Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?, por Raquel Domingues do Amaral

Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais?

Jornal GGN – Em maio de 2017, no site Pequenas Igrejas, a Juíza Federal Raquel Domingues do Amaral publicou artigo explicando o que são direitos, como são feitos, onde estão assegurados, quanta luta significou para conseguirmos, e milhares de vidas foram tragadas no turbilhão da luta. A cada direito desrespeitado carne do povo sobre o qual foi urdido é desperdiçada. E pergunta ela: ‘Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais?’.

Leia o artigo a seguir.

Recado aos pobres de Direita

por Raquel Domingues do Amaral

“Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens?

Sentem o seu cheiro?

Os direitos são feitos de suor, de sangue, de carne humana apodrecida nos campos de batalha, queimada em fogueiras!

Quando abro a Constituição no artigo quinto, além dos signos, dos enunciados vertidos em linguagem jurídica, sinto cheiro de sangue velho!

Vejo cabeças rolando de guilhotinas, jovens mutilados, mulheres ardendo nas chamas das fogueiras! Ouço o grito enlouquecido dos empalados.

Deparo-me com crianças famintas, enrijecidas por invernos rigorosos, falecidas às portas das fábricas com os estômagos vazios!

Sufoco-me nas chaminés dos Campos de concentração, expelindo cinzas humanas!

Vejo africanos convulsionando nos porões dos navios negreiros.

Ouço o gemido das mulheres indígenas violentadas.

Os direitos são feitos de fluido vital! Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade,
gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução!

Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais?

Engana-te! O direito é feito com a carne do povo! Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas …

Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos!

Quando se concretiza um direito, meus jovens, eterniza-se essas milhares vidas!

Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência!

O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!”

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