Liberdade, senso comum, categorias radiais e a festa nos neuronho, por Letícia Sallorenzo

Senhoras e senhores, sejam bem-vindos aos estudos que a Ciência Cognitiva faz do Senso Comum.

Liberdade, senso comum, categorias radiais e a festa nos neuronho

por Letícia Sallorenzo

Pega um cafezinho pra se concentrar, que o papo aqui vai longe. Pensa um pouquinho: o que é liberdade para você? Como você define liberdade?

Agora pensa outro tequinho: sua resposta é igual à minha, ou à do Luis Nassif? Você já deve estar imaginando que não, né?

Senhoras e senhores, sejam bem-vindos aos estudos que a Ciência Cognitiva faz do Senso Comum. E lá vou eu me valer do capítulo 1 do livro Moral Politics, do cientista cognitivo George Lakoff (que você já deve conhecer como “meu São George guerreiro”).

Categoria radial

Liberdade é um bom exemplo do que George Lakoff define como “categoria radial”. Esse trem daí não se define em termos de uma lista de propriedades ou características compartilhadas pelos membros mais destacados de uma categoria, que é como Eleanor Rosch começou a definir categorias e protótipos lá na década de 1970. As categorias radiais são uma variação em cima de um modelo central.

Então, vamos pensar em mãe, que é o melhor exemplo de categoria radial. Essa categoria é composta por quatro submodelos: aquela que te deu à luz; quem te deu 50% do seu material genético; quem te cria e te ama; a mulher do seu pai.

Segura a periquita que eu já vou falar do que você tá pensando: a vida moderna é um troço complexo, jogou esses quatro submodelos numa centrífuga, desarrumou as mãe tudo e nós temos que quem te deu 50% do seu material genético não é a mulher do seu pai, muito menos quem te dá amor e carinho incondicionais. E você organiza isso tudo nos neuronho, e cria outros submodelos: a mãe adotiva, a madrasta, a doadora de óvulo, a barriga de aluguel etcetcetc.

É assim que funciona uma categoria radial. É tipo a estação da Sé, de onde você vai pra (quase) tudo que é canto de São Paulo, de metrô, trem ou ônibus, fazendo ou não baldeação.

Essa tal liberdade

Isto posto, vamos seguir essa linha de raciocínio das categorias radiais pra definir Liberdade.

A gente tem várias ideias e modelos de liberdade: é poder sair à noite e ficar até tarde na festa do amiguinho (pré-adolescente), é não ter que dar satisfação pra mulher sobre sua vida, social ou sexual (homem solteiro / homem casado / homem divorciado / homem [você já entendeu, né?]), é poder transar com quem quiser sem compromisso (pra contemplar os fãs de Só pra Contrariar, e segurem vocês a periquita que eu vou trabalhar a dicotomia dessa música já já),  é sair do campo de concentração e nunca mais ser julgado pela sua religião (judeu na Segunda Guerra Mundial, pra ser bem restritiva).

Observe, a seguir, dois conceitos conflitantes de liberdade que se valem do verbo poder:

É poder andar com minha arma na cintura para me defender dos perigos do mundo X é poder andar nas ruas sem o medo de ser ameaçado pela arma de um doido qualquer. Entendeu, né? Liberdade é uma categoria radial, com vários submodelos, que se adaptam de acordo com o viés ideológico do usuário.

Observe também que, ainda que seja uma categoria radial, liberdade é uma palavra com definição menos estrita do que Mãe – mãe não tem viés ideológico, né?

Então, vamos pensar na letra de Paulo Sérgio Valle pra música do Só pra contrariar, porque ela vai nos levar a Bolsonaro (desculpa):

O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade / Se estou na solidão pensando em você

Eu nunca imaginei sentir tanta saudade / Meu coração não sabe como te esquecer

Essa letra trabalha a dicotomia liberdade X prisão, a partir da metáfora O AMOR É UMA PRISÃO. Pode conferir a letra ela é toda trabalhada na ideia amor = prisão. E a gente começa a entender o que Bolsonaro está fazendo com o discurso dele sobre a Liberdade.

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Bolsonaro trabalha sempre a ideia de que o antônimo de liberdade é prisão, seja ela individual ou nacional (uma nação subjugada a outra): “Eu peço que vocês cada vez mais se interessem por esse assunto. Se precisar, iremos à guerra. Mas eu quero um povo ao meu lado consciente do que está fazendo e de por quem está lutando”. No caso em destaque, Bolsonaro apresenta a nação dos seguidores dele subjugada à nação comandada por algum inimigo seu. Esse inimigo pode ser o Poder Judiciário (generalização pra STF, TSE, qualquer juiz do Supremo etcetc). Nesse mesmo discurso, ele deixa bem claro que quem não quer esse ideal de liberdade dele é “ladrão de liberdade” – ser ladrão é errado, então quem tá certo é ele.

Alguém deve ter dito a Bolsonaro trabalhar a ideia de que sem liberdade não há como viver, e ele entendeu um pouquinho errado: começou a dizer que Liberdade é mais importante que a própria vida, ou mais importante que oxigênio. Nesse raciocínio tosco, Bolsonaro se esquece que pessoas que são privadas de oxigênio acabam privadas de vida, e seus corpos são colocados em caixões que são lacrados e enterrados a sete palmos. Ele não percebe que uma das metáforas para morte é prisão. (Até nisso o sujeito é tosco, pelamor.)

Então, a partir do trabalho dos submodelos de uma categoria radial, Bolsonaro acaba por redefinir, recategorizar e ressignificar a ideia de Liberdade em seus seguidores. Até porque, seus algozes são apresentados (desde agosto do ano passado, diga-se) como Ditadores de Toga, e ele e suas redes sociais batem nessa tecla diuturnamente.

O objetivo é, lá no final (Outubro? Dezembro?), bater o pé e dizer que ele tem a liberdade de desconfiar do processo eleitoral, que ele luta pela liberdade enquanto os ditadores de toga querem aprisionar o Brasil.

Temos duas sortes nessa história toda: 1) ele não sabe fazer isso direito, porque instrução pesada pra isso ele tem (e não se espantem se descobrirem, lá pra frente, que Bolsonaro tinha consultoria de cientistas cognitivos. O projeto da coisa é muito bem feito, o executor é que é um bosta). Nota-se que quando ele tem que construir um raciocínio sozinho, ele mete os pés pelas mãos e 2) Geral tá pouco se lixando pra discursinho retórico e moral. A grande maioria dos brasileiros já entendeu que tem gente segurando o Estado Democrático de Direito na unha, quer a economia nos eixos e a normalidade de volta ao cotidiano.

E eu vou tentar dormir sem pensar na música do Só pra Contrariar, que tomou meus neuronho de refém e não quer mais largar.

Leticia Sallorenzo – Mestra em Linguística pela Universidade de Brasília (2018). Jornalista graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996). Graduaçao em Letras Português e respectivas Literaturas pela UnB (2019). Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração. Autora do livro Gramática da Manipulação, publicado pela Quintal Edições.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

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3 Comentários

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emerson57

- 2022-06-16 09:22:46

Liberdade para os seguidores da tia do zap é o direito de cancelar todos os que pensam diferente. Liberdade é continuar vitaliciamente a dancinha gloriosa do fora Dilma fora PêTê, vestido de verde e amarelo, contra os "kumunistes". Liberdade é fazer do tiquetoque bíblia própria contra o povo que apoia os "ladrões do Brasil" mesmo que não haja nenhuma prova do roubo. Não sabem estes que liberdade de fato é uma casinha de sapé no pé da serra, longe de tudo. Sem agua potável ou luz elétrica para não ter que pagar a conta para gringo na bolsa de Nova Yorque.

Paulo Dantas

- 2022-06-15 20:38:23

"A grande maioria dos brasileiros já entendeu..." , não estou certo disto dona Leticia, espero que a senhora esteja. "Categoria radial" , sempre aprendo algo com seus artigos.

AMBAR

- 2022-06-15 19:44:23

Liberdade é poder. Uma espécie de poder que concede ao seu detentor a idéia de além de fazer o que bem entende, poder até limitar a liberdade dos outros. O Livre, diferente do liberto, é o agente da voz ativa. aquele que determina a ação. Bolsonaro, nessa restrita definição acha-se tão livre que tudo o que ele resolve fazer está certo, não pode ser nem contido e nem contestado. Tão livre e "empoderado" que se sente que lhe seria impensável ver-se como simples cidadão comum e ter que respeitar a alguém ou alguma coisa . A evidência mais emblemática sobre a consciência de poder de Bolsonaro está no decreto que concedeu o indulto ao Daniel Silveira. Alí, Bolsonaro agiu como um imperador, cujas leis estado emanam diretamente de sua pessoa. Por isso os poderes constituidos não têm nenhum significado para ele a não ser no que lhe possam interessar pessoalmente. Ele não tem noção de cidadania, de ética ou de convivência em sociedade. Ele não nasceu pra qualquer trabalho e nem pra ser contrariado. Para ele até o saber incomoda. Ele não precisa saber nada do que não gosta. Vento batendo na cara, moto no meio das pernas roncando, muita gente achando lindo o seu "porte" e os seus embaçados olhos azuis. Dinheiro a rodo pra gastar, preocupação, só com quem quer tirar-lhe os poderes. Bolsonaro sabe o que é liberdade. Tem que ter medo mesmo. Ele prefere parar de respirar a perder essa liberdade que desfruta. E, convenhamos, o Bolsonaro é limítrofe. Ele não está capacitado para ilações maiores do que escolher entre comer uma farofa branca ou amarela na banquinha da dona Anézia. Ele não percebe que sua liberdade é de empoderado e não de poderoso. Assim que ele cair de paraquedas vai quebrar seus cascos na parede outra vez. Os ventos estão fortes.

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