O fim da paralisação de 43 dias do governo dos Estados Unidos (o chamado shutdown) acende um alerta sobre a saúde e a qualidade dos dados econômicos do país.
Diante da retomada das atividades governamentais, o Bureau of Labor Statistics (BLS) enfrenta uma corrida para divulgar relatórios vitais que ficaram represados, especialmente os de emprego e inflação referentes a setembro e outubro de 2025.
A ausência desses indicadores — notavelmente o Relatório de Emprego (que inclui a taxa de desemprego e a criação de vagas) e o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de outubro — cria uma perigosa “cegueira de dados” em um período crítico.
Dados Irrecuperáveis
A maior preocupação se concentra nos dados de outubro, o único mês completo em que a instituição responsável pela divulgação de dados estatísticos norte-americanos permaneceu com suas operações de coleta de dados paralisadas.
– Relatório de Emprego (Outubro): Embora os dados de folha de pagamento (payrolls), coletados de empresas, possam ser mais facilmente recuperados de forma retroativa, a pesquisa domiciliar (household survey), usada para calcular a taxa de desemprego, é considerada irrecuperável por especialistas. Isso significa que o país pode ficar sem uma taxa de desemprego oficial para outubro, um marco inédito e perturbador.
– Índice de Preços ao Consumidor (CPI – Outubro): Este relatório é altamente dependente da coleta de dados de preços em lojas, feita por agentes do BLS. Especialistas estimam que cerca de 70% desses dados são perdidos e não podem ser reconstruídos. O resultado pode ser um índice parcial, de qualidade comprometida, ou até mesmo o cancelamento total da divulgação do CPI de outubro.
A Casa Branca chegou a manifestar preocupação de que os relatórios de outubro podem ter sido “permanentemente danificados”, prejudicando o sistema estatístico federal e deixando o Federal Reserve (Fed) “voando às cegas”.
Risco para o Fed e a Economia Global
A falta de informações confiáveis acontece às vésperas da reunião do Federal Reserve, o Banco Central norte-americano, que vai debater a política monetária na última reunião do ano, programadas para dezembro.
Existe a possibilidade de a autoridade monetária efetuar um terceiro corte nas taxas de juros este ano, mas para isso são necessários dados claros sobre a trajetória da inflação e a saúde do mercado de trabalho.
Economistas alertam que a incerteza gerada pela falta de dados, combinada com o impacto direto da paralisação (como a perda de rendimentos de funcionários federais e a interrupção de contratos), deve pesar sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre de 2025.
O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) estimava que a paralisação reduziria o crescimento anualizado do PIB real no 4º trimestre de 2025 em até 2,0 pontos percentuais, dependendo da sua duração.
Os mercados e formuladores de políticas globais, que dependem dos EUA como âncora econômica, também ficam em estado de névoa, o que pode complicar suas próprias decisões de política monetária.
A expectativa é que os primeiros relatórios a serem divulgados sejam os que estavam quase finalizados antes do shutdown, como o relatório de emprego de setembro.
No entanto, devido à gravidade da paralisação e à condição enfraquecida do BLS — que perdeu cerca de 25% de sua equipe desde fevereiro e tem um terço de seus cargos de liderança vagos —, o retorno à normalidade no calendário de dados pode levar meses, possivelmente até o início de 2026.
(Com Axios e Washington Examiner)
Rui Ribeiro
14 de novembro de 2025 10:03 amPor que a economia dos EUA vai bem, mas os americanos dizem que não é bem assim
Indicadores mostram crescimento e inflação sob controle, mas a percepção do consumidor conta outra história. Entenda o que explica o “paradoxo econômico americano”
https://fastcompanybrasil.com/money/por-que-a-economia-dos-eua-vai-bem-mas-os-americanos-dizem-que-nao-e-bem-assim/
Paulo Dantas
20 de novembro de 2025 11:51 amDá para estimar o mês faltante pela média do anterior e posterior com algum erro.