O perfil do eleitorado brasileiro ajuda a explicar a atual configuração da disputa presidencial de 2026, marcada por uma polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Embora Lula apareça à frente nas pesquisas de primeiro turno, as simulações de segundo turno indicam uma disputa mais equilibrada.
A avaliação é da diretora do Datafolha, Luciana Chong, em entrevista à BBC News Brasil. Segundo ela, o detalhamento das pesquisas revela diferenças importantes entre faixas etárias, gênero, religião e grau de alinhamento político.
Um dos principais movimentos identificados pelo instituto está entre os eleitores com 60 anos ou mais. Esse grupo representa atualmente 23% do eleitorado e apresenta uma vantagem significativa para Lula em um eventual segundo turno.
Na última pesquisa mencionada por Chong, 55% dos eleitores dessa faixa etária declararam preferência pelo presidente, enquanto 37% optaram por Flávio Bolsonaro, uma diferença de 18 pontos percentuais.
Para a diretora do Datafolha, os idosos podem representar um segmento particularmente importante para o PT, embora ela ressalte que o Nordeste ainda apresenta uma vantagem mais consolidada para Lula.
“Talvez um segmento que esteja mais perto do que seria o Nordeste para o Lula sejam os mais velhos”, afirmou.
Idosos
Além da vantagem nas intenções de voto, os eleitores mais velhos demonstram maior definição sobre a escolha eleitoral. Na pesquisa espontânea para o primeiro turno, 34% dos entrevistados com 60 anos ou mais afirmaram ainda não saber em quem votar. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice chega a 46%.
Chong atribui parte desse comportamento ao envelhecimento da população e ao aumento da participação social dos idosos.
Segundo ela, pessoas com 60 ou 70 anos permanecem atualmente mais ativas profissional e socialmente do que em décadas anteriores. O grupo, portanto, ganhou importância tanto pelo tamanho quanto pela disposição de participar da eleição.
A diretora também relaciona a vantagem de Lula entre os idosos a políticas econômicas que afetam diretamente esse segmento, como a valorização do salário mínimo, que influencia benefícios previdenciários, e a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil.
“Geração Lava Jato”
Se os idosos aparecem como um grupo favorável a Lula, a situação é diferente entre os eleitores de 35 a 44 anos.
Chong chama essa parcela de “geração Lava Jato”, por ter acompanhado durante a vida adulta a operação que investigou um amplo esquema de corrupção envolvendo a Petrobras e diversos partidos políticos.
Nesse grupo, Flávio Bolsonaro aparece à frente de Lula em uma eventual disputa de segundo turno: 53% contra 38%.
A corrupção também surge com maior frequência entre as principais preocupações desses eleitores.
Para Chong, a faixa etária reúne pessoas que passaram parte significativa de suas vidas sob governos do PT e que acompanharam a intensa repercussão política e social das investigações da Lava Jato.
A diretora observa, porém, que o comportamento não é homogêneo entre todas as faixas etárias. Entre os eleitores mais jovens, Lula apresenta desempenho melhor, enquanto os mais velhos também demonstram maior apoio ao presidente.
Mulheres e jovens
Outro fator identificado pelo Datafolha é a manutenção da vantagem de Lula entre as mulheres. Segundo Chong, as eleitoras apresentam maior resistência a Flávio Bolsonaro, comportamento semelhante ao observado em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições anteriores.
Os jovens também tendem a se aproximar mais do presidente, enquanto os eleitores evangélicos permanecem mais alinhados à família Bolsonaro.
O instituto passou ainda a medir o grau de identificação política dos entrevistados por meio de uma escala que vai de “bolsonarista” a “petista”. A ferramenta permite identificar eleitores mais radicalmente alinhados a cada campo e também aqueles que se encontram no centro.
Esse grupo de não alinhados é considerado particularmente relevante para a disputa porque apresenta maior possibilidade de mudança de voto ao longo da campanha.
Segundo Chong, os eleitores não alinhados são predominantemente jovens, têm escolaridade média, vivem sobretudo em grandes cidades e não costumam declarar preferência partidária. Também há entre eles uma parcela significativa de pessoas sem religião.
Polarização
Apesar da presença de outros candidatos, Chong vê pouco espaço, neste momento, para uma ruptura da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Entre os nomes que tentam ocupar esse espaço estão os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além de Renan Santos (Missão), que disputa sua primeira eleição.
Segundo a diretora do Datafolha, Renan tem conseguido maior visibilidade entre os jovens, mas ainda apresenta baixo nível de conhecimento entre os eleitores de outras faixas etárias. A campanha, com debates e entrevistas, pode ampliar sua exposição, mas ela não acredita que, neste momento, o candidato ameace a polarização.
Caiado, por sua vez, possui forte conhecimento em Goiás, onde governou por dois mandatos, mas ainda precisa ampliar sua notoriedade nacional.
Para Chong, eventuais denúncias envolvendo os principais candidatos também podem alterar o cenário ao longo da campanha.
Eleição pode ser decidida pela rejeição
Na avaliação da diretora do Datafolha, a eleição apresenta características de uma disputa movida mais pela rejeição aos adversários do que pela identificação com propostas específicas.
Esse comportamento ajuda a explicar por que Lula apresenta vantagem mais ampla em cenários de primeiro turno, mas encontra uma disputa muito mais equilibrada quando colocado contra um candidato de direita em um eventual segundo turno.
Chong afirma que parte dos eleitores que hoje apoiam outros nomes pode migrar para Flávio caso ele seja o adversário de Lula na segunda etapa.
“É mais um voto anti-Lula do que naqueles candidatos que estão ali apresentados”, afirmou.
Na avaliação da diretora, esse movimento pode fazer com que diferentes segmentos da direita se unifiquem em torno de um único candidato no segundo turno.
Ela cita a eleição de 2022 como exemplo. Naquele ano, Lula terminou o primeiro turno à frente de Jair Bolsonaro, mas a vantagem diminuiu significativamente durante a segunda etapa, que terminou com uma diferença estreita entre os dois candidatos.
Campanha
Apesar da estabilidade observada até agora, Chong ressalta que a campanha eleitoral e o início da propaganda gratuita no rádio e na televisão ainda podem provocar mudanças nas intenções de voto.
A diretora considera que os meios tradicionais de comunicação continuam relevantes, mesmo diante do crescimento das redes sociais. Segundo ela, pesquisas sobre confiança em fontes de informação mostram que as redes são muito utilizadas, mas ainda apresentam níveis menores de confiança do que televisão, rádio e jornais.
A partir do início da campanha, o eleitorado não alinhado também poderá se tornar mais engajado e definir com maior clareza sua preferência.
Acerto das pesquisas
Outro tema abordado por Chong foi a proposta de criação de um selo de acurácia para pesquisas eleitorais. A diretora se posicionou contra a iniciativa e afirmou que o objetivo das pesquisas não deveria ser simplesmente antecipar o resultado oficial da eleição.
Segundo ela, as pesquisas servem para acompanhar a evolução da disputa, identificar o comportamento de diferentes segmentos do eleitorado e registrar as mudanças de opinião durante a campanha.
Chong também rejeitou a ideia de que institutos devam ser classificados pelo grau de proximidade entre suas pesquisas e o resultado final das urnas.
Ela argumentou que a pesquisa divulgada na véspera da eleição não pode ser comparada diretamente ao resultado oficial, já que os eleitores ainda podem mudar de decisão depois da realização do levantamento.
Na avaliação da diretora, apenas uma pesquisa de boca de urna poderia ser comparada diretamente com o resultado da votação, embora esse tipo de levantamento tenha perdido utilidade diante da rapidez da apuração eletrônica.
Institutos
Chong também defendeu o desempenho do Datafolha nas eleições de 2022, quando os institutos foram criticados por subestimarem o desempenho de Jair Bolsonaro no primeiro turno.
Ela reconheceu que o levantamento final do Datafolha ficou distante do resultado oficial, mas argumentou que as pesquisas identificaram corretamente tendências importantes da eleição, como a polarização entre Lula e Bolsonaro e a baixa possibilidade de crescimento de uma candidatura de terceira via.
Segundo a diretora, parte da diferença ocorreu porque eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet teriam decidido pelo chamado voto útil nos últimos momentos da campanha.
Para Chong, mudanças de última hora estão se tornando mais frequentes e devem ser consideradas na interpretação das pesquisas eleitorais.
Inteligência artificial
O Datafolha também utiliza ferramentas de inteligência artificial para aprimorar o controle de qualidade das pesquisas presenciais.
Segundo Chong, os pesquisadores realizam entrevistas utilizando tablets e os áudios são enviados para a sede do instituto. A inteligência artificial transcreve as conversas, permitindo comparar as respostas dadas pelos entrevistados com as informações registradas nos questionários.
Caso seja identificada alguma inconsistência, o instituto pode ampliar a checagem das entrevistas realizadas pelo pesquisador.
O Datafolha verifica pelo menos 20% do material produzido por cada pesquisador. Quando são encontrados problemas, a checagem pode chegar a 100% das entrevistas daquele profissional e, se necessário, o material pode ser substituído.
O instituto também utiliza o GPS dos tablets para verificar se o pesquisador esteve nos locais determinados para a realização da coleta.
Chong ressalta que a inteligência artificial é utilizada como ferramenta de controle e verificação, e não para elaborar os questionários.
Pesquisas presenciais
Apesar do crescimento das pesquisas eleitorais realizadas pela internet, o Datafolha continua utilizando entrevistas presenciais para os levantamentos eleitorais.
Segundo Chong, a metodologia permite alcançar com maior precisão diferentes perfis da população brasileira, incluindo moradores de cidades pequenas e eleitores com menor escolaridade.
A diretora argumenta que uma pesquisa online exigiria ponderações estatísticas maiores para compensar a dificuldade de alcançar determinados segmentos da população.
O Datafolha realiza pesquisas online em outras áreas, como estudos de mercado, mas considera que o formato presencial ainda oferece maior capacidade de representação para pesquisas eleitorais nacionais.
Para Chong, a diversidade de metodologias entre os institutos também é positiva para o setor, porque permite comparar abordagens diferentes e aprimorar as técnicas utilizadas na produção das pesquisas.
*Com informações da BBC News.
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