Maratona GGN: Cláudio Couto e a tese da grande saída pelo centro

Para cientista político, tese integra análise de falsa simetria – uma vez que existe polarização política, mas não existe simetria

Claudio Couto, cientista político e professor da FGV. Foto: Reprodução

Jornal GGN – O termo polarização tem se tornado frequente nos debates políticos, e a mídia o têm utilizado com frequência ao mencionar embates envolvendo esquerda e direita. Contudo, a conjuntura atual, com o bolsonarismo nos holofotes, não pode ser considerada polarizada.

Uma alternativa que a grande mídia tem se utilizado é de buscar uma saída pelo centro – ou, no caso, tentar chamar a atenção para candidatos que não sejam de esquerda, ou que tenham alguma ligação com a extrema-direita. Contudo, como explica o cientista político Cláudio Couto, a saída pelo centro é uma tese e não um fato.

“Essa grande saída pelo centro é, antes de mais nada, uma tese e não um fato. É parte da análise de uma falsa simetria, porque nós não estamos falando de opostos simétricos. Há uma polarização, mas não há simetria”, afirma Couto, que participou da Maratona GGN – A volta de Lula e a suspeição de Moro, onde políticos, economistas e acadêmicos discutiram os impactos da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que anulou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a consequente audiência que discutiu a suspeição do ex-ministro e juiz Sergio Moro no processo.

“Polarização é o que: dois polos alternativos que disputam a política, e isso têm a ver com a dinâmica do processo de disputa, assim como nós tínhamos a polarização entre PSDB e PT, havia uma polarização, mas não havia extremismos nessa polarização”, explica Couto. “Hoje, há um extremismo que é do (presidente Jair) Bolsonaro, porque nós estamos falando da extrema-direita, mas o PT nunca foi extrema-esquerda – muito pelo contrário, nós estamos falando de uma esquerda de natureza social democrata, nada muito diferente do que a gente vê em democracias mundo afora”. 

Couto ressalta que, na realidade, o que existe atualmente é uma polarização assimétrica entre o PT e o bolsonarismo e, na medida em que são adversários claros um do outro, isso dificulta o espaço para os adversários, já que essas duas correntes ocupam um espaço maior dentro do cenário de competição – mas não se pode dizer que isso são favas contadas pois, para o cientista político, “o Bolsonaro está num processo contínuo de desgaste, que tem a ver com a catástrofe de sua gestão”. 

Além disso, Cláudio Couto pontua que “existe a possibilidade ao longo do processo eleitoral, daqui até 2022, do eventual surgimento de uma alternativa competitiva mais ao centro”, uma vez que existe espaço pra isso por causa do desgaste de Bolsonaro,  enquanto Lula irá ocupar o lado da esquerda. 

Se Lula “tiver uma postura de maior moderação, ele torna ainda mais difícil essa tarefa para o centro, porque uma eventual candidatura de centro-esquerda fica com mais dificuldade, se ele sinaliza uma postura mais firme à esquerda ele perde a possibilidade de entrar nesse campo”, ressalta o professor da FGV. 

“Vale a pena ver como ele vai se posicionar: virar um polo agregador dos democratas contra o autoritarismo bolsonarista, ou tentar firmar o pé numa posição mais dura à esquerda, que pode ter um efeito mais mobilizador da sua base, mas não necessariamente tão ampliador do ponto de vista de atrair eleitores que, mesmo tendo voltado no Bolsonaro, podem regressar e votar no PT”. 

Além disso, Couto recomenda o acompanhamento do debate em torno da chamada grande frente democrática, tão defendida por alguns políticos e estudiosos para combater o bolsonarismo. “Depende do que a gente tá chamando de grande frente, tem dois níveis de construção: uma é a frente eleitoral de coligações, que é natural ter uma dinâmica de várias coligações. Outra muito diferente e é essa que faz sentido quando se fala em frente democrática – é uma frente comum de resistência ao autoritarismo do governo Bolsonaro”.

Segundo o cientista político, a formação de uma frente de resistência ao autoritarismo de Bolsonaro pode congregar inclusive adversários das eleições de 2022. “Os partidos podem ser adversários, mas ter um compromisso comum em torno de uma adesão a certos procedimentos e princípios democráticos de modo a conter esse ímpeto de Bolsonaro”, ressalta Couto.

Confira o comentário de Claudio Couto abaixo:

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