora da órbita americana, reduzindo a centralidade do dólar.
Os custos fiscais de operações militares, especialmente no Oriente Médio, ampliam a preocupação com o endividamento e com a capacidade dos EUA de sustentar sua posição dominante.
Outro ponto crítico é o ambiente político interno: a concentração de poder e o enfraquecimento de instituições podem minar a confiança na moeda — um fator tão relevante quanto fundamentos econômicos.
Nesse contexto, o governo do presidente Donald Trump aparece como elemento de incerteza, especialmente diante de críticas sobre interferência institucional e aumento do protecionismo.
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