4 de junho de 2026

As manifestações e as reivindicações para a educação

Sugerido por Assis Ribeiro

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Da Carta Capital

Educação em guerra

O estado do Rio, assim como São Paulo, desenterrou leis de segurança nacional da ditadura para tratar estudantes e professores como prototerroristas

por Vladimir Safatle

“Mais escolas, menos estádios.” Esta foi uma das frases mais ouvidas nas manifestações de junho. Ela indicava a consciência clara de que as prioridades de desenvolvimento estavam completamente invertidas. Mais do que isso. Que esta frase tenha sido enunciada em um contexto de revolta, eis algo a demonstrar como a população esperava mais ações e menos retórica em relação à educação. Pois esse é um tópico pitoresco da política brasileira. Não há partido ou programa que coloque a educação como a “mais prioritária das prioridades”. No entanto, vivemos atualmente um vácuo completo de propostas públicas educacionais.

Alguém poderia acreditar ser isso o resultado de conflitos intermináveis a respeito do que devemos fazer. Ledo engano. Afora alguns liberais completamente desconectados da realidade concreta das escolas, o prognóstico sobre o que deve ser feito é consensual em relação aos profissionais da educação. Ele passa pela valorização da carreira de professor a fim de atrair nossos melhores alunos para o magistério. Ela contempla também a implementação de escolas integrais e de inspetorias federais para garantir a qualidade do ensino. Não se faz nada nesse sentido porque a realização desses pontos é cara. Mas a ignorância é mais cara ainda.

Bem, o que vemos então depois de junho? Milhares de professores no Rio de Janeiro a se voltar contra um plano de carreira que, se implementado, destruiria de vez as profissões do magistério. Só mesmo alguém que nunca pisou em uma sala de aula pode apresentar à sociedade um plano como esse. Ele cria uma situação de não garantia para professores se fixarem em suas matérias específicas, o que tem um impacto decisivo na qualidade, tão debilitada, do ensino. Seu privilégio aos profissionais com dedicação de 40 horas semanais não garante que, dentro desse período, o número real de horas-aula necessárias para a pesquisa, para a preparação de aula, correção de trabalhos e outras atividades fundamentais à docência será respeitado. Ao contrário, vemos atualmente vários Estados à procura de meios para burlar o período computado fora da sala de aula, mas que faz parte do trabalho de todo e qualquer professor.

Em vez de discutir os problemas do plano em questão, o estado do Rio, assim como São Paulo, partiu para a criminalização brutal de manifestantes. Leis de segurança nacional da época da ditadura foram desenterradas para tratar estudantes e professores como prototerroristas. Setores da opinião pública conservadora recuperaram o velho mantra do corporativismo dos professores, mostrando que, no fundo, temem ver o Estado gastar o necessário com educação, em lugar de subsidiar empreiteiras e empresários com negócios da China. Ou seja, sempre vemos a mesma estratégia: quando as demandas da educação pública são colocadas na mesa, tudo o que ouvimos é a desqualificação das exigências dos professores. Talvez isso explique um pouco a razão pela qual nossa qualidade de ensino continue problemática.

Alguns desses “formadores” da opinião pública que se insurgem contra os professores gostam de falar sobre o salto educacional da Coreia ou da qualidade das escolas da Finlândia. Perguntem então quantas horas em sala de aula passam os professores finlandeses e qual o salário de um professor coreano. É algo em torno de 4 mil dólares.

É sintomático que o oferecido pelos governos para uma das pautas mais citadas das manifestações de junho seja algo para conseguir apenas acirrar os ânimos dos profissionais da educação. Isso demonstra claramente como o poder público continua a governar de costas para aqueles que têm o verdadeiro diagnóstico das situações e das dificuldades em nossas escolas. Na última greve de professores universitários, a mesma estratégia foi colocada em circulação. Tivemos de ouvir que professores seriam a “classe abastada” do serviço público. Esta é a única frase que o poder público tem a dizer quando confrontado com a inanição de suas políticas de educação.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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6 Comentários
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  1. Assis Ribeiro

    15 de outubro de 2013 1:08 pm

    A sociedade parte em apoio à

    A sociedade parte em apoio à elite para a criminalização brutal de qualquer tipo de manifestação. É esta sociedade que aplaudiu efusivamente o filme “Tropa de Elite”.

    É a sociedade do pega para capar, o culpado é o vizinho.

    Se os jovens de junho quer pediram, para todos, melhores escolas, saúde e transportes públicos eram coxinhas´, desocupados, baderneiros, fascistas, então o que são os pobres professores que igualmente paralisaram “a vida pública das cidades”, impedindo a livre ida e vinda dos transeuntes”, e etc., por melhorias dos seus próprios salários?

    Um Brasil onde manifestações por cidadania mínima, como melhoria de transportes, educação e saúde, como as realizadas em junho, são consideradas atos extremistas, golpistas, fascistas, movimentos criticados pela esquerda, pela direita, pelos que estão no andar de cima e pelos de baixo, está fadado a permanecer subdesenvolvido e conservador.

  2. Evaldo

    15 de outubro de 2013 2:05 pm

    Tenho minhas dúvidas se o que

    Tenho minhas dúvidas se o que se aplica do PIB em educação no Brasil é ou não suficiente. Pelo que leio, não está muito diferente de outros tantos países. A diferença é a estrutura criada para se fazer educação aqui.

    Desta forma, partilho da ideia de que educação deveria ser federalizada, evitando os intermediários que são estados e municípios. Onde, deve ocorrer desvios dessas verbas para outros fins.

    Não concordo também, que tenhamos professores de meio-expediente (20 horas). Um erro criado no passado, para dizer que tem professor em nº suficientes e gastar menos. Mesmo não atendendo os objetivos.

    É fato que parte desses professores de meio-expediente, também são empregados da iniciativa privada. E quando os horários não combinam, sacrificam os alunos da rede pública, faltando as aulas.

    O texto cita Coreia e Finlândia como comparativo. Mas vou “chutar” que lá deve ser seu único emprego.

    Pelo que entendi o impasse no RJ, se dá pela vontade do município em previlegiar os professores de dedicação integral (40 horas) e tentar atrair os professores de meio-expediente para uma adesão a dedicação integral.

    Essa medida, entendo ser necessária para o atendimento ao PNE, que está aprovado e que faz parte de uma “melhoria” tão solicitada pelos brasileiros.

    Pelos nº que pessaram pela mídia, um professor se aposenta com salário em torno de R$ 6.000,00( maior que do INSS), o piso salarial é em torno de 05 salários mínimos R$ 3900,00 (U$ 1800,00).

    Quanto ao confronto ou a criminilização dos manifestante por parte do estado e munícipio. Só vejo como resultado de erros das duas partes. Toda ação gera uma reação de igual ou maior intensidade. Como diz a física.

    Existe excessos das duas partes. E a briga é política. (Sindicato Politico x Governos)

    Gostaria no entanto, de professores bem remunerados, de dedicação integral e qualificados. Tudo isso, passa pela mudança de comportamento de um povo. Inclusive de muitos professores.

    PROFESSORES DE 40 HORAS. ESTOU COM VOCÊS.

     

    1. Reinaldo Melo

      15 de outubro de 2013 3:46 pm

      Você, provavelmente, não é

      Você, provavelmente, não é professor e não sabe que para uma boa aula o professor deve ter um tempo de preparo e pesquisa, o que uma jornada de 40 horas tornar impossível. 

  3. Arthemísia

    15 de outubro de 2013 3:38 pm

    Concordo com tudo o que o

    Concordo com tudo o que o autor expõe no texto, mas ainda acho que falta algo. Meu palpite é que a educação só é tratada dessa forma pelos governos porque nossa sociedade também não a vê como algo fundamental. Nossa educação é ruim tanto pública quanto privada, então não deve ser exclusivamente uma questão de investimentos, mas também de decisão pela própria formação. Esses fatores devem vir combinados, mas não consigo ver na população em geral nenhum apreço ou interesse pela educação, independente da classe social.

    Em regimes democráticos, governos não agem da melhor forma porque são bonzinhos, e sim para atender as pressões de quem os elege. E quem pressiona por boa educação no Brasil? Claro que lutar por salários decentes para os professores faz parte de uma boa educação; e o que mais? A pressão não deve vir apenas da ruas, mas deve estar nas escolas, nos municípios, nos governos estaduais. 

    Em tempo: a situação dos governos do Rio de Janeiro e de São Paulo é vergonhosa. Como os estados mais ricos da federação se comportam dessa forma em relação à educação? Isso não constiui escândalo para a imprensa? Estados que querem os royalties do petróleo só para si para apresentarem esses desempenhos lastimáveis em educação? 

  4. Arnaldo Costa

    15 de outubro de 2013 5:02 pm

    Protestos ou campanha política?

    Aécinho Picareta e seu seguidor Anastasia acabaram com a educação em Minas, humilharam professores, deixaram eles abaixo do piso federal exigido, mais de 100 dias de greve e ainda conseguiram pôr a culpa nos professores. Tudo com a cumplicidade e omissão da imprensa. Uma vergonha. Onde estavam esses manifestantes partidários coxinhas caras-de-pau quando isso aconteceu? Protestos são direcionados por bandeiras políticas? Um peso, duas medidas? Safados, oportunistas. Uma grande armação esses protestos. Não passam de campanhas políticas.

  5. Sergio J Dias

    16 de outubro de 2013 1:44 am

    Educação é caro

    É bom deixar claro, educação é um serviço caro. Basta colocar no papel o quanto a classe média gasta para formar seus filhos. Calcule você Nassif! Quanto você gastou para formar os seus? Se queremos dar este direito à todos os brasileiros teremos despender mais dinheiro. Não há outra saída. Temos de garantir, não só, um melhor salário para os professores, mas também, uma estrutura física e tecnológica de qualidade. Qualquer discussão acerca destes itens é bobagem.

    Neste sentido teremos que redirecionar nosso orçamento, mais dinheiro para educação e menos dinheiro para os investidores e para o pagamento da dívida pública.

     

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